Dia 13 de agosto de 2017. Final dos 800 m rasos feminino do Campeonato Mundial de Atletismo, aqui em Londres. Com um sprint final, a sul-africana Caster Semenya conquistou o tricampeonato. Levantou os braços para o ar, sorriu. Foi a única. Eu estava lá, como correspondente do SporTV. As outras atletas passaram pelo nosso espaço na área de entrevistas às pressas, seus rostos um misto de raiva e frustração. Por último, Semenya, que também não falou com jornalistas depois da prova mais polêmica da competição.
Quase nove anos depois, a nova política do COI (Comitê Olímpico Internacional) muda de vez casos como esse, e outros.
A partir dos próximos Jogos Olímpicos, apenas atletas biologicamente do sexo feminino poderão competir em competições femininas. Mulheres transgênero e as que têm diferenças no desenvolvimento sexual (DSD) —condição em que órgãos reprodutivos, hormônios e genes podem ser uma mistura de características masculinas e femininas, caso de Semenya— só poderão disputar provas masculinas. Eu concordo e acho a decisão justa. Um ano antes, a sul-africana havia sido bicampeã olímpica no Rio. Todo o pódio foi de atletas com DSD.
No anúncio, Kirsty Coventry, primeira mulher a comandar o COI, disse que evidências da ciência são claras; que esse é o resultado de um ano e meio de estudos científicos e consultas com especialistas que mostraram que atletas com cromossomos masculinos levam vantagem principalmente em esportes que envolvem força, potência e resistência; que mais de 1.000 atletas foram consultados.
Até então, critérios para a elegibilidade de gênero cabiam a cada federação internacional —as de natação, atletismo, por exemplo, baniram da elite do esporte feminino quem passou pela puberdade masculina.
Agora, o COI vai centralizar o monitoramento. A partir desta sexta (27), as atletas terão que fazer um teste genético, apenas uma vez, para saber se têm ou não o gene SRY, ligado ao cromossomo Y —que faz com que características masculinas se desenvolvam. Quem tiver resultado positivo no teste estará fora da categoria feminina. Na prática, é o banimento de mulheres trans e das que têm DSD, a não ser que estas últimas provem que não se beneficiam do aumento de testosterona.
Em Tóquio-2021, a halterofilista neozelandesa Laurel Hubbard foi a primeira mulher trans a disputar uma prova olímpica feminina, depois de reduzir seus níveis de testosterona. Em Paris-2024, houve grande polêmica quando a boxeadora Imane Khelif ganhou o ouro, um ano depois de ter sido desclassificada do campeonato mundial por ter falhado em um teste de elegibilidade de gênero.
A decisão do COI não encerra o debate e é justo ouvir o outro lado. Especialistas acreditam que o teste genético, já usado no atletismo e que tem apoio de cientistas do esporte, é a forma mais confiável. Há quem alerte que criaria um estigma nesses atletas. Fato é que o modelo atual, sem uma regra consistente e baseada na ciência, não está funcionando.
Ao tratar do assunto, é fundamental separar esporte de altíssimo nível de inclusão de pessoas trans na sociedade e sua participação em competições recreativas. Uma coisa não tem nada a ver com a outra. E este não é um retrocesso na igualdade de gênero no esporte.
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Autor: Folha




















