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Cotas: SC pensa como ilha perdida no continente Brasil – 04/02/2026 – Tom Farias

Santa Catarina é o estado da federação que deu ao país algumas de suas maiores expressões literárias negras do passado. Entre os nomes que figuram nesse panteão, destacam-se Cruz e Sousa, poeta e fundador da escola simbolista brasileira, Luiz Delfino, poeta e médico, Gustavo de Lacerda, fundador da ABI (Associação Brasileira de Imprensa), Antonieta de Barros, política e educadora, autora da lei que cria o Dia do Professor e Ildefonso Juvenal da Silva, poeta, músico, memorialista e militar, entre outros.

Isto vem ao caso quando ouço todo esse burburinho sobre o governador de Santa Catarina, Jorginho Mello (PL), que sancionou uma lei proibindo a adoção da política de cotas raciais nas universidades públicas do seu estado.

Em resposta ao STF (Supremo Tribunal Federal), após ação de inconstitucionalidade proposta por PSOL, UNE (União Nacional dos Estudantes) e EducaAfro (Educação e Cidadania de Afrodescendentes e Carentes), Mello deixa transparecer ao ministro Gilmar Mendes, que analisa a contestação da norma, que o estado catarinense “ostenta a maior proporção de população branca” do país, na faixa de 81,5%, superior à negra, que contabiliza 18,1%, longe dos patamares nacionais (56,1%).

Ora, ora, ora! Para começar, os números apresentados por Mello como sendo do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) estão incorretos. Segundo levantamento do instituto no Censo 2022 —não 2021, como citado no documento governamental endereçado ao STF—, o órgão registra que em Santa Catarina pessoas que se autodeclaram brancas são 76,3%, e pretas e pardas, ou seja, negras, 23,3%.

Pela ordem de brancura, o Rio Grande do Sul, de acordo com o mesmo levantamento do IBGE, tem 78,4% de brancos, Santa Catarina, os mencionados 76,3% e o Paraná, o terceiro colocado, 64,6%.

Pelos números divulgados, Mello não conhece o estado que governa. Visto por outro ângulo, ao se justificar, com acendrado orgulho, corrobora a ideia de um estado totalitário de supremacia branca. O mesmo Censo 2022 mostra que, apesar de representar menor contingente populacional, trabalhadores brancos recebem 25% a mais que os negros em Santa Catarina.

Há também níveis diferenciados pela base de dados sobre crimes de injúria racial. Da violência policial, 16,8% dos negros dizem já ter sido vítima no estado, contra 12,5% dos brancos. Agrava este quesito a baixa representatividade negra em postos de comando nas empresas públicas e a precariedade no mercado de trabalho formal.

O governo prestaria relevante serviço à população afro-catarinense se apoiasse financeiramente iniciativas como o Projeto Ìbátan, que mapeia ancestralidade e genealogia negra no estado, e tem cerca de 5.000 pessoas cadastradas, o MNU-SC (Movimento Negro Unificado), focado na luta contra o racismo e defesa das comunidades quilombolas e o NEN (Núcleo de Estudos Negros), histórico grupo que funciona há décadas em Florianópolis, tendo em pauta educação básica e acesso à universidade pública e de qualidade.

Para refrescar a memória do governador recomendo a leitura do livro “Negros em Florianópolis: Relações Sociais e Econômicas” (Editora Insular), do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

A obra é pertinente não só por tratar da “condição social do negro” na capital catarinense, mas por mexer na ferida de uma dívida até hoje ignorada em termos de reconhecimento, resgate e reparação.

Para que Mello não pareça o gestor de uma ilha perdida no continente chamado Brasil, é hora de descruzar os braços e dar exemplo de estado que pensa para além do umbigo tropical do Sul.

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Autor: Folha

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