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corrida global mira reservas do Brasil, mas há alerta

O mundo quer o que está enterrado no Brasil. Empresas americanas, canadenses e australianas correm para garantir posição nas reservas brasileiras de terras raras e minerais críticos – insumos usados em produtos que vão de smartphones a sistemas de defesa.

Os investimentos previstos nesses projetos já superam R$ 10 bilhões. O problema é que o Brasil já esteve nesse jogo antes, saiu de mãos vazias e corre o risco de repetir o mesmo erro: exportar matéria-prima a US$ 10 o quilo e importar componentes processados a milhares de dólares.

Com a China restringindo exportações de terras raras, Estados Unidos e Europa correm para reduzir sua dependência de Pequim. Nesse cenário, o Brasil se tornou peça central do tabuleiro, mas a distância entre atrair capital estrangeiro e construir uma cadeia produtiva real é o nó que o país ainda não aprendeu a desatar.

O tamanho das reservas brasileiras

O Brasil detém a segunda maior reserva mundial de terras raras, com depósitos que combinam abundância e viabilidade técnica de extração. A Cabo Verde Mineração, no sul de Minas Gerais, identificou reservas superiores a 500 milhões de toneladas em uma área de 91 mil hectares.

São argilas iônicas, um tipo de solo que facilita a extração, ao contrário das reservas em rocha dura comuns em outros países. Os testes indicaram recuperações de até 81,7% dos óxidos de terras raras – índice alto para depósitos desse tipo.

O conjunto de projetos se completa com Colossus, em Poços de Caldas (MG), descrito como o maior depósito de argila iônica do mundo; o complexo de Barreiro, em Araxá (MG); e os projetos da Atlas Critical Minerals em Minas Gerais e Goiás – todos com operação prevista entre 2027 e 2028.

“O Brasil está em uma posição global muito melhor do que o próprio governo em Brasília consegue apreciar”, diz Christopher Garman, diretor da consultoria Eurasia para o Brasil. A fragmentação das cadeias produtivas globais e a disputa entre potências colocaram o país no centro do jogo geopolítico.

Da Casa Branca a Brasília, todos querem uma fatia

A Development Finance Corporation (DFC), braço de financiamento ao desenvolvimento dos Estados Unidos, assinou um acordo de US$ 565 milhões com a mineradora Serra Verde para expandir a mina Pela Ema, em Goiás. É a primeira mina de terras raras em operação comercial no Brasil.

O caso foi apresentado como exemplar na Reunião Ministerial de Minerais Críticos convocada pelo secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, no início de fevereiro.

O interesse americano não é isolado. No campo diplomático, o Brasil avançou. Em visita à Índia, o presidente Lula assinou com o primeiro-ministro Modi um acordo sobre minerais críticos, contemplando cooperação no processamento e uso de inteligência artificial para análise de dados geológicos.

Na Coreia do Sul, primeira visita de Estado de um presidente brasileiro ao país em 21 anos, foram assinados dez memorandos de entendimento em minerais estratégicos e inteligência artificial.

Esse movimento diplomático também tem chegado aos estados brasileiros. O governador de Goiás, Ronaldo Caiado, viajou a Washington no início de fevereiro para apresentar o potencial mineral do estado e buscar acordos estratégicos voltados à exploração de minerais estratégicos e terras raras.

Em reuniões com a própria DFC e com o Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS), Caiado defendeu parcerias que assegurem a transferência de tecnologia – condição para que Goiás não seja apenas um fornecedor de matéria-prima, mas também realize a separação e o processamento dos materiais localmente.

A iniciativa se insere na estratégia norte-americana de reduzir a dependência da China e tem como trunfo o fato de o estado abrigar a única mina privada de terras raras em operação comercial no país.

Minério no chão, dinheiro na China

O Brasil processa cerca de 20 toneladas anuais de óxidos de terras raras separados, enquanto a China processa 270 mil.

