domingo, maio 24, 2026
17.2 C
Pinhais

Dependência: médica líder nos EUA incentiva psicodélicos – 24/05/2026 – Marcelo Leite

“Se eu não posso mudar minhas visões baseada em evidências, por que raios então fazer ciência?” Eis uma frase que jamais se ouviria no governo Jair Bolsonaro. Em meio ao descaso homicida com a pandemia, ninguém na Esplanada fazia ciência, estavam ocupados em desacreditar vacinas, vender cloroquina e dar um golpe.

Não que Donald Trump se saia pior em desumanidade, mas ao menos com terapias psicodélicas ocorre algum avanço por lá. Evidência disso é o cavalo de pau da autora daquela sentença, a médica conservadora Nora Volkow, que dirige o Instituto Nacional de Abuso de Drogas (Nida) dos EUA desde 2003.

Há dois anos, ela dizia ao boletim de saúde Stat ser improvável que o psicodélico ibogaína viesse a ser aprovado para dependência. Agora ela destaca que o composto da planta africana Tabernanthe iboga “está entre [os psicodélicos] mais poderosos em teste para psicoterapêutica”, como relata o boletim Psychedelic Alpha, que publicou a palestra e uma entrevista com o editor Josh Hardman.

A declaração de apoio partiu dela em palestra na reunião anual da Associação Psiquiátrica Americana (APA), realizada em São Francisco de 16 a 20 de maio. Um mês antes, Trump havia assinado ordem executiva mandando acelerar a pesquisa clínica com psicodélicos, com destaque para a ibogaína.

“Se você me dissesse anos atrás que eu estaria falando sobre psicodélicos [na reunião da APA], jamais acreditaria”, disse Volkow ao abrir sua fala. “Nem nos meus sonhos mais loucos imaginaria estar aqui, incentivando todos a aprenderem por que essas substâncias são tão potencialmente interessantes para a psiquiatria.”

A médica tem ligação peculiar com o México, país aonde vão veteranos de guerra dos EUA em busca de ibogaína para transtorno de estresse pós-traumático. Ela cresceu em Coyoacán, na casa em que foi assassinado Leon Trótski, seu bisavô, em 1940.

Volkow se abalou até Cancún, onde visitou a clínica Transcend, segundo ela um dos centros com maior reputação no uso de ibogaína. “Conheci pacientes lá que diziam ter sido curados, supostamente, de sua depressão e dependência. Fiquei impressionado com a forma como eles conduziam as coisas farmacologicamente, com a supervisão, a triagem dos pacientes e a maneira como realizavam a intervenção.”

A czarina do Nida não se deixa entusiasmar, porém, com relatos anedóticos. Ela se apoia em dados, como os projetados em slides durante a palestra sobre longa abstinência de dependentes de álcool e tabaco após dose de psilocibina.

Ela não descarta efeito placebo nos bons resultados com psicodélicos. Diz ser óbvio que expectativas podem ser poderosas. No entanto: “Se um placebo produz aumento de 90% na satisfação com a vida, gostaria de saber o que torna esse placebo tão impactante!”

Espera-se a mesma curiosidade de psiquiatras brasileiros…

“Realmente compete a todos nós reconhecer que psicodélicos, embora antigos, representam uma classe de medicamentos completamente nova e transformadora na psiquiatria. Eles nos dão a oportunidade de revisitar o que já sabemos há muito sobre a importância da psicoterapia, mas de uma forma que pode ser acelerada e aprofundada.”


LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

Autor: Folha

Destaques da Semana

Temas

Siga-nos

Conheça Nosso Guia de Compras

spot_img

Artigos Relacionados

Categorias mais Procuradas