Arqueólogos identificaram um dos mais antigos exemplos de cremação de seres humanos aos pés de uma montanha no Maláui (sudeste da África, perto de Moçambique). No ritual, que aconteceu, ao que tudo indica, por volta de 9.500 anos atrás, o corpo de uma mulher adulta foi consumido numa grande fogueira.
Segundo a reconstrução do funeral, publicada pelos pesquisadores na última edição do periódico especializado Science Advances, a comunidade de caçadores-coletores que costumava frequentar o monte Hora, no norte do país africano, precisou coletar ao menos 30 kg de lenha e grama secas para cremar o corpo.
A equipe de pesquisa, liderada por Jessica Cerezo-Román, da Universidade de Oklahoma, e Jessica Thompson, da Universidade Yale (ambas nos EUA), encontrou os restos da pira funerária num abrigo rochoso situado na base do monte Hora, que já era visitado pela antiga população humana da região havia vários milênios quando o procedimento funerário aconteceu.
Existem rituais mais antigos que parecem ter envolvido a queima deliberada de restos humanos —há um caso datado de 40 mil anos na Austrália e outro de 11,5 mil anos no Alasca. Mas a descoberta no Maláui é a mais antiga do continente africano, além de ser o primeiro exemplo de uma pira funerária com os restos de um adulto no planeta.
Tudo indica que essa prática demorou a se popularizar, tornando-se mais comum apenas depois da consolidação das práticas agrícolas e pastoris no Velho Mundo. Por demandar uma quantidade relativamente grande de recursos da comunidade, era comum que estivesse associada a grupos aristocráticos e guerreiros.
Por tudo isso, é surpreendente que as pesquisadoras e seus colegas tenham identificado um exemplo tão claro de cremação no abrigo rochoso. O primeiro grande indício de que não se trata de uma fogueira simples é a grande espessura e as características “laminadas” da camada correspondente ao ritual funerário.
Esses detalhes, somados à presença de fragmentos de ossos humanos e às datas similares obtidas a partir de diversas amostras de cinzas e carvão, indicam que o principal acúmulo de material inflamável ali aconteceu durante um único episódio de cremação. Quando colocado numa câmara confinada, um corpo humano pode ser cremado em duas horas mesmo sem a ajuda de aparatos modernos. Mas a pira funerária do monte Hora era aberta, o que indica um processo mais lento, no qual os membros da comunidade tiveram de realimentar a fogueira várias vezes.
No total, a equipe identificou 170 fragmentos considerados “definitivamente” ou “provavelmente” ossos humanos nas cinzas da pira. Dos pedaços com identificação inequívoca, mais de 90% correspondem a fragmentos dos braços e das pernas, e a remontagem deles bate com a probabilidade de que apenas uma pessoa foi cremada ali.
Um detalhe intrigante é que não há sinais da presença do crânio ali, nem mesmo de dentes, o que pode significar que a cabeça foi removida antes da cremação ou, menos provavelmente, de acordo com os cientistas, depois do processo. É possível que algo assim estivesse associado a rituais de preservação e veneração de restos dos ancestrais, presentes em certas culturas do passado.
Mesmo sem as informações que poderiam ser trazidas pelo crânio, as características ósseas do que sobrou das pernas, como a fusão completa de áreas do fêmur em que antes haveria cartilagens, bem como o tamanho e a relativa delicadeza das extremidades desse osso, ajudaram a estimar que se tratava de uma mulher com idade entre 18 anos e 60 anos e de porte miúdo, medindo entre 1,45 m e 1,55 m em vida.
A maneira como os ossos queimaram indica ainda que a cremação aconteceu poucos dias após a morte, numa fogueira com temperaturas relativamente altas (iguais ou superiores a 500°C). Há ainda sinais de que instrumentos de pedra foram produzidos e lançados na fogueira, talvez como oferendas para a morta.
As muitas fases de realização do ritual e o esforço necessário para que ele acontecesse indicam uma complexidade social considerável nas comunidades vizinhas ao monte Hora há quase 10 mil anos, algo que, até pouco tempo atrás, parecia improvável para grupos de caçadores-coletores como esses.
Além disso, os pesquisadores apontam que fogueiras grandes continuaram a ser acesas na área durante séculos após a cremação —mas sem a colocação de novos corpos. Isso poderia indicar algum tipo de veneração a ancestrais no mesmo local durante centenas de anos.
Autor: Folha








.gif)







