Depois do forte avanço da véspera, o dólar abriu esta quinta-feira (18) em alta, após o Banco Central atualizar suas projeções para o Produto Interno Bruto (PIB) e a inflação. No exterior, a moeda norte-americana sustenta ganhos diante de uma cesta de divisas fortes.
O cenário eleitoral e os dados de inflação dos Estados Unidos também estão no radar dos investidores. Às 9h53, o dólar à vista subia 0,39%, a R$ 5,544.
Na quarta-feira (17), a moeda fechou em alta de 1,05%, a R$ 5,521, enquanto a Bolsa recuou 0,78%, aos 157.327 pontos.
Nesta quinta-feira, o Banco Central projetou uma atividade econômica mais forte do que o previsto anteriormente para este (2,3%, ante 2% anteriormente) e o próximo ano (1,6%, era 1,5%, apontando ainda que a inflação deverá atingir o centro da meta de 3% apenas no primeiro trimestre de 2028, permanecendo acima do alvo durante o período decisivo de 2027.
Em seu Relatório de Política Monetária, a autarquia estimou que a inflação no país estará em 3,2% no terceiro trimestre de 2027. O período é considerado chave por agentes do mercado porque passará a ser considerado o horizonte relevante para atuação da política monetária na reunião que decidirá o nível da taxa Selic no início de 2026.
Além disso, está no foco nos investidores resultado de pesquisa Bloomberg/AtlasIntel, que mostra uma disputa mais acirrada, em cenários de segundo turno, entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), onde o primeiro marca 49% e o segundo, 45%.
No exterior, dados da inflação dos EUA, que serão divulgados durante o dia, também estão no radar dos analistas.
A véspera foi marcada por cautela dos operadores diante de ruídos políticos no país. A aversão a ativos brasileiros se deu em meio à tramitação do PL da Dosimetria no Senado, tendo as pesquisas de intenção de voto para 2026 da véspera ainda no radar.
A CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) aprovou o PL da Dosimetria, projeto de lei que reduz as penas de condenados por atos golpistas e beneficia o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Ele pode ter o tempo de condenação em regime fechado encurtado para algo entre dois anos e quatro meses e quatro anos e dois meses, dependendo da interpretação.
Se as regras vigentes hoje forem mantidas, a estimativa é que o ex-presidente fique de 6 anos e 10 meses a pouco mais de 8 anos em regime fechado. A condenação total foi a 27 anos e 3 meses.
O ruído em torno da tramitação do PL se soma ao noticiário da véspera, quando uma pesquisa Genial/Quaest mostrou Lula liderando as intenções de voto para as eleições de 2026. Tarcísio ficou atrás de Flávio nas simulações.
O governador paulista é visto por investidores como um candidato mais alinhado à agenda pró-mercado e mais competitivo do que Flávio. O senador anunciou sua pré-candidatura com o aval do pai no dia 5 de dezembro —após o anúncio, o dólar disparou para R$ 5,43 e a Bolsa recuou 4%.
Segundo Felipe Tavares, economista-chefe da BGC Liquidez, a leitura de que Tarcísio perde força enquanto Flávio ganha espaço impacta o humor dos investidores. “O mercado leu os resultados da Quaest como uma sinalização de preferência por Lula”, afirma.
“Quando a Quaest sai mostrando o Lula forte, volta o medo de que não se concretize a alternância política. Por isso o mercado piorou.”
Uma eventual vitória de Tarcísio nas eleições, na análise do mercado, destravaria uma valorização ainda mais acentuada para a Bolsa e uma depreciação maior do dólar. É para esse cenário que os investidores vinham se posicionando, em operações que vinham sendo apelidadas de “Tarcísio Trade”.
Isso porque os operadores procuram uma melhora no quadro das contas públicas do Brasil, dada a trajetória crescente da dívida em relação ao PIB —uma métrica que compara o quanto um país deve e o quanto de riqueza é produzida dentro dele. O indicador é importante para avaliar a saúde financeira e a capacidade dele de honrar dívidas.
Tarcísio teria uma agenda mais avessa a aumentar os gastos públicos, o que daria mais previsibilidade sobre os rumos da economia. O aumento das despesas poderia, por exemplo, forçar uma manutenção da taxa Selic em patamares elevados, já que teria o potencial de afetar a dinâmica da inflação.
Operadores têm repetido que, mais do que o nome do candidato eleito, o que importa é como será a condução fiscal do governo de 2027. “O mercado é apolítico, o que ele precifica é taxa de juros e o quanto ela afeta os ativos de risco. Hoje, o juro restritivo de 15% se deve ao fiscal mais expansionista. E a expectativa é a de que a oposição traga um fiscal com mais austeridade”, afirma Rubens Cittadin Neto, especialista em renda variável da Manchester Investimentos.
“Então, quando ocorre um movimento que divide a oposição, e enfraquece o lado político que pode trazer a austeridade fiscal, o mercado acaba precificando muito mal.”
A elevada incerteza sobre as eleições deve continuar ao longo do próximo ano e ganhar tração a partir de abril, quando os candidatos terão oficializado suas intenções de concorrer à Presidência.
A movimentação deste mês é, na visão de Alison Correia, analista de investimentos e co-fundador da Dom Investimentos, também de realização de lucros. “Não podemos esquecer que a Bolsa chegou a se valorizar quase 35% nesse ano. É bastante coisa. Qualquer tipo de incerteza, ainda mais nessa época do ano, leva o investidor a colocar dinheiro no bolso”, afirma.
Pesa, ainda, a antecipação das remessas de dividendos ao exterior. As mudanças no Imposto de Renda, que entram em vigor em 2026, aceleraram a distribuição de lucros aos sócios e acionistas de grandes empresas neste fim de ano, em um esforço para garantir a isenção dos rendimentos antes que a alíquota mínima para contribuintes de alta renda entre em vigor.
“Muitas empresas, fugindo da tributação, estão antecipando as remessas ao exterior, o que aumenta o volume de saída de dólares do país”, afirma Thiago Avallone, especialista em câmbio da Manchester Investimentos.
A cena internacional também norteia as negociações. Dados de desemprego nos Estados Unidos mantiveram as apostas na manutenção dos juros norte-americanos no encontro de janeiro. “Ou seja, Brasil vai manter em 15%, e EUA não cortam. Pesou em Wall Street e pesa mais no Brasil”, afirma o analista.
Dados de inflação dos EUA serão divulgados nesta quinta e deverão ajustar as apostas sobre a política monetária por lá. A probabilidade de manutenção dos juros no atual patamar de 3,5% e 3,75% é de 77,9%, segundo a ferramenta FedWatch, enquanto os demais 22,1% apostam em um corte de 0,25 ponto percentual.
Além disso, decisões de juros da Inglaterra e da União Europeia, também esperadas para esta quinta, colocam o exterior em compasso de espera.





