sábado, novembro 29, 2025

Embrapa revolucionou agricultura brasileira, diz pesquisa dos EUA

Pesquisadores de importantes universidades e instituições americanas avaliaram como crucial o papel da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) para uma “revolução” na agricultura do Brasil nos últimos 50 anos.

Em artigo publicado neste mês no repositório científico Social Science Research Network (SSRN), eles atribuem ao investimento público em pesquisa e desenvolvimento (P&D) o aumento de 110% na produtividade agrícola nacional, o que, segundo o estudo, torna a instituição referência como alavanca para o setor em um país em desenvolvimento.

O paper é assinado por Ariel Akerman, do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID); Jacob Moscona, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT); Heitor S. Pellegrina, da Universidade de Notre Dame; e Karthik Sastry, do Departamento de Economia da Universidade de Princeton.

Conforme a publicação, o sucesso do modelo se deve não apenas à escala do investimento, mas principalmente à sua estrutura e seu escopo geográfico. De acordo com os autores, a natureza descentralizada da Embrapa, que conta atualmente com 43 unidades espalhadas por regiões diversas do país em vez de concentrá-los em uma única sede, explica mais da metade dos ganhos de produtividade.

“Descobrimos que um mecanismo importante para o efeito macroeconômico da Embrapa é o redirecionamento da inovação para as necessidades locais”, escrevem os autores. “Nossos resultados são, até onde sabemos, a primeira evidência empírica direta de como uma mudança política específica — neste caso, um ‘grande impulso’ em P&D público — pode permitir que um país em desenvolvimento escape da ‘armadilha do desajuste tecnológico’.”

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Empresa foi criada para responder a aumento de demanda por alimentos

A Embrapa foi crida em 1973, no governo de Emílio Garrastazu Médici, como uma corporação pública de pesquisa com a missão explícita de desenvolver ciência e tecnologia localmente relevantes. O país enfrentava crescentes pressões sobre o setor de produção de alimentos devido à rápida urbanização e ao crescimento populacional no fim da década de 1960, dependendo cada vez mais de oferta estrangeira.

Um dos fundadores da Embrapa, Eliseu Alves, identificou que o principal problema era a ausência de ciência capaz de gerar tecnologia adequada ao que o Brasil precisava. O grupo de trabalho encarregado de projetar a instituição estabeleceu três princípios organizacionais para a iniciativa: descentralização, escala de investimento e desenvolvimento de capital humano.

O objetivo central era estudar todas as regiões e ecossistemas do Brasil, em oposição ao modelo que funcionava até então, concentrado em poucas áreas. Com a criação da Embrapa, várias estações do antigo Departamento Nacional de Pesquisa e Experimentação Agropecuária (DNPEA) do Ministério da Agricultura foram transformadas em Centros Nacionais de Pesquisa ou Unidades de Execução de Pesquisa.

O montante investido nos anos iniciais foi fundamental para o sucesso da Embrapa. Conforme relatório produzido por pesquisadores da instituição ainda em 1988, os recursos aplicados evoluíram de US$ 23,5 milhões em 1974, ano inicial da implantação efetiva, para US$ 190,7 milhões em 1987.

Uma proporção significativa desse investimento foi direcionada para instalações físicas, como bibliotecas e equipamentos, e para contratação e treinamento de recursos humanos qualificados. O perfil técnico da empresa passou de 15% de pós-graduados em 1974 para cerca de 85% de pesquisadores com mestrado ou doutorado em 1987.

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Para cada R$ 1 investido, Embrapa retorna R$ 17 em benefícios à sociedade

O artigo publicado no último dia 5, intitulado (em tradução livre) “P&D públicos aliados ao desenvolvimento econômico: a Embrapa e a revolução agrícola brasileira”, destaca o custo-benefício do investimento, que teria uma relação média de 17 para 1. Isso significa que para cada R$ 1 investido na Embrapa, R$ 17 retornaram à sociedade em benefícios.

Ainda conforme os autores, os pesquisadores da Embrapa foram capazes de redirecionar o foco da pesquisa para a ciência e tecnologia localmente relevantes, superando o que os acadêmicos chamam de “armadilha do desajuste tecnológico”.

Os trabalhos foram direcionados explicitamente às condições ecológicas particulares do Brasil, como biomas, pragas e patógenos importantes regionalmente. A Embrapa conseguiu superar as restrições de produtividade em regiões mais remotas e com capacidade de pesquisa preexistente limitada.

“Utilizando dados em nível de pesquisador, compilados a partir dos currículos de todos os cientistas agrícolas no Brasil, mostramos que a Embrapa redirecionou a pesquisa para as culturas básicas localmente importantes e para as condições ecológicas particulares do Brasil, em parte, ao sustentar pesquisa produtiva mesmo em regiões remotas e com escassez de pesquisa”, diz trecho do material.

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Os autores afirmam que trabalhar em um laboratório da Embrapa levou a um aumento na produtividade dos pesquisadores, revertendo a desvantagem que existia fora dos grandes centros de pesquisa.

“A associação positiva entre o emprego na Embrapa e a produtividade de pesquisa, estimada na amostra completa, é impulsionada quase inteiramente pelo efeito da Embrapa fora dos hubs de pesquisa tradicionais”, escrevem.

A inovação foi dirigida aos grãos básicos e culturas prioritárias para a segurança alimentar, como feijão, mandioca, milho, arroz, soja e trigo. Os resultados mostram que o aumento da produtividade foi mais pronunciado e significativo exatamente para essas culturas que foram o foco explícito da inovação da empresa.

O crescimento na produtividade não foi apenas residual, mas impulsionado pela adoção de tecnologias da Embrapa. O aumento da exposição à pesquisa da Embrapa levou a maior uso de insumos intermediários, como fertilizantes, sementes e produtos químicos, áreas centrais do desenvolvimento tecnológico da corporação.

Além disso, a similaridade ecológica entre os municípios e os laboratórios de pesquisa da Embrapa foi um forte preditor da difusão de novas variedades de sementes.

O trabalho corrobora a eficácia de inovações específicas que otimizaram o uso da terra, promovendo um modelo de crescimento vertical (baseado em tecnologia) em vez de horizontal (expansão de área).

Entre as tecnologias de destaque, são citadas a integração lavoura-pecuária-floresta e as inovações em plantio direto, que proporcionam resiliência ao sistema produtivo e mitigam impactos das mudanças climáticas.

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Orçamento para pesquisas da Embrapa caiu 80% em dez anos

O Balanço Social 2024 da Embrapa já havia demonstrado um lucro social de R$ 107,24 bilhões e um retorno de R$ 25,37 para cada R$ 1 investido. O novo artigo, ao quantificar a magnitude do ganho total da Produtividade Total dos Fatores (PTF), reforça a eficiência fiscal da instituição.

Apesar dos resultados históricos, o estudo chega em um momento em que a instituição se vê pressionada uma limitação orçamentária. Nos últimos dez anos, os repasses da União para pesquisas da Embrapa caíram 80%, segundo o Sindicato Nacional dos Trabalhadores de Pesquisa e Desenvolvimento Agropecuário (Sinpaf).

Em 2025, o valor voltou a crescer, com uma previsão inicial de R$ 317,3 milhões do Orçamento, mas, desse montante, até agora R$ 278,4 milhões foram empenhados e R$ 207 milhões efetivamente liquidados. O projeto de Lei Orçamentária Anual (LOA) de 2026 prevê R$ 270 milhões para pesquisas da instituição.

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