quinta-feira, janeiro 15, 2026

Criolo comenta disco com Amaro Freitas e Dino D’Santiago – 15/01/2026 – Ilustrada

Quando o músico português Dino D’Santiago ouviu o disco “Nó na Orelha”, do brasileiro Criolo, o impacto foi tão grande que ele decidiu abandonar o posto de backing vocal em outras bandas para desenvolver sua carreira solo. Nesse processo, retornou à ilha de Santiago, em Cabo Verde, terra de seus pais, onde fez uma viagem ouvindo o álbum repetidas vezes.

“Aí depois de 13 anos eu me encontro com ele, ele me conta essa história e eu faço o trajeto com ele, pelo litoral da ilha”, diz Criolo, que conheceu Dino há pouco mais de dois anos, em Portugal. “Tive a oportunidade de conhecer a casa da avó dele e fazer o trajeto, o mesmo trajeto, com o mesmo amigo que o acompanhou, quando ele escutou o ‘Nó na Orelha’.”

A conexão que nasceu desse encontro foi levada depois ao estúdio, com a soma do pianista pernambucano Amaro Freitas, de onde saiu a música “Esperança”, indicada ao Grammy Latino. A canção então abriu caminho para um projeto mais robusto —um álbum inteiro do trio, “Criolo, Amaro & Dino”, lançado nesta quinta-feira (15).

Na época que conheceu Dino, Criolo estava trabalhando em um disco de samba, que ele deve lançar no futuro. Sua ideia era tornar este projeto um álbum-duplo, com o português reinterpretando as faixas no segundo disco. “Numa dessas madrugadas, sem conseguir dormir, levei um computadorzinho e fiquei fazendo beats de rap. Eu ficava o dia inteiro nos sambas e à noite fazia beat de rap. Numa dessas fiz a batida de ‘Esperança’”, diz o paulistano.

Diante do sucesso da faixa, e da estética que alcançaram com a presença do piano de Amaro Freitas, o trio decidiu fazer música junto, ainda que atrapalhado pelas agendas individuais. “Falamos assim, ‘Olha, toda vez que a gente puder se encontrar, o importante é celebrar nossa amizade, com música, sem saber o que vai acontecer”, afirma Criolo. “Tivemos três encontros em Lisboa —dois com o Amaro, e um sem ele.”

“Criolo, Amaro & Dino” nasce desses encontros. Cerca de 70% de tudo que está no álbum, diz o rapper, foi criado em estúdio. “E as outras coisas vêm de um ano de convivência. É natural que aquela antena fique voltada para esse olhar —você só ia pescar aquilo que tinha a ver com a gente. E só ia saber se ia ser ou não [fazer parte do disco] quando a gente se encontrasse.”

Entre os trechos pescados estão os versos de Criolo na faixa “Amazonia (A-i’ahu)”. Ele resgatou suas rimas da música “Chuva Ácida”, lançada originalmente em 2006, no disco “Ainda Há Tempo”, de quando o rapper ainda se chamava Criolo Doido. Mas esse texto, ele diz, vem de antes, mais especificamente de 1994, quando participou de um concurso de música da Sabesp com o tema ecologia.

“Ganhamos o campeonato da Sabesp e eu mal sabia que ela em 2025 estaria indo para a rua com outros questionamentos um tanto maiores”, diz Criolo. Aquele rap agora é trazido para uma linguagem jazzística e um contexto de mudanças climáticas e preservação da Amazônia, em que o artista diz que “não é só LA [Los Angeles] que está pegando fogo”.

“Quando um bote com nossos irmãos vira, todo mundo morre e ninguém chora”, ele afirma. “Mas aí a gente fica muito mal quando acontece outra coisa com outro pessoal. Lógico —não é desejar mal para ninguém, mas é que as pessoas escolhem para quem chorar.”

Mas além do “meu ‘Grajauex’ de velho de guerra”, como brinca Criolo, o disco tem outros dois eixos. Um deles é o piano de Amaro, sofisticadamente erudito, ainda que alimentado pela música popular brasileira. Para o rapper, ele traz “Pernambuco todo, o Brasil todo, a Amazônia toda e derrama na cabeça da gente”. Amaro brilha por cima da percussão em “Menina do Côco de Carité”, que une o piano à rabeca, coros femininos e batidas no couro.

O outro é a abordagem de Dino, que dialoga diretamente com sonoridades, segundo Criolo, “legítimas e originais do povo dele”. Nisso está a morna, gênero de Cabo Verde que transborda em “Fogo Lento”, faixa em que Dino canta no refrão sobre extrair um prato saboroso após cozinhar as próprias dores.

Para o músico paulistano, o álbum nasce na “esquina da amizade”, mas vai além disso. “É muito mais que a sonoridade, é essa celebração do que é esses três caras estarem sobrevivendo no mundo de hoje, ter chegado onde chegou”, ele diz. “A gente não desistiu da música, e não desistiu da gente.”

“Tem uma série de questões que não aparecem. Qual foi o ponto de partida de cada um? Como foi a nossa vida? Dino teve uma vida muito sofrida, eu tive uma vida sofrida. O Amaro vem de muita luta. Às vezes eu olhava e pensava: ‘Mano, saí lá do Grajaú, estou encontrando esses caras em Lisboa —um está vindo de Nova York, o outro de Paris. Nós estamos conseguindo fazer isso’. Isso é um milagre.”

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