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Dieta cetogênica pode melhorar transtornos mentais – 23/03/2026 – Equilíbrio

Maya Schumer, 32, neurocientista em Belmont, Massachusetts (EUA), convivia com transtorno bipolar havia mais de uma década. Ela tinha tentado praticamente todos os tratamentos —terapia, antipsicóticos, estabilizadores de humor, anticonvulsivantes— para ajudar a controlar os sintomas. Mas ataques de pânico, mania, depressão e confusão mental persistiam.

Ela conta que, em 2024, estava “mais suicida” do que jamais estivera. Então, quando seu psiquiatra sugeriu que ela experimentasse a dieta cetogênica, que prioriza alimentos ricos em gordura e pobres em carboidratos, ela disse que não tinha mais nada a perder.

Em cinco meses priorizando alimentos como carne vermelha, manteiga e abacate, e comendo menos grãos, frutas e vegetais, os ataques de pânico diminuíram e ela diz que conseguia se concentrar sem usar estimulantes. Mas a depressão persistiu, então o psiquiatra receitou uma dose baixa de lítio. Finalmente, com uma combinação de dieta e medicação, Schumer diz que “as coisas se encaixaram”. Diz sentir-se estável, segura e centrada, e a doença parece mais fácil de controlar.

Nos últimos anos, alguns estudos (limitados) começaram a sugerir que a dieta cetogênica pode ajudar a reduzir sintomas de doenças mentais como depressão, transtorno bipolar e esquizofrenia. Em fevereiro, o secretário de Saúde dos EUA, Robert F. Kennedy Jr., chegou a afirmar que essa dieta poderia “curar” algumas dessas condições.

Especialistas dizem que não há evidências para sustentar tal declaração e que a dieta não deve substituir tratamentos comprovados como terapia ou medicamentos psiquiátricos. Mas alguns pacientes, especialmente aqueles que não tiveram sucesso com os medicamentos ou que experimentaram efeitos colaterais graves, dizem estar desesperados por outras soluções e começam a experimentar a dieta cetogênica.

O que é a dieta cetogênica

A dieta cetogênica é usada desde a década de 1920 como tratamento para epilepsia, embora seja mais conhecida e mais comumente utilizada hoje para perda de peso.

Existem muitas versões da dieta cetogênica, mas todas recomendam comer alimentos ricos em gordura e pobres em carboidratos, como ovos, carnes, peixes, manteiga, castanhas e vegetais não amiláceos, como folhas verdes e couve-flor. Grãos, leguminosas, doces, vegetais amiláceos como batatas e a maioria das frutas são proibidos.

O objetivo é colocar o corpo em cetose —quando as células “mudam” de queimar principalmente carboidratos, para energia, para queimar gordura, explica Shebani Sethi, diretora do programa de psiquiatria metabólica da Stanford Medicine. Isso estabiliza e reduz os níveis de açúcar no sangue e pode reduzir o apetite, o que poderia ajudar na perda de peso e no controle do diabetes tipo 2.

Em 2017, Christopher Palmer, professor assistente de psiquiatria na Harvard Medical School, relatou uma ligação entre a alimentação e a saúde mental, publicando um estudo de caso envolvendo dois de seus pacientes com transtorno esquizoafetivo.

Ambos os pacientes relataram que a depressão diminuiu e as alucinações e os delírios desapareceram após experimentarem a dieta cetogênica por algumas semanas. Quando pararam a dieta, seus sintomas retornaram em 24 horas.

“Minha reação inicial foi de descrença, tipo, isso é impossível”, diz Palmer. “Então mergulhei na literatura.” Ele conta que encontrou apenas alguns estudos científicos sobre dieta cetogênica e doença mental, incluindo um ensaio de 1965 envolvendo dez mulheres com esquizofrenia cujos sintomas melhoraram após seguirem a dieta por duas semanas.

