Apesar de o mundo estar mudando, ele ainda é extremamente machista. Vide o esforço que as mulheres têm de fazer, muito maior que o dos homens, para serem reconhecidas por suas qualidades, profissionais ou pessoais.
No futebol, percebe-se o avanço quando há árbitras em partidas masculinas. Antes, isso era raríssimo. Tivemos no Brasil a Sílvia Regina e a Ana Paula (bandeirinha), ambas com sobrenome Oliveira, destaques no início deste século.
Antes, bem antes, a pioneira Léa Campos, na década de 1970, que lutou contra a lei –mulheres eram proibidas de praticar certos esportes no país, incluindo o futebol– para se tornar árbitra e exercer o ofício, mesmo que em jogos menos relevantes, de categorias de base ou amistosos.
Com a sociedade com a cabeça menos fechada, a presença delas aumentou vagarosamente nos jogos dos homens. Portas foram se abrindo meio que a fórceps, oportunidades em campeonatos importantes surgindo (como na Champions League), até que, quatro anos atrás, a grande boa-nova: árbitras na Copa do Mundo masculina.
No ambiente extremamente sexista do futebol, considero as mulheres que se aventuram na arbitragem e pedem espaço para arbitrar nas “arenas de guerra”, em que se digladiam 22 truculentos, umas destemidas, umas obstinadas, umas valentes. Aplaudo essa tenacidade.
De forma geral, os jogadores afirmam respeitar a arbitragem feminina. Para mim, a maioria fala isso da boca para fora, só para evitar acusações de misoginia.
No seu íntimo, e na conversa com seus pares e/ou amigos, preferem que quem apite seja homem. Neste ano, um atleta não se conteve depois de Bragantino 1 x 2 São Paulo, nas quartas de final do Campeonato Paulista.
“Ela acabou com o nosso jogo”, disse o zagueiro Gustavo Marques, da equipe do interior, sobre a atuação da árbitra Daiane Muniz. “A Federação Paulista tem que olhar para jogos desse tamanho e não colocar uma mulher. Ela não tem capacidade de apitar um jogo desse.”
Muitos, como Gustavo, preferem árbitros a árbitras porque consideram que eles sabem conduzir melhor a partida que elas. Preconceito puro –enraizado no ludopédio desde a existência da sua versão moderna (segunda metade do século 19)– contra a atuação feminina.
Voltando às mulheres na arbitragem na Copa de 2022, no Qatar, foram seis as escolhidas, de um total de 129 profissionais: as árbitras de campo Stéphanie Frappart (França), Yoshimi Yamashita (Japão) e Salima Mukansanga (Ruanda), mais as bandeirinhas Neuza Back (Brasil), Karen Díaz (México) e Kathryn Nesbitt (EUA).
Contudo, das 64 partidas da competição, elas tiveram protagonismo somente em duas. O trio Frappart, Back e Díaz atuou em Alemanha 4 x 2 Costa Rica, na rodada final da fase de grupos, e Kathryn correu pela lateral em Inglaterra 3 x 0 Senegal, nas oitavas de final. No restante dos jogos, restou a coadjuvação, fosse em campo (quarta ou quinta árbitra), fosse no VAR (assistente do árbitro de vídeo).
Para 2026, em um Mundial inchado (serão 48 seleções, não mais 32), mesmo com mais partidas (104) e mais profissionais de arbitragem selecionados (170), o número de mulheres será o mesmo: seis. A representatividade delas, proporcionalmente, caiu, passando de 4,7% para 3,5%. Um erro. Deveria subir.
Kathryn irá para sua segunda Copa. As outras selecionadas são as árbitras de campo Tori Penso (EUA) e Katia García (México), as bandeirinhas Brooke Mayo (EUA) e Sandra Ramírez (México) e a árbitra de vídeo Tatiana Guzmán (Nicarágua). Todas do continente americano e nenhuma brasileira desta vez, apesar de terem sido nove os brasucas selecionados para o time de arbitragem no Mundial da América do Norte.
Questiono: a Fifa terá coragem para, diferentemente do visto no Qatar, escalar a meia dúzia de corajosas mais vezes em papéis relevantes? E, imperioso, das quartas de final em diante? Duvido.
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Autor: Folha








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