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Cuidado íntimo: o que funciona e o que é mito – 09/06/2026 – Equilíbrio

Embora muitas postagens nas redes sociais possam dizer o contrário, a vagina não precisa de perfume, iogurte, alho, nem probiótico genérico. Muitos produtos vendidos para “cuidado íntimo” ou alteram o pH que a protege ou não têm evidência de eficácia. Ou as duas coisas.

Thuanny Fonseca, 33, fundadora de uma empresa voltada ao autocuidado, conhece o discurso por trás das embalagens cosméticas. Mesmo assim, quando teve candidíase de repetição aos 25 anos, recorreu ao que encontrou pela frente, inclusive se medicando por conta própria durante três anos.

“Foi traumatizante. No meu desespero, após tanto tempo tentando tratamentos sem resultado, comecei a usar um perfume íntimo devido ao odor. Só que não estava combatendo a causa. Isso me gerava uma frustração, uma certa vergonha, pela questão do cheiro e por não curar o problema”, relata a arquiteta.

A solução, ela aponta, veio de um caminho simples: “Me curei com um tratamento específico e ajuda de sabonete indicados por uma médica.”

Na visão de Thuanny, a insegurança quanto ao corpo feminino gera lucro para a indústria.

“A gente muitas vezes usa produtos de forma errada e que vão gerar outros problemas, e consome mais produtos que não são necessários. E isso continua, como um ciclo.”

A armadilha das redes

À Folha, especialistas são unânimes: o problema atual não é a falta de informação, mas um “ruído digital” sem embasamento científico, somado a um grande apelo por estética.

“Para cada estudo sério sobre a microbiota vaginal, há dezenas de posts vendendo um produto milagroso baseado em estudos, mas de uma maneira distorcida”, alerta Fernanda Kesselring Tso. Ela é secretária da Comissão Nacional Especializada em Trato Genital Inferior da Febrasgo (Federação Brasileira das Associações em Ginecologia e Obstetrícia).

Na visão de Fernanda Tso, o mercado aprendeu a usar vocabulário científico para vender a ideia de que a vulva tem cheiro e aparências erradas, e uma textura que precisa ser corrigida.

“Se a motivação é um sintoma, como coceira, ardência ou alteração do odor, isso é uma necessidade de saúde e você deve consultar o médico. Se é a vergonha do cheiro natural, estamos diante de um problema que nenhum produto no mercado vai resolver”, ensina.

Para se cuidar corretamente, é preciso entender a biologia da vagina, concordam as especialistas. Por exemplo: o pH saudável não é neutro, é ácido.

“As mulheres confundem o termo equilibrado com neutro. O pH tem que ser ácido. Tudo o que você usa de skincare não pode alterar esse pH”, corrige a professora do Instituto de Ciências Biomédicas da USP, Carla Taddei, coordenadora do Projeto Rita, iniciativa para mapear o DNA da microbiota vaginal.

O sabonete íntimo até hoje provoca dúvidas. As especialistas explicam que, na vulva, o produto pode, sim, ser usado, desde que sem fragrância e com pH ácido; não dentro do canal vaginal, pois o interior é autolimpante. “Existem sabonetes íntimos com muitos componentes extras, o que pode gerar alergia à fórmula”, ressalta Carla.

Os perigos das receitas caseiras

A administradora Vanessa Querubim, 43, que também sofria com candidíase de repetição, aprendeu nas redes sociais a pingar óleo de melaleuca na calcinha. “Mas acabei me queimando”, relata.

Fernanda Tso alerta que o fato de ser um produto natural não anula os riscos. “São compostos biologicamente ativos que podem irritar ou até mesmo causar uma lesão na mucosa, sem nenhuma evidência de eficácia terapêutica e com real potencial de alterar a microbiota dessa vagina.”

Mitos caseiros como o do alho na vagina para curar candidíase levaram Carla Taddei a estudar esse uso. A pesquisadora comprovou que, embora a hortaliça tenha ação antimicrobiana, é péssima para a mulher: “Ele danifica as células. O resultado é uma irritabilidade gigantesca na mucosa”, afirma.

Outro produto já usado por Vanessa, o óleo de coco tem pH sete (neutro), o que altera a acidez protetora da vagina e ainda degrada o látex do preservativo, abrindo portas para ISTs (infecções sexualmente transmissíveis) e gravidez indesejada.

Além disso, embora sejam bons para o funcionamento intestinal, iogurtes e probióticos não funcionam para a vagina. Especialistas são categóricas ao apontar que as cepas intestinais não colonizam a mucosa vaginal.

“Não é para ter diversidade nenhuma na vagina. É para ter lactobacilos. Por isso, o probiótico oral genérico não resolve”, aponta Carla.

Quando o cuidado é realmente necessário

Repudiar os excessos de “skincare” não significa ignorar a saúde da vulva. As especialistas ressaltam que é possível um cenário em que os cuidados médicos e dermatológicos são não apenas bem-vindos, mas essenciais.

“As pacientes muitas vezes não sabem que a vulva faz parte da pele e pode ser tratada por dermatologista. Até para condições do climatério, que muitas aceitam como um fato, têm tratamento que pode melhorar a qualidade de vida”, diz a dermatologista Paula Ferreira, especialista pela USP em doenças vulvares.

A flacidez dos grandes lábios após a menopausa, por exemplo, piora a barreira cutânea, facilitando micoses. Para isso, bioestimuladores de colágeno podem ajudar a proteger a região. Para ressecamento, hidratantes à base de ácido hialurônico são indicados.

Vanessa adotou espumas e séruns com indicação médica. “A idade vai chegando, a gente vai observando mudanças no corpo e busca algo para se sentir melhor.”

Para intervenções mais profundas, como o laser vaginal —que melhora a atrofia da mucosa e diminui o risco de infecções e incontinência urinária—, as especialistas fazem um alerta: o procedimento tem sido vendido como rejuvenescimento para mulheres jovens sem sintomas, o que elas contraindicam.

“Não coloque nada na vagina que não tenha sido recomendado por um profissional de saúde. Confie mais em um ginecologista do que em qualquer marketing de farmácia”, diz Fernanda.

Autor: Folha

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