Se não tivesse havido escuta atenta e questionamento aos mais velhos, o mundo talvez não tivesse conhecido da mesma forma as vastas histórias de Gabriel García Márquez. “Cem Anos de Solidão” teria nascido da mescla de fatos e mitos contados ao escritor colombiano, vencedor do Nobel de Literatura, por seus avós, desde a infância.
Em “Do Amor e Outros Demônios”, García Márquez relata logo nas primeiras páginas que não se surpreendeu ao ver a longa cabeleira de uma marquesa quando uma cripta foi aberta 200 anos após sua morte. Quando menino, sua avó já lhe contava a lenda de uma “marquesinha de 12 anos cuja cabeleira se arrastava como a cauda de um vestido de noiva”. É essa história que ele transforma em romance.
Hoje, é comum que famílias vivam em casas, cidades, estados e até países diferentes. As festas de fim de ano, Natal e Ano Novo, trazem de volta a possibilidade de compartilhar histórias e fortalecer vínculos afetivos, especialmente com os mais velhos.
A escuta atenta com pessoas idosas, sobretudo em momentos de reunião familiar, pode ser decisiva para fortalecer vínculos, resgatar memórias e promover saúde mental, segundo a geriatra e psiquiatra Roberta França, especialista em longevidade consciente e saúde mental.
Para ela, o ponto de partida está na forma de perguntar. Em vez de questões apressadas ou já carregadas de respostas prontas, o ideal é demonstrar curiosidade genuína. “Não é perguntar ‘era bom, né?’, mas ‘como era o seu Natal?’, ‘tem alguma lembrança que você nunca esqueceu?’, ‘como você percebia essas datas quando era criança?’”, exemplifica.
A Folha ouviu pessoas idosas para saber o que elas gostariam que perguntasse a elas durante as confraternizações de fim de ano. As respostas apontam para um desejo recorrente de conversas que vão além do cotidiano, envolvendo lembranças importantes, pessoas marcantes e experiências de vida.
A aposentada Angela Maria Gomes, 80, diz que sempre manteve um diálogo aberto com a família, especialmente com filhas e netos. Ainda assim, afirma que a rotina acelerada muitas vezes dificulta a escuta. “Minhas filhas vivem com pressa”, diz.
Ela sente falta do tempo em que as festas de fim de ano reuniam todos à mesa, momentos que são cada vez mais raros. “Não tinha troca de presente, nem amigo oculto. A gente era pobre, mas rico em união, respeito e gratidão.”
Entre as memórias pouco presentes nas conversas atuais, Angela cita a infância passada em um internato, para onde foi aos 9 anos por decisão da mãe, que buscava garantir melhores estudos. “Fiquei lá até os 15 anos”, lembra. Pouco depois, conheceu o marido, com quem viveu por 33 anos, até a morte precoce dele, aos 49.
Professora por décadas na rede pública, ela acredita que valores como respeito, escuta e convivência se fortalecem quando há espaço para a troca entre gerações.
Não por acaso, o cinema recorre com frequência à memória dos mais velhos em forma de contação de histórias, como em “Diário de uma Paixão“, em que um homem idoso lê suas memórias para reconectar afetos, ou em “O Clube da Felicidade e da Sorte“, que acompanha histórias transmitidas entre mães e filhas.
Para o casal de aposentados Sérgio Teturo Miyazaki, 89, e Akiko Miyazaki, 85, o fim de ano é um dos raros momentos em que o tempo desacelera. Casados desde 1964, eles moram em São Paulo, perto das filhas e netos, mas sentem que conversas mais profundas costumam ficar em segundo plano.
No Natal, quando a família se reúne à mesa, surgem oportunidades de conversar sem pressa e relembrar a vida. Perguntas como “como foi o casamento?”, “como era criar filhos naquela época?” ou “como era o Natal quando vocês eram crianças?” são as que mais favorecem a conexão.
Akiko lembra de uma infância simples, sem presentes ou grandes enfeites. A imagem que ficou foi a de pequenas bolinhas penduradas na árvore ou, às vezes, nem isso. Como não tinham muito dinheiro, as bolas decoradas muitas vezes eram substituídas por balas.
Hoje, ela ainda não montou a decoração de Natal, algo dificultado pela perda total da visão, ocorrida há cerca de seis meses. Mesmo assim, diz que esses rituais oferecem uma chance de aproximação. Montar a árvore, por exemplo, costuma ser um momento de troca com os netos.
Sérgio, por sua vez, carrega memórias atravessadas pela história. Ainda criança, viveu no Japão durante os primeiros anos da Segunda Guerra Mundial. Lembra-se de uma chácara no fim da rua, onde colhiam tomates às escondidas, e as noites em que era preciso apagar todas as luzes por causa dos bombardeios.
“Eu era muito pequeno naquela época, era 1939, mas algumas coisas ficam: a chácara no fim da rua, a gente pegando tomate, esses flashes não somem.”
Ele conta que os momentos em família durante as festas de Natal sempre foram importantes. A ceia segue o ritual tradicional, e fazem “tudo que têm direito”, com comida e brincadeiras típicas da época, como amigo secreto.
Sérgio e Akiko afirmam que o tempo é curto. As filhas trabalham, os compromissos se acumulam, e nem sempre sobra espaço para conversas que ultrapassem os assuntos do dia a dia. Para eles, o que mais faz falta não é exatamente uma pergunta específica, mas a possibilidade de passar mais tempo juntos.
“Todo mundo tem suas ocupações, o tempo é muito corrido. Às vezes, falta tempo para conversar com calma”, diz Akiko.
Para a psiquiatra Roberta França, ouvir memórias não é apenas um gesto de afeto, mas de reconhecimento. Histórias da infância, do cotidiano e de outras épocas ajudam a reconstruir a memória familiar. “Quando você ouve seu avô ou sua avó contando uma história, essa também é a sua história”, afirma.
No caso de idosos com Alzheimer ou outras demências, ela reforça que a escuta deve ocorrer sem infantilização ou correções constantes. “O tempo deles é diferente do nosso. Cabe acolher a memória que surge.”
O psicólogo José Carlos Ferrigno, mestre e doutor em psicologia social e especialista em gerontologia pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG), diz que o bem-estar na velhice está diretamente ligado ao grau de integração da pessoa idosa à família, à comunidade e às relações cotidianas.
Mais do que formular perguntas específicas, o psicólogo destaca que o essencial é a demonstração de interesse genuíno. “Não se trata apenas de perguntar, mas de como se pergunta. É mostrar empatia, disponibilidade e curiosidade real pela pessoa”, diz.
O especialista lembra ainda que estudos de longo prazo apontam a integração social como um dos principais fatores de proteção à saúde mental. “O convívio, a participação e o sentimento de pertencimento são fundamentais para evitar sentimentos de solidão, abandono e rebaixamento da autoestima”, afirma.





