sábado, novembro 29, 2025

Empresas de energia voltam aos combustíveis fósseis – 19/11/2025 – Mercado

A francesa TotalEnergies, gigante da energia, disse nesta segunda-feira (17) que gastará 5,1 bilhões de euros (R$ 31,4 bilhões) para adquirir uma participação de 50% em usinas de geração —em sua maioria movidas a gás natural— em vários países europeus, o mais recente movimento de uma empresa de energia que retorna a um negócio antes evitado, o dos combustíveis fósseis.

A companhia, que já é uma grande investidora em energia elétrica, afirmou que usará as usinas a gás para equilibrar seu portfólio de geração renovável, como parques eólicos e solares.

As instalações, pertencentes à EPH —empresa controlada pelo industrial tcheco Daniel Kretinsky— ficam no Reino Unido, Itália, Holanda, Irlanda e França.

O movimento parece ser um sinal de uma abordagem cada vez mais pragmática para energia e mudança climática por parte das companhias, até mesmo na Europa, que historicamente tem sido mais agressiva na busca de metas ambientais do que os Estados Unidos.

O mundo mudou desde a adoção do Acordo de Paris, uma década atrás, com metas ambiciosas para enfrentar as mudanças climáticas.

Tornou-se cada vez mais evidente que os objetivos de redução de emissões globais não serão cumpridos —e não apenas porque o governo Trump abandonou o processo.

As empresas de energia tomaram nota disso. “Certamente abandonaram a ideia de que podem liderar o mundo por esse tipo de caminho”, disse Luke Parker, vice-presidente de pesquisa corporativa da consultoria Wood Mackenzie, referindo-se ao Acordo de Paris.

Analistas dizem que a Europa provavelmente não seguirá as mudanças drásticas de política energética que ocorrem nos Estados Unidos, mas ajustes de rota são prováveis.

Até mesmo a Alemanha, que há muito se orgulha de ser líder em energia renovável, está construindo usinas a gás com capacidade de gerar 10 gigawatts.

Alguns europeus podem ressentir a hostilidade de Washington em relação aos esforços climáticos, mas a postura do governo Trump pode estar influenciando governos europeus a serem mais receptivos à indústria de petróleo e gás e a seus produtos.

A Exxon Mobil, por exemplo, assinou recentemente em Atenas, na Grécia, um acordo preliminar considerado por alguns no setor como um marco para a exploração de petróleo e gás em águas gregas. Autoridades do governo Trump, incluindo o secretário de Energia, Chris Wright, estavam presentes.

“Os EUA têm orgulho de fazer parceria com a Grécia enquanto restauramos o bom senso e liberamos energia acessível, confiável e segura”, escreveu Wright nas redes sociais.

Mudanças de política importam, mas a guinada também é guiada por lições práticas aprendidas por empresas, governos e sociedades sobre as dificuldades de abandonar um mundo movido a combustíveis fósseis rumo a algo diferente.

A TotalEnergies tem sido uma desenvolvedora em grande escala de energia solar e eólica. Com o tempo, porém, seus executivos concluíram que apenas construir parques solares e eólicos não é um negócio muito lucrativo.

Essas instalações, sozinhas, não são suficientes para atender à crescente demanda por aquilo que a empresa chama de energia “limpa e firme”, vinda de clientes como centros de dados.

Como a geração solar e eólica depende de sol e vento, é necessário um meio mais estável de produzir eletricidade —e, em muitos países europeus, o gás natural cumpre essa função.

“É mais ou menos um sistema que será dividido, no fim das contas, entre gás e renováveis”, disse Patrick Pouyanné, CEO da TotalEnergies, a analistas nesta segunda, descrevendo o rumo da empresa na Europa.

Pouyanné observou que as novas usinas complementarão a posição da TotalEnergies como um dos maiores fornecedores de gás natural liquefeito (GNL) para a Europa —um combustível resfriado e transportado por navio.

A Shell, maior empresa de energia da Europa, adotou uma postura mais rígida em relação às renováveis, com base na avaliação de que parte desses investimentos não será suficientemente lucrativa.

A empresa, com sede em Londres, disse recentemente que abandonará dois projetos de parques eólicos flutuantes em águas britânicas e um empreendimento eólico offshore chamado Atlantic Shores, nos Estados Unidos. A Shell afirmou que quer focar na comercialização de eletricidade.

Outras empresas também percebem mudanças no cenário energético. A guerra na Ucrânia levou a uma forte redução no fornecimento de gás natural da Rússia e a uma crescente dependência dos Estados Unidos, estimulando a Europa a fortalecer sua própria produção, segundo alguns executivos do setor.

Como CEO da Energean, produtora de petróleo e gás com operações em campos offshore pela Europa, Mathios Rigas está bem posicionado para captar essas mudanças na abordagem regional à energia.

A Energean foi participante-chave no acordo com a Exxon para perfurar águas na Grécia, país fortemente dependente de combustíveis importados.

A Itália, onde a Energean tem participação em três campos, está flexibilizando algumas restrições à perfuração e avaliando legislação que pode acelerar projetos de gás natural para abastecer a indústria.

Rigas disse que a invasão da Ucrânia pela Rússia continua a influenciar o pensamento dos governos europeus sobre combustíveis fósseis.

“Passamos por uma fase em que a Itália não queria conceder licenças”, afirmou. “Agora acho que estão começando a mudar, e estão começando a entender que precisam de produção local de hidrocarbonetos”, disse ele, referindo-se ao petróleo e ao gás.

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