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Desmatamento na amazônia eleva calor em 3°C durante a seca – 21/01/2026 – Ambiente

O desmatamento na amazônia está provocando mudanças regionais significativas no clima em comparação a áreas com cobertura florestal acima de 80%. A perda da vegetação leva ao aumento da temperatura da superfície, à diminuição da evapotranspiração, além da redução da precipitação na estação seca e do número de dias de chuva.

Os resultados fazem parte de uma pesquisa realizada com base em dados de satélite e publicada na revista Communications Earth & Environment no final de novembro.

O trabalho aponta que regiões altamente desmatadas (cobertura florestal inferior a 60%) compartilham semelhanças climáticas com áreas de transição entre floresta úmida e savana. Isso porque entre os impactos observados estão uma temperatura de superfície, em média, 3°C maior durante a estação seca; com evapotranspiração e quantidade de chuvas 12% e 25% menores, respectivamente, em relação a regiões com alta cobertura florestal.

Além disso, foram observados 11 dias a menos de chuva, em média, onde a cobertura florestal foi inferior a 60%. Ou seja, o desmatamento impactou não somente a quantidade como a distribuição das chuvas.

Como resultado dessa condição climática mais seca e quente, a floresta pode enfrentar maior degradação, levando ao aumento da mortalidade das árvores e à suscetibilidade a incêndios florestais. Esse cenário compromete a permanência de espécies mais sensíveis da floresta úmida, enquanto favorece a dominância de outros tipos de nativas oportunistas e gramíneas exóticas, comprometendo a biodiversidade.

Para os cientistas, os achados evidenciam a urgência de controlar o desmatamento e restaurar áreas degradadas, visando preservar a resiliência climática da amazônia e das atividades econômicas que dependem diretamente do clima, como a agricultura.

“O estudo mostra que as florestas tropicais têm um impacto gigantesco no clima, com consequências para diversos setores da sociedade, tanto para o bem-estar das populações como para atividades econômicas. Por isso, o debate sobre a importância das florestas deve ter um olhar mais abrangente, para além da questão ambiental. Precisamos trabalhar com uma visão de desenvolvimento nacional, com ação coordenada e integrada entre diversos setores da sociedade”, defende o pesquisador Luiz Aragão, do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais).

Um dos autores do trabalho, Aragão é membro da coordenação do Programa Fapesp de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais e participou de painéis durante a COP30, a conferência do clima das Nações Unidas, em Belém, para discutir temas ligados a emissões de gases de efeito estufa e impactos do aquecimento global.

De acordo com o pesquisador do Inpe Marcus Silveira, primeiro autor do artigo, o estudo corrobora cientificamente a importância de manter a cobertura florestal em, no mínimo, 80% em propriedades rurais da amazônia, como prevê o Código Florestal.

A legislação estabelece regras para uso da terra e proteção ambiental dentro de propriedades privadas, nas chamadas reservas legais, exigindo que uma parte da área rural seja mantida com vegetação nativa.

Nos nove estados da Amazônia Legal é obrigatória a cobertura de vegetação nativa em 80% da área dos imóveis situados na floresta, em 35% no Cerrado e 20% em campos gerais —o mesmo porcentual para o restante do país.

“As regiões desmatadas ficam prejudicadas com condições mais secas e quentes, que também acabam afetando a produção agrícola. A própria Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura [FAO] lançou na COP30 um documento mostrando que as florestas são aliadas da agroindústria, e não inimigas. Por meio de uma extensa revisão da literatura científica, destaca os vários benefícios climáticos que as florestas promovem, contribuindo com a produtividade e resiliência agrícola. Nosso trabalho vai muito nessa linha também”, afirma Silveira, que juntamente com diversos autores brasileiros colaborou com o relatório “Climate and ecosystem service benefits of forests and trees for agriculture”.

Novos usos

A amazônia brasileira, que ocupa quase a metade do território do país, perdeu 13% de área de vegetação nativa entre 1985 e 2024. São cerca de 520 mil quilômetros quadrados (km²), maior do que o território da Espanha (506 mil km²). Os dados são da publicação “Amazônia, Coleção 10” do MapBiomas, feita a partir da análise de imagens de satélite.

