
Quando mandou prender o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, o ministro do STF André Mendonça se apoiou, entre outras evidências, nas mensagens de grupo de WhatsApp chamado “A Turma”, cujos membros incluíam o agora famoso “Sicário” e um ex-policial federal que conseguia acessar sistemas restritos dos órgãos de investigação; o objetivo do grupo era monitorar, intimidar e coagir desafetos e possíveis “ameaças”. Mas esta, ao que tudo indica, não era a única “turma” de Vorcaro; os milhões de reais que fluíam por suas mãos serviram também para mimar um grupo bastante seleto – e poderoso.
Em 25 de abril de 2024, Vorcaro bancou uma degustação exclusiva de um caríssimo uísque escocês, o Macallan – cujas garrafas chegam a custar R$ 100 mil –, no George Club, em Londres. Entre os cerca de 30 convidados estavam os ministros do STF Alexandre de Moraes e Dias Toffoli; o procurador-geral da República, Paulo Gonet; o ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ) Benedito Gonçalves (“missão dada, missão cumprida”); o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues; o então ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski; e o atual presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (que na ocasião ainda não ocupava o cargo). A lista foi divulgada por veículos como Poder360 e O Estado de S.Paulo, e confirmada pela Gazeta do Povo. Os convidados foram presentados com garrafas e a conta final ficou em cerca de US$ 640 mil (pouco mais de R$ 3 milhões no câmbio da época).
Tomar uísque com Vorcaro, obviamente, não é crime. Mas essa festinha bastante exclusiva levanta muitos questionamentos éticos, e não sem razão
Todos eles estavam na capital britânica para o 1.º Fórum Jurídico Brasil de Ideias, realizado de 24 a 26 de abril de 2024 e patrocinado pelo Banco Master. No dia 24, data da abertura do evento e véspera da degustação, Vorcaro se gabou em mensagem à então namorada, dizendo “acabei de dar o discurso para os ministros (…) Todos ministros do Brasil, do STF, STJ etc. E euzinho discursando”. À época, o Master já havia contratado o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, e também o dos filhos de Lewandowski – que era sócio da banca quando o contrato foi fechado, em 2023, mas deixou o escritório para assumir a pasta da Justiça no governo Lula.
Tomar uísque com um banqueiro, obviamente, não é crime. Mas essa festinha bastante exclusiva levanta muitos questionamentos éticos, e não sem razão. Quando uma empresa estabelece regras para seus funcionários e diretores a respeito de presentes e viagens, não o faz por puritanismo, mas para evitar algo que seria fatal para sua credibilidade: o conflito de interesses. Vorcaro não convidou tantas autoridades por serem todas pessoas agradabilíssimas no convívio pessoal, ou porque tenham uma enorme afinidade com o banqueiro – o idem velle, idem nolle (“querer o mesmo, rejeitar o mesmo”) que caracteriza a verdadeira amizade segundo C.S. Lewis; Vorcaro estava comprando aquele tipo de proteção que só um procurador-geral, um diretor da PF ou um ministro de tribunal superior podem oferecer – e isso independe de eles estarem ou não dispostos a vendê-la; toda essa proximidade já basta para criar um gravíssimo problema ético.
Os ministros do STF são especialistas em negar essa obviedade. Quando presidente do Supremo, Luís Roberto Barroso defendeu as viagens de ministros para eventos no exterior, afirmando que elas não eram custeadas com dinheiro público, como se isso bastasse para tranquilizar o brasileiro. Ora, a não ser que os ministros estejam bancando as viagens do próprio bolso (e eles não afirmam isso, embora fosse muito fácil fazê-lo nesse caso), alguém está pagando, e o país tem todo o direito de saber quem é. No entanto, isso parece irritar sobremaneira os ministros, como demonstrou Gilmar Mendes ao responder com uma enorme grosseria à pergunta de uma jornalista da Folha de S.Paulo, em março de 2018.
Dias Toffoli fez o máximo para emperrar e esconder as investigações sobre o Master; Gonet não viu motivos para a prisão preventiva de Vorcaro; Moraes era a esperança do banqueiro para “bloquear” não se sabe bem o quê (mas se intui) no dia em que Vorcaro foi preso pela primeira vez; Hugo Motta resiste à abertura de uma CPI do Master na Câmara; a PF comandada por Rodrigues deve deixar para o fim as investigações sobre as ligações de Vorcaro com autoridades dos três poderes. Todos estavam bebericando seu Macallan com Vorcaro em Londres. Ninguém pode culpar os brasileiros para os quais nada disso é mera coincidência.
Autor: Gazeta do Povo








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