“Ter o minério no chão é apenas 10% do desafio”, diz Fernando Landgraf, professor da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP). Para ele, o Brasil foca no subsolo enquanto o valor está no processamento e no refino. “A China tomou uma decisão estratégica há décadas: dominar toda a cadeia produtiva das terras raras. É isso que falta ao Brasil.”

O entrave é também químico. Henrique Eisi Toma, do Instituto de Química da USP, explica que o termo “raras” se justifica pela dificuldade técnica de separação, não pela escassez física. “O problema é que eles estão presentes em concentrações muito baixas e têm grande similaridade química entre si, o que exige tecnologias avançadas para extração e refino”, diz.

Sem dominar essa etapa, o Brasil segue importando até compostos básicos como o lantânio, insumo essencial para a indústria do petróleo.

Problemas macroeconômicos, porém, ameaçam travar possibilidades de avanço. A taxa Selic está em 15% ao ano, a mais elevada em quase duas décadas, e 69% dos líderes empresariais ouvidos pela Amcham Brasil apontam o desequilíbrio fiscal como o maior risco aos negócios.

Com esse custo, nenhuma fábrica que demora anos para dar retorno consegue fechar a conta, e o investimento produtivo perde espaço para aplicações financeiras.

Garman alerta que a incapacidade de Brasília em tratar os déficits mantém as taxas de juros reais em níveis proibitivos. “Quando o governo busca o equilíbrio das contas apenas por meio do aumento da arrecadação, ele retira recursos que seriam destinados ao investimento privado, a verdadeira formação de capital, para sustentar despesas correntes de uma máquina estatal ineficiente”, explica. O dinheiro que deveria financiar infraestrutura vai para o custeio do Estado.

O Instituto de Logística e Supply Chain (Ilos) aponta que o Brasil transporta hoje 25% mais carga do que há uma década, utilizando praticamente a mesma estrutura física. Esse quadro alimenta o Custo Brasil – o conjunto de ineficiências estruturais que encarecem a produção nacional – e torna o produto processado localmente menos competitivo do que o importado.

“Sem estratégias de digitalização e modernização logística que reduzam custos, o país continuará sendo um simples espectador da onda tecnológica”, alerta Thomas Gautier, CEO da Freto, transportadora digital de cargas. Sem uma estratégia que integre rodovias, ferrovias e hidrovias, a vantagem geológica se anula.

Mas mesmo que o Brasil superasse os entraves internos, ainda restaria o risco externo mais difícil de controlar: a própria China. Pequim pode baixar os preços artificialmente para inviabilizar projetos em outros países, e já o fez no passado.

O mercado de terras raras é volátil, e a dependência histórica do setor mineral brasileiro em relação ao minério de ferro, que responde por 63% das exportações, mostra que concentração de pauta é um padrão, não uma exceção.

Já tentamos antes e fracassamos

O risco de repetir erros do passado é real. Fernando Lins, pesquisador do Centro de Tecnologia Mineral (Cetem), lembra que o Brasil já tentou a verticalização – a Nuclemon operou entre os anos 1960 e 1980, processando areia monazítica para extrair “terras raras” e produzir compostos de urânio e tório. A empresa sucumbiu à falta de continuidade política e à inviabilidade econômica frente ao mercado global.

Ele afirma que a reorganização das cadeias globais de suprimentos exige mais do que minério: exige domínio tecnológico para agregar valor, algo ainda incipiente no Brasil.

A presença chinesa não se limita à demanda por matéria-prima. Pequim avança sobre setores industriais (automobilístico e eletrodomésticos) onde o capital brasileiro simplesmente não chega. O motivo é conhecido: juros que inviabilizam o investimento produtivo.

Esse movimento coloca o Brasil em posição singular: detentor de recursos que as grandes potências disputam. Tirar proveito disso, porém, exige segurança jurídica e previsibilidade regulatória – condições que o país ainda não oferece.

Autor: Gazeta do Povo

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