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O que um E.T. que pousasse na Terra entenderia como PAZ? Talvez algo distinto do que passou no Conselho criado por Donald Trump

Por Pedro Lima

O xadrez político é algo bem estranho, por vezes (e muitas!), contraditório. E quando envolve forças globais fica mais intrincado ainda. Um exemplo recente foi o Conselho da Paz criado por nada menos do que Donald Trump. Sim, aquele que iniciou o governo virando as regras do comércio mundial de ponta cabeça. Sim, o mesmo que fala em tomar Canadá e Groenlândia com a naturalidade de quem negocia um campo de golfe. E agora, no mesmo instante em que fala de paz, ameaça o Irã com um prazo de 10 a 15 dias para aceitar um acordo nuclear… Ou coisas realmente ruins acontecerão, nas palavras do presidente dos Estados Unidos.

Se um extraterrestre pousasse na Terra hoje e assistisse a essa sequência de manchetes, provavelmente pensaria que PAZ é apenas um nome criativo para reorganização estratégica sob pressão.

O Conselho da Paz foi apresentado como uma iniciativa histórica para estabilizar e reconstruir Gaza. Bilhões prometidos, tropas internacionais discutidas, governança transitória desenhada. No palco, discurso de reconstrução e cooperação. Nos bastidores, reforço militar no Oriente Médio, porta-aviões reposicionados, linguagem de ultimato contra Teerã. É quase uma coreografia diplomática em que a mão direita distribui promessas enquanto a esquerda ajusta o cronômetro.

E então entram os slides. Jared Kushner, genro de Trump, apresentou em Davos projeções de uma Gaza reconstruída em tempo recorde (algo como três anos !) com faixa litorânea turística, zonas industriais modernas e até centros de dados. Renderizações elegantes, urbanismo futurista, ar de Smart City pós-conflito. Tudo muito limpo, muito organizado, muito distante da poeira e dos escombros reais.

O detalhe é que até estimativas técnicas mais conservadoras apontam que só a remoção de destroços e a desminagem poderiam levar muito mais tempo. Mas nos slides a reconstrução parece quase um cronograma de obra privada: fase 1, fase 2, inauguração. É a diplomacia do PowerPoint: visualmente impecável, politicamente sedutora e estrategicamente otimista.

Enquanto isso, o próprio presidente diz querer China e Rússia dentro do Conselho da Paz, como se a ampliação do clube resolvesse a tensão estrutural. Ao mesmo tempo, mantém o Irã sob contagem regressiva pública. Convida potências nucleares para um fórum de paz enquanto sinaliza que pode iniciar mais um capítulo de instabilidade regional se as negociações falharem.

E é aqui que a engrenagem começa a ranger.

Se o objetivo declarado é estabilizar Gaza e evitar novos ciclos de violência no Oriente Médio, a ameaça de uma ação militar contra o Irã caminha exatamente na direção oposta. Um ataque americano contra Teerã, ou mesmo a escalada de tensão que antecede esse cenário, não ficaria restrito ao dossiê nuclear. Ele teria impacto direto sobre aliados regionais, sobre o Estreito de Ormuz, sobre preços de energia, sobre milícias alinhadas ao Irã e, inevitavelmente, sobre qualquer tentativa de estabilização em Gaza.

Em outras palavras: é difícil vender a ideia de reconstrução enquanto se testa o pavio de outro barril de pólvora. O prazo de 10 a 15 dias imposto ao Irã não é apenas retórica dura, mas um cronômetro político que pode redefinir completamente o tabuleiro. Se houver acordo, Trump poderá dizer que pressionou até o limite e trouxe Teerã à mesa. Se não houver, a própria narrativa de paz será atravessada por uma decisão militar que amplia a instabilidade que o Conselho diz querer reduzir.

O contraste, então, deixa de ser estilístico e passa a ser estrutural: ou o Conselho da Paz é o eixo central da estratégia americana para o Oriente Médio, ou é um capítulo paralelo, quase decorativo, enquanto a política real se desenrola na lógica da pressão máxima.

Talvez seja essa a essência do xadrez estranho que abre esta história. A paz aparece no discurso como objetivo final, seguindo a política de “paz por meio da força” do governo Trump, mas a movimentação das peças sugere que a prioridade continua sendo coerção e demonstração de força. E quando a diplomacia nasce sob a sombra explícita do ultimato, a palavra “paz” passa a soar menos como propósito e mais como ferramenta. Ele mesmo disse na reunião: “uma palavra fácil de dizer, mas difícil de produzir: paz”.

No fim, o mundo pode até se acostumar com essa dualidade. Mas, para quem observa de fora, permanece a pergunta incômoda: é possível construir estabilidade ameaçando expandir o conflito ao mesmo tempo?

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