O protagonista de “Visita ao Pai” é um “homem comum com uma determinação incomum”, nas palavras do autor Cristóvão Tezza. João Batista nasceu pobre, trabalhou desde a adolescência —abria estradas a golpes de picareta—, entrou para o Exército, chegou a acumular seis empregos para financiar os estudos, juntou cada centavo e se tornou professor. Morreu aos 48 anos num acidente de lambreta.
João Batista é João Batista Tezza (1911-1959), o pai de Cristóvão Tezza, 72. “Visita ao Pai”, no entanto, não é uma biografia convencional. Também não é um romance nem uma autoficção. O livro se baseia em 26 cadernos em que o militar e professor reuniu sua correspondência e alguns textos avulsos, costurados numa forma literária fluida e inovadora.
“A essa altura da vida já não me preocupo mais em definir gêneros”, disse Cristóvão à Folha. “Quando comecei a escrever não sabia que tipo de livro ia sair. Queria apenas que a voz do meu pai fosse preservada”. Ao longo das páginas de “Visita ao Pai” dialogam não apenas pai e filho, mas também duas gerações, dois mundos mentais, duas realidades de Brasil.
João Batista guardou os rascunhos da maior parte das cartas que enviou ao longo da vida. Também copiou documentos e anotações com despesas e contas a pagar. No material reunido em 26 cadernos não há “pensamentos avulsos” ou “lances poéticos”, apenas “o que existe”, como observa o filho escritor. Cristóvão define as cartas de João Batista como “anotações de um tabelião de si mesmo mantendo uma compulsão infantil de arquivista”.
O cotejo entre as trajetórias de João Batista e Cristóvão mostra um abismo entre gerações cronologicamente próximas. “Houve uma mudança radical entre os anos 1930 e os anos 1960, que marcaram a juventude do meu pai e a minha”, diz Cristóvão. “Ele viveu os anos da obediência, e eu os anos da desobediência”.
João Batista saiu da pequena Urussanga, no interior de Santa Catarina, na década em que os diversos fascismos frutificavam na Europa. Cristóvão observa que o trepidante noticiário internacional não aparece nas cartas. A política só surge quando repercute no Brasil, num diapasão em que o filho se surpreende com as escolhas do pai.
João Batista se tornou admirador de Plínio Salgado, líder do movimento integralista, a versão brasileira do fascismo europeu. As cartas relatam episódios de antissemitismo que deixaram Cristóvão chocado. “Era um discurso que estava no ar, e que meu pai absorveu por uma espécie de ingenuidade política. Os intelectuais até hoje têm dificuldade de entender como a ideologia entra na cabeça das pessoas, em fragmentos, sem reflexão.”
Cristóvão considera que o exército influenciou João Batista não apenas nas escolhas políticas, mas também na rigidez nos relacionamentos. “Convivi pouco com meu pai. Ele morreu quando eu tinha seis anos e para mim era uma figura assustadora”, diz o escritor. “Ele nos batia, mas tratava melhor minha irmã, única mulher entre quatro filhos. Nas cartas, no entanto, ele fala muito mais dos homens do que dela.”
O relacionamento de João Batista com as mulheres reflete igualmente o espírito da época. O professor e militar apaixonou-se por Elin, a mãe de Cristóvão, uma mulher inteligente e voluntariosa, e passou a vida tentando submetê-la a um papel tradicional de gênero. O resultado foi um casamento infeliz. O livro transcreve algumas cartas de Elin, superiores às de João Batista em estilo e correção ortográfica.
A “determinação incomum” levou João Batista bem mais longe que seus amigos de infância em Urussanga. Como muitos brasileiros, no entanto, encontrou limites. Faltavam-lhe capital cultural —algo que Elin possuía—, traquejo social e um círculo de relações. Para conseguir um emprego realmente bom João Batista precisava de uma nomeação, que nunca vinha, embora ele se esforçasse para ser reconhecido nos meios políticos atuando como cabo eleitoral.
Em “Visita ao Pai” convivem a inovação literária e uma linguagem de romance, com cenas vívidas e ganchos para capítulos posteriores. “Queria que fosse algo bom de ler, apesar da vida extremamente comum de meu pai”, diz Cristóvão. O autor reservou para o final dois segredos familiares que ele próprio desconhecia antes da elaboração do livro.
João Batista e Cristóvão, pai e filho, são personalidades díspares e de gerações diferentes, mas que têm algo em comum: construíram-se a partir da escrita. A luta de João Batista com as palavras era a luta mais vã, com imensas dificuldades para formular ideias e expressar sentimentos. Numa das cartas sugere que sua vida daria um livro —livro que o filho, de certa forma, acabou escrevendo.
Autor: Folha








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