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Deputado luso-brasileiro analisa as eleições em Portugal

As eleições presidenciais em Portugal confirmaram a vitória do socialista António José Seguro, mas também revelaram um dado incontornável: o avanço expressivo da direita conservadora no país. Pela primeira vez em décadas, o sistema político português foi tensionado por uma candidatura que rompeu o tradicional revezamento entre socialistas e sociais-democratas e levou a disputa ao segundo turno.

Para analisar o resultado das urnas, o papel da imprensa e as possíveis lições para o cenário brasileiro, a coluna Entrelinhas e o programa Sem Rodeios ouviram com exclusividade o deputado luso-brasileiro Marcus Santos, do partido Chega. Na conversa, ele fala sobre o crescimento eleitoral da direita em Portugal, a estratégia anti-establishment do partido, o apoio maciço do sistema político ao candidato socialista e os desafios de conquistar o eleitorado de centro em eleições majoritárias.

Entrelinhas: Portugal acaba de passar por uma eleição presidencial vencida pelo socialista António José Seguro. Ainda assim, a direita cresceu de forma expressiva. Como o senhor analisa esse resultado?

Marcus Santos: É verdade. Foi uma eleição muito renhida. O presidente do partido Chega, André Ventura, inicialmente nem queria concorrer. Não encontrávamos um nome forte que representasse de fato os portugueses conservadores e de direita contra o candidato socialista. Diante disso, o André decidiu avançar.

É importante lembrar que Portugal vive um sistema semipresidencialista. O presidente da República não governa como no Brasil. Quem governa é o primeiro-ministro, eleito nas eleições legislativas. O presidente é chefe de Estado, uma figura mais simbólica.

Mesmo assim, fomos ao segundo turno — algo que não acontecia há cerca de 40 anos em Portugal. Desde o fim da ditadura, há 51 anos, o país sempre foi governado por dois partidos: o Partido Socialista e o Partido Social Democrático, que se diz de direita, mas sempre foi um partido de centro-esquerda.

Entrelinhas: O que mais chamou a atenção nesse segundo turno?

Marcus Santos: Aconteceu algo muito revelador: todos os outros partidos, inclusive o PSD, que se apresenta como centro-direita, apoiaram o socialista António José Seguro. Dos dez partidos com assento parlamentar, nove estiveram contra nós. O resultado foi a vitória do candidato socialista com 60,8% dos votos.

Ainda assim, o Chega e André Ventura alcançaram um resultado histórico: 33,2%. Para se ter uma noção, nas últimas eleições legislativas, em abril do ano passado, o PSD — que hoje governa — teve cerca de 31%. Ou seja, tivemos mais votos do que o partido que atualmente está no poder.

Entrelinhas: Qual deverá ser o impacto para o cenário político do futuro?

Marcus Santos: Se esse resultado fosse de uma eleição legislativa, o Chega teria margem real para governar. Claro que numa legislativa entram outros partidos, mas se mantivermos esse patamar, o André Ventura pode perfeitamente tornar-se primeiro-ministro.

Por isso, digo que foi uma derrota agridoce: perdemos a eleição presidencial, mas vencemos politicamente ao consolidar uma base eleitoral muito forte.

Entrelinhas: No Brasil, a direita costuma denunciar uma atuação político-ideológica da grande imprensa. Em Portugal, como a mídia se posicionou em relação ao André Ventura?

Marcus Santos: Aqui aconteceu algo muito parecido. Não posso generalizar, mas grande parte da imprensa portuguesa é militante. Nós concorremos contra nove partidos e também contra boa parte da imprensa. Há pouquíssimos veículos realmente isentos. A imprensa assumiu claramente um papel ativista contra o Chega.

Entrelinhas: Como o senhor analisa a cobertura brasileira sobre as eleições portuguesas?

Marcus Santos: Um veículo brasileiro entrevistou apenas a Catarina Martins, que é deputada e ex-líder do Bloco de Esquerda, que é a extrema esquerda em Portugal — algo semelhante ao PSOL no Brasil. Ela é uma ativista de esquerda radical, com valores totalmente opostos aos nossos. Quando a imprensa brasileira escolhe ouvir apenas esse tipo de voz, passa uma imagem completamente enviesada da realidade portuguesa.

Em Portugal, o dia anterior à eleição é o dia da reflexão. Não se pode fazer propaganda nem apelar ao voto. É um dia muito respeitado pela população. Mesmo assim, um jornal brasileiro, que tem escritório em Portugal, publicou uma matéria claramente desfavorável ao Chega nesse dia, sem dar direito ao contraditório. Entrevistaram apenas pessoas alinhadas à narrativa deles, inclusive imigrantes, para falar contra o André Ventura.

Advogados e militantes do partido já acionaram a Comissão Nacional de Eleições para que isso seja analisado.

Entrelinhas: O Chega fez uma campanha assumidamente antissistema. Para vencer eleições majoritárias, é preciso atrair o centro. Em Portugal, a eleição acabou sendo apresentada como “moderados contra radicais”. Qual a lição para a direita?

Marcus Santos: A esquerda usa sempre a mesma cartilha, em qualquer lugar do mundo. Itália, Polônia, Portugal — o roteiro se repete. Eles usam a imprensa, artistas, influenciadores e tentam vender a ideia do “bem contra o mal”, dos “moderados contra os radicais”.

Aqui tentaram colar no André Ventura a imagem de ultrarradical. Até o socialista foi apresentado como moderado. Isso afasta parte do centro.

Nosso desafio é exatamente este: conquistar também quem não se vê nem na direita nem na esquerda. E como fazemos isso? Indo às ruas, conversando com as pessoas e usando as redes sociais. As redes sociais são a grande força do Chega. É ali que conseguimos desmontar as falácias da velha imprensa.

Entrelinhas: O que explica esse apoio crescente ao Chega? Imigração, costumes, economia, pauta cultural?

Marcus Santos: Tudo isso junto. Portugal é um país profundamente cristão e conservador. As pessoas valorizam a tradição, a cultura, a comida, a música, a identidade nacional.

O que temos visto é o aumento da criminalidade, da imigração ilegal e do choque cultural. Muitos portugueses começam a se sentir estrangeiros na própria terra. Isso gera medo e indignação.

O Chega é o único partido que combate a ideologia de gênero, denuncia a criminalidade organizada e alerta para o crescimento do radicalismo islâmico.

As pessoas querem ordem, segurança, preservação cultural. E hoje, em Portugal, o único partido que representa isso claramente é o Chega.

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Autor: Gazeta do Povo

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