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Descobrir que eu sou alcoólatra foi libertador – 02/03/2026 – Vida de Alcoólatra

Sou bipolar, e daí? Não é fácil lidar com uma doença mental. Roberto, meu amigo de infância, me disse que não posso me fechar num diagnóstico. Que o fato de eu “ser bipolar” ajuda meu médico a ter um norte e poder me medicar, mas não deveria servir de carteira de identidade para mim. Apesar de meu médico chinês ter sido bem enfático no diagnóstico —”Você é bipolar sem nenhuma dúvida”—, eu entendo o argumento do Roberto. Tomo muitos remédios, de manhã e de noite, e isso me incomoda. Recentemente engordei bastante por causa deles, um dos efeitos colateriais é um aumento significativo de peso.

Há menos de um ano, eu estava bem magra, pois não conseguia comer direito devido às crises de pânico. Estar bem mais gordinha hoje não mexe tanto comigo, mas mexe com as pessoas! E isso me incomoda mesmo. Semana passada fui a um almoço, quase todos os presentes eram da minha família. “O que aconteceu? Você tá grande”, eu ouvi. Outros apenas olhavam. Eu podia sentir o espanto de cada um. Chateada, fui para casa mais cedo. Curioso: quando eu estava magra demais, ninguém perguntava se eu estava bem…

Se questiono meu diagnóstico de bipolaridade, do alcoolismo não tenho a menor dúvida. Foi libertador descobrir que eu era alcoólatra, e que tinha tratamento. Bastava parar de beber, o que não é exatamente fácil. Fui fazendo meu tratamento em AA e, dia após dia, ficava mais clara a minha condição. Aceitei o desafio de evitar o primeiro gole e acreditei em cada pessoa que encontrei no AA. Entendi que o alcoolismo não era falta de caráter, mas doença. E doença precisa de cuidado, não de culpa.

Lá eu não era a bipolar, a gordinha ou a problemática da família. Era só mais uma tentando sobreviver. Aprendi a falar sem me justificar e a ouvir sem julgar. Aprendi que doença não é identidade, mas que também não é vergonha. É condição que se trata, se cuida, se acompanha. Também aprendi sobre responsabilidade: ninguém pode viver minha sobriedade por mim. Assim como ninguém pode engolir os comprimidos ou enfrentar as consultas no meu lugar.

Com o empurrão do Roberto, comecei a perceber que talvez o rótulo pese menos quando a gente entende que ele não nos resume. Sou alguém que toma remédio, que já abusou do álcool, que oscila de humor, que engorda e emagrece, que acerta e erra. Sou alguém em tratamento. E isso, longe de ser fraqueza, exige uma coragem diária que pouca gente vê. Coragem de acordar e seguir protocolos, de lidar com efeitos colaterais, de dizer “não” quando todos brindam, de ir embora mais cedo quando o ambiente pesa. Aliás, uma grande chatice no tratamento do alcoolismo é ter que justificar quando digo que não bebo. “Não bebe por quê? Promessa?”

Pois é, ainda me incomodam os comentários, ainda questiono diagnósticos, ainda tenho medo de recaídas. Há dias em que sinto um cansaço imenso. Mas passa. Sei que até as coisas mais pesadas se tornam leves com o tempo. E tenho certeza de que minha vida não é só doença.

Eu não sou um laudo. Não sou um número na balança. Não sou meus picos nem meus abismos. Sou uma mulher em construção, aprendendo a se respeitar, a pedir ajuda, a continuar. Um dia de cada vez. Às vezes um minuto de cada vez. E sei que nunca estou sozinha.

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Autor: Folha

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