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Em 6 de outubro de 2017, o financista Jeffrey Epstein enviou um email ao advogado Brad S. Karp, presidente de um proeminente escritório de direito em Wall Street. “Quão ruim é a história do Harvey Weinstein?”, pergunta. Karp responde: “Eu acho que é bem ruim —e ficando um pouco pior a cada dia”.
Na véspera, o jornal The New York Times havia publicado uma reportagem mostrando que Weinstein, um influente produtor de Hollywood, passara anos pagando para manter em silêncio mulheres vítimas de abuso sexual. Foi o início de uma onda de denúncias contra violência sexual cometida por homens em posições de poder, um movimento batizado de #MeToo.
Epstein tinha seus motivos para prestar atenção às denúncias. Ele já tinha uma condenação por abuso sexual de menores em 2008 que o levou a passar alguns meses na prisão. Onze anos depois, ele voltaria à prisão —e o #MeToo teve seu papel nisso.
A nova leva de documentos sobre o bilionário e suas conexões com homens (e algumas mulheres) poderosos no mundo inteiro mostra como Epstein e seu círculo social acompanharam com atenção, receio e às vezes deboche o desenrolar do #MeToo.
Em novembro de 2017, pouco mais de um mês depois do início das acusações contra Weinstein, ele comenta que tem recebido pedidos de “conselhos todos os dias”. “Com todos esses caras sendo expostos por assédio, minha reputação deu uma melhorada e tenho sido procurado para conselhos todos os dias etc”, escreveu para Joi Ito, presidente do Instituto de Tecnologia de Chiba, no Japão.
Ele comenta a demissão de Charlie Rose, apresentador de TV americano, com o jornalista inglês Thomas Landon: “Essa coisa do charley é maluca”. “O que você quer dizer com maluca. Não é surpreendente na verdade…”, responde Landon.
Epstein responde: “Claro que não. Não sei por que ele foi tão hipócrita e agressivo detalhando as acusações contra o Weinstein”. Ao mesmo tempo em que acompanhava de perto os desdobramentos com tom de fascínio, o financista não demonstrava muita preocupação.
O desdém pelas acusações aparece, por exemplo, em mensagens trocadas com o físico Lawrence Krauss, que em fevereiro de 2018 foi alvo de uma investigação do BuzzFeed News com acusações de assédio sexual na Universidade do Arizona. Em diversas trocas de mensagem com o financista, ele pede conselhos sobre como se defender.
Um ano e meio depois de as primeiras acusações contra Harvey Weinstein serem publicizadas, chegou a vez de Epstein. O nome dele já tinha aparecido em reportagens —a maioria questionando como o #MeToo ainda não havia chegado nele. Em julho de 2018, o advogado David Schoen faz referência a um texto publicado no tabloide Daily Beast. “Eu vejo que eles nunca perdem uma oportunidade de tentar te arrastar para dentro —vi um artigo outro dia perguntando como você ficou de fora da atenção do #metoo e te ligando ao Trump”, escreveu.
Em novembro daquele ano, o jornal Miami Herald publicou uma investigação de fôlego sobre o acordo que o financista conseguiu em 2008 para se livrar das acusações de solicitar prostituição de menores de idade. “O multimilionário de Palm Beach Jeffrey Epstein, 54, foi acusado de formar uma grande rede de garotas menores de idade”, dizia o texto.
No fim, apesar de ter se declarado culpado em duas acusações, Epstein foi condenado a passar 18 meses em uma cadeia de segurança mínima. Ele tinha o direito de sair 12 horas por dia para trabalhar, e terminou sendo liberado antes do prazo. Além disso, informou o Herald, o acordo extinguiu uma investigação federal contra Epstein que buscava entender se ele havia feito outras vítimas de exploração sexual.
Após a reportagem, autoridades federais voltaram a investigar o bilionário —o que levou a sua prisão no ano seguinte.
Se em 2008 Epstein conseguiu negociar um acordo que o poupou de uma investigação federal mais ampla e lhe rendeu uma pena branda, em 2018 o contexto era outro. O #MeToo alterou o clima cultural, a disposição das vítimas de falar e a receptividade do público às denúncias contra homens poderosos.
O que antes era tratado como escândalo isolado passou a ser lido como padrão estrutural. Foi nesse novo ambiente que surgiu a reportagem do Miami Herald. Sem o zeitgeist do #MeToo, talvez o nome de Epstein tivesse permanecido conhecido apenas entre seu círculo —já que, como disse Donald Trump à polícia em 2006, “todo mundo” sabia dos crimes dele.
Ainda sobre isso…
Está difícil encontrar espaço para falar de outra coisa além de violência sexual por aqui. Nesta terça-feira (10), o STJ (Superior Tribunal de Justiça) afastou o ministro Marco Buzzi, alvo de investigações sobre suspeitas de importunação sexual.
Na semana passada, uma mulher de 18 anos relatou ter sido agarrada e tocada pelo ministro, que tem 68 anos, durante um banho de mar em uma praia do litoral de Santa Catarina. A segunda acusação partiu de uma servidora, que afirmou ter sido assediada dentro do gabinete do magistrado.
O afastamento é cautelar, mas a Folha apurou que a tendência é que Buzzi seja aposentado compulsoriamente.
Autor: Folha








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