Todo Ano Novo Lunar, as marcas lançam produtos temáticos do animal do zodíaco e itens na cor vermelha da sorte. Este ano, há um produto que se destacou em meio a tudo isso: o Adidas Chinese Track Top.
Ele não foi explicitamente comercializado para a temporada festiva, mas acabou sendo apelidado nas redes sociais de “jaqueta de Ano Novo Chinês” ou “jaqueta Tang” no TikTok e Instagram, onde vem se tornando viral nos últimos meses após a versão mais recente estrear na Semana de Moda de Xangai.
Inicialmente vendidas apenas na China e depois em alguns mercados asiáticos antes de chegarem à Europa em fevereiro, as jaquetas se tornaram um verdadeiro objeto de desejo entre a Geração Z — e um símbolo do crescente interesse dos jovens por tudo que é relacionado à China.
O apelido faz referência à semelhança com o traje Tang, uma vestimenta histórica que remonta à dinastia Qing, com uma versão ainda mais antiga, o “ma gua”, usada por cavaleiros a partir de meados do século XVII. Elas compartilham alguns detalhes de design importantes: fechos ornamentais com nós, conhecidos como botões “frog” ou “pankou”, e gola alta estilo mandarim.
Um vídeo intitulado “POV: seu pai acabou de voltar da China”, que mostra um homem distribuindo as blusas para familiares tirando-as de uma mala, foi assistido mais de 2,6 milhões de vezes; outro, de uma jovem caminhando pelas ruas com uma versão cinza-escura, acumulou mais de 1 milhão de visualizações no TikTok e Instagram. “Voei para a China por causa dessa jaqueta viral. Valeu muito a pena”, diz a legenda.
A CNN ligou para lojas da Adidas em várias grandes cidades chinesas e constatou que as jaquetas estavam completamente esgotadas ou disponíveis apenas em algumas cores. Revendedores online como a StockX agora as oferecem por até US$ 400.
Não é a primeira vez que a gigante alemã de artigos esportivos se inspira na estética chinesa, e o sucesso das novas jaquetas não se deve apenas à fórmula clássica de hype e escassez. Elas surgiram em um ponto fascinante de interseção entre identidade, cultura de internet e até geopolítica.
Nos últimos anos, jovens na China têm promovido a tendência “xinzhongshi”, ou “novo estilo chinês”, que moderniza designs tradicionais e reflete a crescente confiança dos consumidores em sua identidade nacional e cultural. O termo virou ferramenta de marketing nas lucrativas plataformas de e-commerce do país e também ganhou as ruas, onde versões modernas de peças centenárias como o “mamianqun” (saia “cara de cavalo”) tornaram-se cada vez mais comuns. Designers chineses como Samuel Gui Yang vêm incorporando elementos de “chinesidade” em suas criações há mais de uma década, muitas vezes com resultados sofisticados.
A jaqueta da Adidas chega “durante a ascensão contínua do Novo Estilo Chinês, e em meio a antigas questões sobre como expressar a identidade chinesa moderna na moda”, afirmou Sarah Cheang, historiadora de design do Royal College of Art, no Reino Unido. Segundo ela, o design oferece uma alternativa refrescante aos “estereótipos de dragões”, já que sua semelhança com os trajes Tang ajuda a “afastar associações com agressividade e mitologia chinesa, aproximando-as de tradições chinesas de contemplação, erudição e práticas de equilíbrio interior, como o tai chi”.
A Adidas afirmou que a jaqueta foi criada por sua equipe de design baseada em Xangai, com foco no consumidor chinês, como parte de uma estratégia mais ampla de desenvolver produtos dentro — e para — o mercado doméstico do país. A empresa também já realizou colaborações de Ano Novo Chinês com designers locais, como Gui Yang, e celebridades como o ator e cantor Edison Chen, nascido no Canadá e criado em Hong Kong. (Os números indicam que a estratégia de localização está funcionando: a Adidas relatou aumento de 10% nas receitas na China em 2024, uma recuperação significativa após uma queda de 36% nas vendas no país em 2022.)