Neste período, as pastagens passaram de 123 mil km² para 561 mil km², enquanto a área de agricultura foi de 1,8 mil km² para 79 mil km². Mais recentemente, a mineração vem ganhando relevância e chegou a 4.440 km² em 2024.

Mesmo com a redução do ritmo de desmatamento do bioma nos últimos três anos, os cientistas alertam para a necessidade de conter rapidamente a devastação da floresta, já que somente em 2024 houve a remoção de mais de 6,3 mil km² de vegetação nativa na Amazônia Legal, de acordo com dados do Prodes (Programa de Monitoramento da Floresta Amazônica Brasileira por Satélite), do Inpe.

“É essencial traçarmos caminhos par a a redução do desmatamento, como debatido na COP30, mas também é necessário levar adiante o processo de substituição do uso de combustíveis fósseis para frear o aquecimento global, que já é preocupante”, diz Aragão à Agência Fapesp.

O ano de 2024 foi o mais quente da história e o primeiro a ultrapassar a marca de 1,5 °C de aumento na temperatura média do planeta em relação aos níveis pré-industriais. Além disso, o relatório Global Carbon Budget, divulgado em novembro, aponta que em 2025 as emissões de dióxido de carbono provenientes de combustíveis fósseis aumentarão cerca de 1,1%, atingindo um recorde de 38,1 bilhões de toneladas de CO2 (GtCO²).

“Nosso estudo indica que, se conseguirmos restabelecer a estrutura florestal, é possível trazer de volta também serviços ecossistêmicos, como redução de temperatura, aumento da ciclagem de água e dos estoques de carbono, garantindo assim maior segurança hídrica, alimentar e econômica para o país”, complementa Aragão.

Passo a passo

Na pesquisa, que foi parte do doutorado de Silveira, os cientistas dividiram a amazônia em uma grade regular com amostras de aproximadamente 55 x 55 km, agrupadas em níveis de desmatamento acumulado —cobertura de florestas remanescentes em até 40%, de 40%-60% e 60%-80%. Também foram selecionadas grades com alta cobertura florestal (acima de 80%) vizinhas às desmatadas, servindo como referência para as condições climáticas sob pouca influência do desmatamento.

O trabalho também empregou outros métodos de controle para destacar a influência da perda de vegetação nativa frente a outros fatores, como comparar as diferenças climáticas entre regiões de referência vizinhas umas das outras. Foram analisadas 11 variáveis climáticas, incluindo temperatura de superfície, evapotranspiração, chuva anual e nas estações seca e chuvosa, além do número de dias chuvosos.

A evapotranspiração é o fluxo para a atmosfera de vapor d’água liberado pela transpiração das plantas, evaporação da água no solo e nas copas das árvores, controlado por fatores como o tipo e estrutura da vegetação, temperatura, radiação solar e vento. Ao reduzir a evapotranspiração, o desmatamento contribui para aumentar a temperatura e diminuir a reciclagem da umidade atmosférica em chuva.

Nas análises, os impactos mais extremos foram observados em regiões com até 40% da cobertura florestal remanescente. Por exemplo, a temperatura da superfície terrestre nelas chegou a ser até 4 °C maior do que nas de referência durante a estação seca. Da mesma forma, a evapotranspiração na estação seca foi, em média, 45 milímetros menor se comparada às regiões de referência vizinhas.

O estudo recebeu apoio da Fapesp por meio de bolsas a Silveira e do Centro de Pesquisa para Inovação em Gases de Efeito Estufa (RCGI na sigla em inglês).

Em setembro, a revista Nature Communications publicou uma outra pesquisa, liderada por cientistas da USP (Universidade de São Paulo), que quantificou os impactos da perda de vegetação e das mudanças climáticas globais sobre a amazônia. Mostrou que o desmatamento foi responsável por 74,5% da redução de chuvas e por 16,5% do aumento da temperatura do bioma nos meses de seca.

O artigo científico pode ser lido aqui.

Autor: Folha

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