Pesquisas sobre o sucesso da dieta no tratamento da epilepsia sugeriram que a cetogênica parece reduzir a inflamação e equilibrar os níveis de neurotransmissores no cérebro, afirma Palmer. Alguns estudos pequenos e limitados apoiaram a hipótese de que tais mudanças cerebrais poderiam também ajudar pessoas com doenças mentais.

Em um ensaio de 2024, pesquisadores avaliaram os sintomas de 23 adultos com esquizofrenia ou transtorno bipolar antes e depois de seguirem a dieta cetogênica por quatro meses. Ao final do estudo, os sintomas dos participantes haviam melhorado em média 31%. Outro estudo, publicado em 2025, concluiu que quando 16 estudantes universitários com depressão maior seguiram a dieta por 10 a 12 semanas seus sintomas melhoraram cerca de 70%.

Muitos participantes desses e de outros estudos perderam peso enquanto seguiam a dieta e tiveram outras melhorias de saúde, como redução da pressão arterial e dos níveis de inflamação, o que pode ter, pelo menos em parte, levado a um melhor funcionamento cerebral e melhorado os sintomas, diz Sethi, que liderou o ensaio de 2024.

Também é possível que esses resultados positivos tenham sido parcialmente devido a um efeito placebo —quando a saúde de uma pessoa melhora com base na crença de que um tratamento a fará se sentir melhor, diz Min Gao, pesquisadora sênior em psiquiatria metabólica da Universidade de Oxford. Como nenhum dos estudos incluiu um grupo de controle, ela ressalta, é difícil confiar nas conclusões.

Em um ensaio que envolveu 88 pessoas com depressão clínica, publicado em fevereiro, Gao e seus colegas incluíram um grupo de controle. Eles deram à metade dos participantes refeições cetogênicas por seis semanas e pediram à outra metade (o grupo de controle) que comesse um pouco mais saudável do que costumavam. Embora os sintomas depressivos no grupo cetogênico tenham melhorado em comparação com o grupo de controle, Gao diz que foi por uma margem pequena.

Muito mais pesquisas são necessárias para determinar os efeitos da dieta cetogênica na saúde mental, ela acrescenta.

Riscos e benefícios

Pelo menos uma dúzia de ensaios sobre dieta cetogênica e doença mental estão em andamento ou foram concluídos recentemente.

Alguns especialistas dizem que não estarão convencidos dos benefícios da dieta até que se saiba mais, e se preocupam que ela possa trazer alguns riscos. Se os pacientes experimentarem a dieta por conta própria e começarem a se sentir melhor, poderão pensar que podem parar de tomar seus medicamentos, o que poderia levar ao agravamento dos sintomas ou a uma crise de saúde mental, diz Gia Merlo, professora clínica de psiquiatria na NYU Grossman School of Medicine.

Drew Ramsey, psiquiatra especializado em nutrição, lembra de um ex-paciente com transtorno bipolar que “ficou encantado” com a cetogênica, parou seus medicamentos enquanto experimentava a dieta e depois foi hospitalizado com mania. “Não funciona para todo mundo.”

Versões populares da dieta cetogênica também tendem a ser ricas em gorduras saturadas, como as da carne vermelha, e pobres em fibras, o que pode aumentar o risco de condições de saúde como doenças cardiovasculares e alguns tipos de câncer, acrescenta Merlo.

Outro desafio é que a dieta cetogênica pode ser difícil de seguir a longo prazo, afirma Ramsey. Ela frequentemente requer cozinhar do zero e evitar muitos alimentos que as pessoas apreciam, como arroz, pão e a maioria das frutas. Mesmo aqueles que têm apoio de nutricionistas ou que participam de estudos científicos às vezes acabam desistindo.

Se você quiser experimentar a dieta, é importante fazê-lo sob a orientação de um médico ou outro profissional, afirma Palmer, que pode monitorar sua saúde e fazer quaisquer ajustes de medicação, se necessário. “Por favor, não faça isso por conta própria”, ele acrescenta.

Esta reportagem foi originalmente publicada no The New York Times.

Autor: Folha

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