Mas independentemente de para quem a jaqueta foi pensada originalmente, sua estética marcadamente chinesa conquistou o mundo. O burburinho coincidiu com o meme viral “Você me conheceu em uma fase muito chinesa da minha vida”, parte de uma tendência mais ampla chamada “Chinesemaxxing”, na qual jovens da Geração Z demonstram apreço por aspectos da cultura, gastronomia, bem-estar e tecnologia chineses. O fenômeno parece refletir um desencanto com a percepção de instabilidade e declínio dos Estados Unidos como superpotência, em um momento em que a posição global e o “soft power” da China crescem.
“Está acontecendo no momento certo, com essa tendência de ‘tornar-se chinês’ no Ocidente e essa mudança geral para uma imagem mais positiva da China e da cultura chinesa”, afirmou Bohan Qiu, fundador da agência criativa e de consultoria Boh Project, com sede em Xangai. As jaquetas são “a armadura perfeita, ou a peça de moda ideal, para unir essa tendência”.
Usuários das redes sociais também têm feito piadas sobre a popularidade das jaquetas entre a diáspora asiática. Em um vídeo humorístico no TikTok, o criador de conteúdo Chris Zou, de Toronto, diz ter comprado três e relembra — usando sua versão bordô — o momento em que visitou a China e percebeu que “todas as pessoas que estão comprando e usando essas jaquetas em público nem são chinesas — são singapurenses, malaios, americanos, australianos”.
“Usar essa jaqueta me faz parecer estrangeiro?”, contou ter perguntado aos moradores locais, que responderam: “Você meio que parece um chinês do exterior tentando desesperadamente se reconectar com suas raízes.”
Em outro esquete amplamente compartilhado no Instagram, Sam Li e Quentin Nguyen-Duy interpretam dois jovens asiático-americanos viajando para a Ásia para “se reconectar com suas raízes”. A dupla — que precisou pegar jaquetas emprestadas de amigos, já que estavam esgotadas em todas as lojas da Adidas que visitaram em Taipei, Taiwan — aparece fumando agachada e dizendo “Ni-howdy” para transeuntes enquanto tentam, atrapalhadamente, se conectar com a cultura local.
Nguyen-Duy disse à CNN que a jaqueta era um elemento essencial, pois “é a melhor representação visual de asiático-americanos tentando se tornar mais asiáticos ao longo dos anos, de uma maneira meio performática”.
“Para mim, foi ver meus amigos (asiáticos) que cresceram na América — seja em San Mateo, San Francisco, na Bay Area ou no interior de Nova York — fazendo unboxing e dizendo, com sotaque californiano: ‘Oi, gente, olha essa nova jaqueta estilo mandarim viral’”, riu Li, que é sino-americano. “Achei interessante esse contraste de alguém que é, em muitos aspectos, muito americano, experimentando a cultura asiática através da Adidas.”
Brincadeiras à parte, Nguyen-Duy acredita que o interesse internacional surgiu porque “uma marca extremamente reconhecida” pegou o design chinês e o misturou de forma acessível e popular.
Qiu concordou, chamando a jaqueta de “um item que abre portas e que levará mais pessoas a querer descobrir o estilo chinês”. Ele acrescentou que alguns designers na China já avançaram além da simples incorporação de elementos tradicionais para o que chamou de “próxima fase” — uma abordagem mais profunda de criar roupas fundamentadas não apenas na herança chinesa, mas também na filosofia.
Os fechos “pankou” estão apenas “arranhando a superfície”. “Há uma quantidade infinita de referências que se pode extrair do design e da indumentária chinesa, porque sua história é muito longa. Todas as dinastias têm diferentes elementos de design, técnicas e formas de confeccionar roupas.”
Autor: CNN Brasil








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