Entre os Estados Unidos, que lideram o desenvolvimento dos modelos mais avançados de inteligência artificial, e a China, que corre atrás para reduzir sua dependência tecnológica, a Coreia do Sul tenta construir um caminho próprio.
O país, que abriga duas das empresas mais importantes da cadeia global de semicondutores vem se beneficiando da explosão de investimentos no setor. Mas, ao contrário das duas maiores potências, parece menos preocupado em criar o próximo ChatGPT do que em responder a uma dúvida prática: como tornar a tecnologia relevante para a economia e as pessoas comuns.
“Ser o número dois dá para o gasto. Ser o número três é complicado”, disse Kim Woo-chang, secretário presidencial para política nacional de inteligência artificial, ao comentar a concentração do mercado em entrevista a jornalistas.
A observação resume um dos principais desafios enfrentados pelo país do leste asiático.
Embora a Coreia esteja entre as economias mais avançadas do mundo em áreas como semicondutores, conectividade e manufatura, a corrida da IA generativa continua concentrada em empresas americanas e chinesas, que disputam palmo a palmo a liderança, de acordo com edição do AI Index da Universidade Stanford publicada em abril.
A posição coreana, porém, não é irrelevante, aparecendo em terceiro lugar no mesmo relatório em quesitos como desenvolvimento de modelos de linguagem próprios.
Mas os grandes trunfos são a Samsung e a SK Hynix, principais fabricantes mundiais de chips de memória de alta largura de banda (HBM), usados em data centers e considerados essenciais para o treinamento e a operação dos sistemas de inteligência artificial avançados como aqueles desenvolvidos por OpenAI, Anthropic e DeepSeek.
Impulsionadas pela corrida por infraestrutura computacional, as ações das duas empresas acumulam valorização de cerca de 140% (Samsung) e 200% (SK Hynix) neste ano, fazendo-as alcançar pela primeira vez o clube restrito das empresas de avaliadas em mais de US$ 1 trilhão.
Apesar dessa relevância crescente, inclusive para a economia coreana, o secretário para IA afirma que o debate global ainda está excessivamente concentrado nos modelos.
Segundo ele, a transformação mais importante ocorrerá quando a tecnologia for incorporada de forma ampla a setores como saúde, educação, indústria e serviços públicos de modo a aumentar a eficiência e impulsionar o crescimento econômico.
“Tento usar a noção de transformação da IA de uma forma que seja ordenada, pacífica, inclusiva e centrada no ser humano. Não digo isso por conveniência, mas sim porque faz muito sentido do ponto de vista comercial. Sem isso, acredito que a atual onda de investimentos não se sustenta. Precisamos de um caso de uso em nível nacional, em que o sistema de saúde melhore, a expectativa de vida de um determinado país aumente e, consequentemente, a economia cresça”, disse.
A visão ajuda a explicar por que o governo coreano tem insistido em uma agenda que combina investimentos em infraestrutura, formação de talentos e expansão do uso da tecnologia em diferentes setores.
Parte dessa urgência é também econômica. A Coreia do Sul enfrenta uma das menores taxas de fecundidade do mundo (0,8 filho por mulher em 2025) e uma população em rápido envelhecimento. Ao mesmo tempo, lida com a crescente concorrência chinesa em setores que durante décadas impulsionaram o desenvolvimento local, como eletrônicos, siderurgia, química e manufatura.
Nesse contexto, mesmo pequenos ganhos de produtividade tornaram-se uma necessidade, e a IA é vista por autoridades, pesquisadores e empresários como uma das principais ferramentas para resolver esse quebra-cabeça.
Na última semana, a Folha visitou projetos ligados ao uso de inteligência artificial em áreas como saúde, educação, gestão urbana e manufatura no país. Todos compartilhavam uma lógica semelhante: utilizar a tecnologia para ampliar a capacidade de sistemas já existentes, de prontuários médicos à robótica avançada.
A percepção também apareceu no setor privado. Fundada há dez anos como uma startup de tecnologia educacional, a Elice se redirecionou nos últimos anos para equipamentos voltados à inteligência artificial. Hoje, a empresa opera centros de processamento voltados para aplicações de IA e aposta em data centers modulares, mais portáteis e com melhor relação custo-benefício, como alternativa aos modelos tradicionais cada vez mais concorridos.
Para o CEO da startup, Kim Jaewon, a Coreia pode ocupar uma posição intermediária em um cenário cada vez mais polarizado. “Podemos ser um terceiro país, mais neutro”, disse em entrevista na sede da empresa.
Segundo ele, muitos países buscam formas de desenvolver capacidades próprias em IA sem depender completamente de plataformas americanas ou chinesas. A aposta da empresa hoje é oferecer a base que permita esse desenvolvimento de forma mais acessível —o segmento já representa 70% das receitas, superando o negócio original.
“O custo de utilização dos modelos de IA está aumentando, então acredito que a lacuna entre os países avançados em IA e os países menos capacitados em IA irá se ampliar. Um dos nossos objetivos é reduzir essa lacuna”, disse.
Se a estratégia de universalização garantirá resultados amplos para toda a economia ainda é uma incógnita também sujeita aos próprios avanços da tecnologia.
Sinal disso é que o próprio arcabouço legal que sustenta parte dessa visão do governo coreano, o AI Basic Act, teve sua vigência adiada em um ano para contemplar eventuais novas mudanças. Para Kim Woo-chang, secretário do presidente Lee Jae-myung para o setor, 80% da lei visa facilitar avanços, enquanto 20% pode ser considerado regulação.
“Haverá efeitos colaterais, sem dúvida, mas se o resultado da transformação for extremamente positivo, não há razão para falarmos em regulação. Esperamos que a transformação causada pela IA seja ordenada, pacífica, inclusiva e centrada no ser humano. E admito que não é uma tarefa trivial. É um desafio enorme, especialmente considerando que o ecossistema de IA é dominado pelos EUA e pela China”.
“Talvez estejamos à beira de um mundo completamente diferente. E, de alguma forma, teremos a chance de definir como será o futuro”, disse.
Autor: Folha








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