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Diário de uma Mudança tem relato e ficção sobre menopausa – 14/03/2026 – Equilíbrio

Terapias, oficinas, constelações, bruxas, astrólogos, oráculos, runas, alinhar os chacras, andar de bicicleta, sentar para meditar, entrar em temazcal, acreditar na ayurveda, na medicina chinesa, fazer acupuntura, massagens tailandesas, californianas, suecas, shiatsu, kobido. Praticamente não há recursos aos quais a protagonista do novo “Diário de uma Mudança” (editora Instante) não tenha recorrido para lidar com a chegada da menopausa. Ao longo da história, o leitor acompanha as inevitáveis transformações dessa fase em sua vida.

O tema do livro foi escolhido com naturalidade pela autora, a argentina Inés Garland –afinal, era a menopausa que andava havia tempos permeando todas as suas anotações em cadernos espalhados pela casa. Também pareceu natural a Inés transformar a personagem principal em uma mulher com a mesma profissão que a sua, o mesmo sobrenome, e que também é mãe, assim como ela.

“Quando escrevo, às vezes começo por um detalhe biográfico e vou puxando dali um fio invisível. As coisas que aparecem depois, às vezes, aconteceram de verdade, às vezes, não. Neste livro fiz uma grande mistura”, afirma, em entrevista por email à Folha.

Garland nasceu em Buenos Aires, em 1960, começou a escrever aos 11 anos de idade, e em 2006 publicou seu romance de estreia, “El Rey de Los Centauros” (O Rei dos Centauros, em espanhol). Em 2017, lançou “Una Vida más Verdadera” (Uma Vida mais Verdadeira), e em 2024, “Diario de una Mudanza”, que chega agora ao Brasil.

O livro completa uma sequência de publicações recentes e populares sobre menopausa, como “O Cérebro e a Menopausa” (Harpercollins), da neurocientista Lisa Mosconi, e “Vou te Contar” (BestSeller), da atriz britânica Naomi Watts.

Para Garland, a popularidade da menopausa hoje —ela é trending topic não só na literatura, mas nas telas, palcos, redes sociais— se deve sobretudo à disposição coletiva das mulheres de quebrar o silêncio sobre assuntos relacionados ao corpo e ao desejo, silêncio este, ela pensa, imposto sobretudo pela vergonha. “As mulheres sofrem tanto a idealização como a difamação. São duas faces da mesma moeda”, diz.

Assim como seus antecessores, “Diário de uma Mudança” se propõe, entre outras missões, a confortar quem porventura sinta que a menopausa e suas cercanias são processos individuais e segregativos. Faz isso não se atendo apenas à menopausa, mas ao envelhecer sendo mulher –a protagonista, já divorciada, atravessa o climatério ao mesmo tempo em que lida com a morte do pai e com a filha jovem que sai de casa.

“Não me considero uma especialista em menopausa, nem de longe. Mas o fato de que o livro se tornou tão popular me levou a ver quanto silêncio havia sobre este tema. Entendi também que cada mulher é única, e que essa fase da vida não afeta a todas da mesma maneira, mas que há pontos em comum, e que podemos nos ajudar umas às outras”, afirma.

“O risco agora é o mesmo que temos com muitos outros assuntos: a menopausa se transformou em um negócio e vão tentar nos vender produtos de todos os tipos. O equilíbrio depende de cada uma. Por outro lado, temos que prestar atenção à exigência social, com interesses econômicos por trás dela, de sermos eternamente jovens. A juventude é linda, mas tem suas dificuldades. Envelhecer traz grandes benefícios e sua própria forma de beleza. Não podemos deixar que nos convençam do contrário.”

A autora conta que mulheres na faixa dos 80 e 90 anos se aproximaram para dizer que, a princípio, as histórias do livro pareciam exagero. “Mas com o passar do tempo elas começaram a ter lembranças perturbadoras, e a se dar conta de que haviam reprimido muito mal estar e muita solidão. Puderam falar de coisas que não tinham podido compartilhar na sua época”, conta a autora.

“Também se aproximaram de mim homens e jovens, me agradecendo porque agora entendem melhor suas companheiras, irmãs, mães. A falta de comunicação traz mal entendidos e conflitos desnecessários, e a ignorância faz com que tenhamos muitos medos desnecessários.”

Também faltaram à própria escritora orientações sobre a menopausa vindas das mulheres mais velhas da família. Quando chegou sua vez, teve dificuldades para relacionar a variedade de sintomas difusos ao climatério –em sua lista particular houve queda de cabelo, insônia, tristeza, “a sensação de estar com um pé na cova e de que os sonhos não realizados nunca mais se realizariam”.

Depois da tormenta, no entanto, veio “uma das épocas mais plenas da vida”. Garland enumera o que mais admira na mulher em que se transformou: “Minha força de seguir me fazendo perguntas. Uma maior liberdade. Um sentimento de gratidão pelas coisas que antes eu considerava banais. Fisicamente estou muitíssimo melhor agora do que antes. Sinto uma alegria enorme por ter ousado escrever esse livro, ver as mulheres que me escreveram para me agradecer por tê-las feito rir e por dar nome às suas dores. Admiro me sentir com entusiasmo e fome de viver com consciência e presença.”

Autor: Folha

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