Se 2025 foi marcado pelo aumento da sensação de insegurança, o ano que se inicia nos reserva uma oportunidade.
Não é apenas um sentimento contaminado pelo espírito otimista típico do Réveillon.
Ao que tudo indica, pela primeira vez em muito tempo, o tema segurança pública estará no centro do debate político de uma eleição presidencial.
Pesquisa Datafolha revelou que, para 16% dos brasileiros, esse é o principal problema do país, à frente da economia e atrás apenas de saúde (20%). Entre os homens, a violência fica numericamente em primeiro lugar (18% a 15%).
Esse dado é sintoma de um cenário grave: os brasileiros estamos com medo. Ao menos 72% de nós mudaram algum hábito por causa da violência. A insegurança, que sempre permeou o cotidiano das cidades no nosso país, agora molda nossas vidas em um ponto que já não consideramos mais aceitável.
Nos últimos 12 meses, 56% evitaram usar o celular na rua, 36% mudaram o caminho para trabalho ou escola, 31% tiraram a aliança do dedo com medo de roubo e 26% simplesmente deixaram de sair de casa.
Mais do que isso: facções criminosas como PCC e Comando Vermelho espalham terror pelo país, ampliam seus territórios, subjugam cidadãos, matam, roubam e lucram em uma desavergonhada variedade de áreas, como transporte público e combustíveis.
Até aqui, não fomos capazes, como sociedade, de barrar o crescimento desses grandes grupos criminosos.
E é justamente nesse cenário terrível que nasce o otimismo. Com os holofotes voltados para o problema, teremos enfim a chance de discutir e buscar soluções. O custo político da omissão já é maior do que o desgaste de debater o tema diante da população –sob o risco das reações exacerbadas de um país politicamente dividido.
Não que uma eleição seja o ambiente ideal para o debate de ideias (deveria). Mas, já que parte importante das decisões que tomamos como país se dão sob o atrito estridente do processo eleitoral, aproveitemos.
Naturalmente, seremos inundados por aqueles clichês quadrienais, como “mais polícia na rua” ou “é preciso atirar para matar”. Entre uma bobagem e outra, podem surgir ideias boas, aplicáveis e objetivas.
Entraremos na disputa eleitoral cientes de que quem quer que pretenda ocupar um cargo público no Brasil em 2027 vai ter de saber articular ao povo como pretende usar mais inteligência nas investigações sem ferir o direito à privacidade, como vai ampliar a força policial sem promover mais letalidade, como planeja impor penas duras sem se desviar da finalidade de ressocialização, como retomar territórios sem ferir os direitos fundamentais dos moradores das periferias.
O cientista político Antonio Lavareda expôs uma visão menos otimista nesta Folha. Segundo ele, “a segurança pública, apesar de ocupar lugar constante no debate nacional, dificilmente se converte em eixo determinante do voto para presidente“. Ele descreve o fenômeno como resultado da fragmentação da segurança no país, com cada estado sendo ator central das políticas contra violência.
Mas mesmo essa fragmentação promete estar no debate. A polêmica PEC da Segurança Pública tem como uma das propostas dar mais unidade à política de combate ao crime no país. As eleições poderão ser um bom ambiente para que esse debate floresça na mente dos brasileiros.
Não há saída fácil para vencer a violência. Em um país dividido e dominado pelo medo, não colocar a segurança pública no centro do debate nacional é aceitar a derrota.





