quarta-feira, janeiro 21, 2026
13.9 C
Pinhais

Diferentes transtornos psiquiátricos podem ter mesma causa – 21/01/2026 – Equilíbrio e Saúde

Um amplo novo estudo sobre registros psiquiátricos e genéticos tem o potencial de mudar o tratamento de milhões de pacientes psiquiátricos, ao constatar que muitas condições envolvem genes semelhantes e podem não precisar ser tratadas como doenças distintas.

Em essência, o estudo sugere que reforçar a ênfase tradicional no comportamento do paciente com uma compreensão mais profunda da biologia das doenças mentais poderia levar a um tratamento melhor.

Publicado na revista Nature, o artigo aborda as fronteiras que a psiquiatria usa para separar condições semelhantes como transtorno bipolar e esquizofrenia.

As descobertas também podem poupar os pacientes do fardo de carregar múltiplos diagnósticos diferentes que exigem uma variedade de medicamentos distintos.

Metade de todas as pessoas experimentará um transtorno psiquiátrico ao longo da vida, de acordo com um estudo de 2010 na revista Psychiatry. Mais da metade de todos os pacientes psiquiátricos será diagnosticada com um segundo ou terceiro transtorno, e cerca de 15% será diagnosticada com pelo menos quatro transtornos, segundo um estudo de 2018 no American Journal of Psychiatry.

“Se você é alguém a quem estão dizendo que tem quatro coisas separadas, isso pode levar a muito pessimismo sobre como esse processo terapêutico vai funcionar”, disse Andrew Grotzinger, um dos autores do novo estudo e professor assistente de psicologia e neurociência na Universidade do Colorado Boulder.

“A metáfora médica que eu ofereceria é: se você fosse ao médico com nariz escorrendo, tosse e dor de garganta e recebesse diagnóstico de transtorno de nariz escorrendo, transtorno de tosse e transtorno de dor de garganta, e recebesse três comprimidos separados, consideraríamos isso um erro médico.”

Para produzir o estudo da Nature, uma grande equipe internacional de pesquisadores passou cinco anos analisando registros de mais de 1 milhão de pessoas diagnosticadas com um de 14 transtornos psiquiátricos, e 5 milhões de pessoas sem tal diagnóstico.

Os cientistas descobriram que as semelhanças genéticas entre os 14 transtornos sugerem que eles se enquadram em cinco categorias essenciais: transtornos por uso de substâncias; condições internalizantes, como depressão, ansiedade e transtorno de estresse pós-traumático; condições do neurodesenvolvimento, como autismo e transtorno de déficit de atenção e hiperatividade; condições compulsivas, como anorexia nervosa, síndrome de Tourette e transtorno obsessivo-compulsivo; e um quinto grupo que inclui transtorno bipolar e esquizofrenia.

O estudo descobriu que transtorno bipolar e esquizofrenia compartilham cerca de 70% dos mesmos determinantes genéticos.

As semelhanças ajudam a explicar por que alguns antidepressivos parecem funcionar não apenas para depressão, mas também para ansiedade e transtorno de estresse pós-traumático.

Embora os genes contribuam para nosso risco de transtornos psiquiátricos, eles interagem com outros fatores, incluindo criação, eventos da vida e estresse.

Os pesquisadores descobriram que os 14 transtornos psiquiátricos que examinaram estavam ligados por 238 variantes genéticas únicas, sequências em nosso código genético que diferem da forma mais comum. Muitas das variantes provavelmente regulam funções cerebrais específicas. Transtorno bipolar e esquizofrenia, por exemplo, ambos envolvem atividade acima do normal de genes que influenciam neurônios excitatórios, que são fortemente envolvidos na transmissão de sinais entre outros neurônios.

A equipe científica também identificou um “ponto crítico” no cromossomo 11, um agrupamento de genes envolvido no aumento do risco genético para oito dos transtornos. O cromossomo 11 é conhecido por ter uma concentração de genes medicamente importantes envolvidos em condições psiquiátricas como depressão e autismo, bem como vários tipos de câncer e distúrbios sanguíneos.

Um desses genes é o alvo principal de medicamentos antipsicóticos, o DRD2, que regula a dopamina, um mensageiro químico fundamental no cérebro que afeta motivação, recompensa, humor, atenção e cognição.

Os autores do artigo da Nature reconheceram que seu estudo foi limitado pelo fato de que a preponderância de dados genéticos agora vem de pessoas de ascendência europeia. Os cientistas estão agora tentando ampliar a diversidade das populações incluídas nos conjuntos de dados genéticos.

Especialistas em neurologia e psiquiatria divergiram em sua avaliação do estudo da Nature, oferecendo uma possível prévia dos debates que podem ocorrer à medida que a Associação Americana de Psiquiatria prepara a sexta edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, o manual abrangente usado por clínicos, pesquisadores e seguradoras.

“O que é tão maravilhoso sobre este artigo —e uma das razões pelas quais ainda não me aposentei— é que acredito firmemente que a psiquiatria mudará mais nos próximos dez anos do que mudou no último século. E é um trabalho como este que me dá esperança de que minha opinião está certa”, diz Scott Aaronson, diretor científico do Instituto de Diagnósticos e Terapêuticas Avançadas do Sheppard Pratt em Baltimore.

Aaronson diz que diagnosticar pacientes não com base na biologia, mas em como eles aparecem e agem no consultório de um psiquiatra, pode ser enganoso.

Ele recordou gêmeos idênticos, um dos quais tratou, o outro que apenas conheceu. “Um foi diagnosticado com esquizofrenia, o outro gêmeo foi diagnosticado com transtorno bipolar”, disse Aaronson. “E foi realmente porque, embora tivessem exatamente a mesma genética, um tinha uma apresentação que era em grande parte um transtorno psicótico e um tinha uma apresentação que era em grande parte um transtorno de humor.”

Ken Duckworth, diretor médico da Aliança Nacional sobre Doenças Mentais, diz que até agora “a revolução genética não rendeu muito no campo” da psiquiatria. “O câncer está muito à nossa frente, e isso porque ainda temos dificuldade em compreender as raízes biológicas subjacentes” das doenças mentais.

Mas neste momento, Duckworth diz, “não há aplicação prática” para as descobertas do estudo da Nature. “Um homem em Des Moines, Iowa, que está tentando descobrir o que está acontecendo com ele, não será capaz de obter” o mesmo tipo de avaliação genética usada pelos pesquisadores que escreveram o artigo da Nature “para ajudar a informar seu tratamento.”

Autor: Folha

Destaques da Semana

Temas

Conheça Nosso Guia de Compras

spot_img

Artigos Relacionados

Categorias mais Procuradas