O Ibrachina Futebol Clube vive nos primeiros dias de 2026 o ponto mais alto desde a sua fundação, há pouco mais de cinco anos.
A recente fama chegou com a eliminação do favorito Palmeiras nas quartas de final da Copa São Paulo de juniores, na decisão por pênaltis. Antes da proeza, o time já havia superado Atlético Mineiro e Internacional.
A ascensão do clube com sede na Mooca, tradicional bairro da zona leste da capital, não é vista com surpresa por seus dirigentes e profissionais.
“Hoje, tirando os quatro grandes [Corinthians, Palmeiras, Santos e São Paulo] e o Red Bull Bragantino, o Ibrachina já é a sexta força de São Paulo. Temos campo, academia… Os atletas recebem suplementação e fazem cinco refeições diárias”, disse à Folha o técnico Renato Souza.
“Nossos jogadores têm convênio médico, colégio particular, plano odontológico. Cumprimos todas as exigências, por isso somos a primeira agremiação com trabalho voltado exclusivamente para a base a obter o Certificado de Clube Formador da CBF”, afirmou o diretor-executivo Gilberto Tavares, o Giba, que teve carreira de jogador abreviada por lesões e é filho do ex-lateral Gilberto Sorriso.
Criado durante a pandemia, em setembro de 2020, o clube é produto de um projeto social ligado ao Instituto Sociocultural Brasil China. O complexo Ibrachina Arena, de 12 mil metros quadrados, é certificado pela Fifa (Federação Internacional de Futebol) e funciona como um completo centro de treinamento. É também uma das sedes da Copinha.
“Apesar de termos só cinco anos, tentamos nos organizar primeiro para depois dar oportunidade aos jovens e distribuí-los para outros clubes. Geralmente, os clubes fazem isso só depois”, observou Tavares.
Presidido pelos irmãos e empresários Henrique e Thomas Law, os “Dragões da Mooca” trabalham com uma mentalidade formadora. A ideia do projeto é, desde a categoria sub-15, trabalhar jogadores para negociá-los, já que não há um time profissional.
Um dos destaques da campanha, o meia Luiz Fernando está negociado com o São Paulo. Outro caso de sucesso é o do meia-atacante Kauã Oliveira, negociado com o Sporting, de Portugal. O jogador, hoje com 22 anos, foi inscrito pelo clube europeu para a disputa da Champions League.
Desde janeiro de 2023 no clube, Renato Souza assumiu a equipe sub-20 em junho do ano passado, após bons trabalhos nas categorias sub-16 e no sub-17, mas em situação delicada. Na ocasião, o Ibrachina estava ameaçado de rebaixamento no Campeonato Paulista da categoria, planejando ampla reformulação.
“Muitos jogadores estavam desacreditados. Fomos montando um time mais competitivo e aguerrido, optamos por dar oportunidades. Ainda conseguimos uma reação para classificar o time. Nossa última derrota foi para o Grêmio Prudente, há 22 jogos”, disse o treinador.
“O Enrico, nosso camisa 9, chegou no decorrer do Paulista depois de ter sido mandado embora do Vila Nova. Ele já não queria mais jogar futebol, pensava em parar para ajudar o pai a trabalhar. Encarou o Ibrachina como sua última oportunidade. Hoje, é um dos destaques”, relatou.
Também tem se destacado o goleiro Gabriel Sena, que defendeu um pênalti decisivo contra o Santo André e outros dois diante do Palmeiras.
Para Giba, o segredo do sucesso está na aplicação de princípios simples de jogo, que atravessam todas as categorias de base: a metodologia de um “futebol raiz”, que valoriza constantemente o talento natural dos jogadores e menos padrões.
“Enxergamos um futebol mais raiz, o que incomoda algumas pessoas. Valorizamos o jogo mano a mano, sem ter um jogador na sobra, que duela o tempo todo. Resgatamos o que era aplicado antigamente, como os treinos coletivos, enquanto hoje só se fazem trabalhos reduzidos. Nossa pré-temporada é só física”, descreveu.
O próximo desafio será contra o São Paulo, às 21h30 desta quinta-feira (22). O jogo, que vale vaga na decisão da Copinha, terá transmissão da CazéTV.
“Comemoramos muito, mas digo que é preciso virar a chave rapidamente. A vitória contra o Palmeiras mudou o nosso dia, mas, se eles seguirem, poderão mudar a vida de gerações da família”, disse Souza.
Neste ano, a equipe disputará pela primeira vez uma competição nacional de base, a Copa do Brasil sub-17. E tem planos de estabelecer um elenco profissional.
“Temos vontade de fazer o profissional, até para diminuir o risco de quem está no último ano de sub-20. Venho com o menino desde o sub-15, e o que sobra para ele se não vingar logo? Sonhamos com o profissional para ter sequência”, afirmou Souza.
“Ainda esbarramos na dificuldade de ampliar a capacidade de público de nosso estádio e outros pontos. Mas sinto que no máximo em dois anos teremos uma equipe profissional. Estamos próximos”, disse Giba.
Autor: Folha







