Recentemente, o ator Matt Damon atribuiu sua perda de peso à dieta sem glúten. Isso reacendeu o debate em torno dessa abordagem alimentar bastante controversa. Embora as afirmações do astro do filme “A Odisséia” tenham gerado discussão, a ciência por trás da perda de peso conta uma história muito mais complexa do que simplesmente cortar uma única proteína.
O glúten é uma proteína natural encontrada em grãos como trigo, cevada e centeio, o que significa que é comumente consumido em alimentos cotidianos como pão, macarrão e cereais. Para a maioria das pessoas, o glúten não causa nenhum problema de saúde.
Mas para quem tem doença celíaca —que afeta cerca de 1% das pessoas— é essencial evitá-lo. Essa condição autoimune desencadeia uma resposta imunológica ao glúten, danificando o revestimento do intestino delgado e prejudicando a absorção de nutrientes.
Além disso, existe a intolerância ao glúten, ou Sensibilidade ao Glúten Não Celíaca (SGNC), uma condição associada a sintomas como inchaço e refluxo. Pessoas com essa condição também costumam apresentar problemas não apenas no sistema digestivo, incluindo dores de cabeça e erupções cutâneas.
Apesar do número crescente de pessoas que relatam esses sintomas, a intolerância ao glúten continua sendo um tema muito debatido em termos de suas causas e tratamento. Atualmente, a única abordagem recomendada é adotar uma dieta sem glúten.
Para todas as outras pessoas, evitar alimentos ricos em glúten pode ser desnecessário e potencialmente problemático. Alimentos ricos em glúten não fornecem apenas carboidratos, mas também são excelentes fontes de fibras e vitaminas B. A remoção pode inadvertidamente contribuir para deficiências nutricionais.
Dado que Damon não revelou nenhuma condição médica ao discutir seus objetivos de perda de peso, a explicação provável para seus resultados reside em sua dieta e comportamento geral, não no glúten em si. Uma pesquisa publicada na revista Nutrients não encontrou diferenças significativas entre dietas sem glúten e ricas em glúten em termos de gordura corporal ou peso corporal entre adultos saudáveis.
Mecânica, não magia
A perda de peso que muitas pessoas experimentam em dietas sem glúten geralmente se resume a mecanismos internos, e não a magia. Como o glúten está presente em muitos alimentos ricos em energia e baseados em carboidratos, as pessoas que o eliminam normalmente cortam itens como pizza, fast-food e massas.
Essa restrição de carboidratos reduz o glicogênio, a forma armazenada de carboidratos no corpo. Quando o glicogênio é armazenado, a água é armazenada junto com ele.
Portanto, quando os níveis de glicogênio caem, o peso da água diminui, criando a ilusão de uma rápida perda de gordura. Esse fenômeno explica por que as pessoas costumam ver resultados expressivos na primeira ou segunda semana de qualquer nova dieta ou programa de exercícios.
Além da redução da ingestão de carboidratos, as pessoas que seguem dietas sem glúten geralmente passam a consumir mais alimentos integrais naturalmente sem glúten. Essa reestruturação alimentar geralmente resulta em um menor consumo calórico geral.
Um pequeno estudo preliminar, publicado na revista Frontiers of Sports and Active Living, descobriu que seguir uma dieta sem glúten por seis semanas levou a reduções significativas no peso corporal em comparação com uma dieta de controle. Mas essas mudanças provavelmente foram resultado de um déficit calórico e perda de líquidos, e não de qualquer vantagem metabólica decorrente da remoção do glúten.
Há outro fator em jogo. Os carboidratos à base de trigo contêm açúcares fermentáveis chamados frutanos, que são decompostos por bactérias no intestino grosso. Essa fermentação produz gases que podem causar inchaço, dor e alterações nos movimentos intestinais. Quando esses alimentos são removidos, os sintomas diminuem e o estômago pode parecer mais liso.
O glúten pode trazer benefícios para a saúde
Adotar uma dieta sem glúten que não seja medicamente necessária pode, na verdade, aumentar os riscos para a saúde. Um grande estudo publicado no BMJ descobriu uma associação entre maior ingestão de glúten e redução do risco de doenças cardíacas.
Da mesma forma, pesquisas revelaram uma ligação entre o baixo consumo de glúten e o aumento do risco de diabetes tipo 2.
O culpado por trás dessas relações preocupantes pode muito bem ser os produtos sem glúten que enchem as prateleiras dos supermercados. Quando o glúten é removido de um produto, ele altera a textura e a palatabilidade do alimento. Para compensar, os fabricantes adicionam outros ingredientes para melhorar o sabor e a consistência.
Os produtos sem glúten demonstraram conter significativamente menos proteínas, mais gordura saturada, menos fibras e mais açúcar do que os seus equivalentes convencionais. Com o tempo, este perfil nutricional pode levar a dietas inadequadas e, consequentemente, a uma saúde precária.
Portanto, embora as pessoas possam acreditar que deixar de consumir glúten causa perda de peso, a realidade geralmente é diferente. Mudanças sutis na estrutura e composição da dieta, juntamente com modificações comportamentais, são normalmente a verdadeira razão.
Este texto foi publicado no The Conversation. Clique aqui para ler a versão original.
Autor: Folha






