sexta-feira, janeiro 9, 2026

David Bowie, morto há dez anos, redefiniu a cena cultural – 09/01/2026 – Ilustrada

David Bowie morreu em 10 de janeiro de 2016, aos 69 anos, mas uma década depois sua ausência ainda é sentida no mundo pop. Isso porque o cantor e compositor inglês nunca ocupou apenas o espaço de uma estrela da música. Ele foi um agente de transformação cultural, um artista que ajudou a redefinir o que significava criar no universo do rock e do pop.

Sua morte não encerrou apenas uma carreira excepcional, com 27 álbuns de estúdio lançados entre 1967 e 2016, além de nove discos ao vivo e dois com o grupo Tin Machine, formado com amigos entre 1989 e 1991. Marcou a retirada de cena de alguém capaz de antecipar tendências, redefinir padrões e construir um diálogo constante entre música, moda, cinema, artes visuais e comportamento.

Outros roqueiros na casa dos 70 anos ou mais estão na ativa, mas prolongando turnês que apenas resgatam material antigo. Se Bowie estivesse vivo, é legítimo imaginar que estaria produzindo discos inovadores, cada lançamento provavelmente muito diferente do anterior, porque ele fez isso por toda a carreira.

O peso da ausência se explica, antes de tudo, pela forma como Bowie conviveu com a ideia de reinvenção. Ele se recusou a repetir fórmulas ou a se acomodar em identidades consagradas. Personagens que ele criou, como Ziggy Stardust, Aladdin Sane e Thin White Duke, cada um destinado a ser protagonista de um álbum, não foram apenas máscaras, mas personalidades complexas para explorar novos sons, narrativas e visões de mundo.

Ao lado de Marc Bolan, do T. Rex, ele criou do nada o glam rock. Depois, foi capaz de dedicar álbuns inteiros ao soul ou ao som eletrônico. Alguns autores defendem uma diferença entre os Beatles, como criadores de coisas completamente novas, e os Rolling Stones, que seriam antenas captadoras do que já estava rolando, para a partir disso demonstrar talento para evoluir a algo singular.

Bowie fez as duas coisas, sucessivamente, sem parar. Para comprovar, mais do que escutar seus grandes hits, que são inúmeros e empolgantes, é muito contundente ouvir a chamada trilogia de Berlim. São os discos que ele gravou na segunda metade dos anos 1970, quando foi morar na Alemanha, “Low” e “Heroes”, ambos de 1977, e “Lodger”, lançado em 1979.

Tem muita coisa neles —rock, experimentações, música ambiente, som eletrônico, algo como uma pré-new wave. Bastou a década virar para ele passar a fazer álbuns de pop sofisticado, de extremo apelo popular, sem o menor resquício das texturas sonoras intrincadas criadas em Berlim. Nessa fase pop está inserido talvez seu álbum mais irresistível, “Let’s Dance”, de 1983.

A permanente mutação de Bowie não teve paralelo, nem em sua época nem agora. No cenário atual dominado por uma reciclagem nostálgica, faz falta alguém que aponte de maneira tão clara para o futuro.

Outro componente forte em seu legado é como representou os deslocados, as pessoas que se sentiam sem lugar no mundo. Sua ambiguidade estética e sexual sugeriu que a fluidez podia ser uma forma legítima de existência. Para boa parte de seus fãs, Bowie e sua obra foram um abrigo seguro, mais do que entretenimento.

Na evolução do rock, a relevância de Bowie é estrutural. Ele ampliou os limites do gênero. Ele incorporou teatro, literatura, ficção científica, performance, moda e artes visuais, ultrapassando tradicionais pilares roqueiros como a rebeldia ou a tradição negra do blues.

Se hoje o mercado musical adota como regra a ideia das parcerias, a onda do “feat.”, Bowie esteve sempre aberto a colaborações. E o time não era fraco —gravou com Mick Jagger, Queen, Tina Turner, Annie Lennox, Trent Reznor. Foi ainda um produtor fundamental para colegas de inovação como Lou Reed e Iggy Pop.

Bowie morreu em Nova York, em decorrência de um câncer no fígado, após cerca de 18 meses de tratamento guardado em segredo. Houve rumores de que ele teria recorrido a suicídio assistido ou eutanásia, mas não há qualquer evidência ou relato confiável confirmando isso. Oficialmente, Bowie seguiu tratamento convencional até seus últimos dias.

O que impressiona é que Bowie seguiu um planejamento rigoroso de sua carreira nos últimos meses de vida. Ele lançou o derradeiro álbum de inéditas “Blackstar” na data de seu aniversário de 69 anos, apenas dois dias antes de morrer. Essa agenda tão detalhadamente organizada levou fãs a interpretarem sua morte como algo “controlado”.

A ausência de David Bowie reflete a falta de um artista com tanta coragem para sair da zona de conforto e permanecer o tempo todo aberto ao novo. Seu legado não é apenas um catálogo de canções incríveis, mas um método de reinvenção. Hoje, a música pop não apresenta nada parecido.

Autor Original

Destaques da Semana

Temas

Artigos Relacionados

Categorias mais Procuradas

spot_imgspot_img