Vivemos em um tempo que glorifica a velocidade: entregas em menos de 24 horas, áudios em velocidade 2x, feeds que recarregam em milésimos de segundo, remédios que prometem resultados imediatos. Nesse ritmo frenético, cultivar a paciência é um ato de resistência: com preparo mental para manter a calma e desacelerar, ganhamos clareza, fortalecemos relações e nos reconectamos com o tempo real das coisas.
A boa notícia é que, segundo um estudo recente da University of California Riverside, nos Estados Unidos, a paciência é uma forma de regulação emocional que nos ajuda a lidar com alguns tipos de sentimentos desagradáveis. E desenvolvê-la é uma questão de estratégia, não de virtude. Como conseguir essa façanha?
Tipos de paciência
A paciência pode se manifestar de três formas diferentes. A primeira está relacionada à habilidade de manter a calma nas interações com outras pessoas, mesmo quando algum aspecto da personalidade delas (como o humor, o ritmo ou certos hábitos) provoca incômodo ou irritação. A segunda diz respeito à capacidade de atravessar momentos difíceis e, ainda assim, encontrar algum sentido ou aprendizado no processo —se aproximando da resiliência. Já a terceira envolve lidar com os pequenos aborrecimentos do dia a dia sem perder a linha.
Raízes do problema
Não é só o fenômeno da aceleração do tempo que ajuda a explicar a atual falta coletiva de paciência. Nas últimas décadas, a lógica da produtividade extrapolou o campo do trabalho e, como consequência, passamos a sentir a necessidade de otimizar até mesmo os momentos de lazer e descanso. Quem nunca aproveitou as refeições para resolver pendências da vida adulta? Ou sentiu culpa por simplesmente não estar fazendo nada?
Tempos atrás, situações de espera exigiam que a paciência fosse exercitada na prática. Na fila do banco ou em um almoço sem companhia, restava pouco a fazer além de observar o ambiente ou se perder nos próprios pensamentos. Hoje, ao menor sinal de tédio, recorremos ao celular. A escassez de paciência ainda reflete — ao mesmo tempo em que alimenta — problemas psíquicos típicos dos nossos tempos, como ansiedade, estresse crônico, depressão e burnout.
Complicando a vida
Quando estamos impacientes, nosso sistema nervoso fica em estado de alerta contínuo, o que dificulta a autorregulação emocional e intensifica os sentimentos de frustração, irritabilidade e inadequação. Isso pode gerar vários problemas, como decisões precipitadas, dificuldade para aprender coisas novas, desistência de projetos que demandam mais tempo para se concretizar e, principalmente, dificuldades nos relacionamentos.
A falta de paciência compromete nossa capacidade de tolerar quem está ao nosso redor, tornando o diálogo mais difícil e favorecendo o surgimento de conflitos. Não por acaso, de acordo com um estudo da Universidade Baylor, nos Estados Unidos, essa habilidade está ligada ao desenvolvimento da empatia e da generosidade — qualidades que nos permitem cultivar relações mais saudáveis e lidar melhor com frustrações e imprevistos.
Cultivando a paciência
Um primeiro passo pode ser listar o que faz você perder a paciência e se observar nesses momentos — sem autojulgamento. Esse exercício ajuda a interromper os ciclos de reatividade e irritação. Quando a impaciência surgir, vale tentar respirar devagar até acalmar o sistema nervoso e conseguir reavaliar a situação com mais clareza.
Assumir uma postura mais paciente também está diretamente ligado a viver com menos pressa, respeitando o tempo das coisas e agindo sem atropelar o processo. Examine sua rotina para tentar diferenciar quando realmente precisa fazer algo imediatamente e quando está apenas correndo no piloto automático.
Acompanhar plantas germinando, crescendo e florescendo, por exemplo, ajuda a nos reconectar com o tempo natural da vida. Estudos como o “Gardening is beneficial for health: A meta-analysis“, publicado no jornal ScienceDirect, mostram que cultivar um jardim ainda pode contribuir pro controle da ansiedade.
Esperar (o médico, o ônibus, a comida) sem recorrer às telas é uma ótima forma de exercitar esse “músculo”, assim como praticar atividades físicas em silêncio, sem música ou podcasts. Um estudo realizado em Hong Kong ainda conseguiu provar que a atenção plena — ou seja, manter os pensamentos no momento presente, observando o ambiente e as pessoas ao redor — é capaz de reduzir significativamente a sensação de tédio.
E aí também entram os trabalhos manuais. Crochê, bordado, pintura, cerâmica: ter uma atividade dessas como hobby ajuda a acalmar a mente. Além disso, o processo de aprender, lidar com erros e até esperar para ver uma peça pronta é um treino e tanto.



