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Energia nuclear no Brasil: é hora da “Petronuclear”

Na coluna anterior, comentei o promissor Projeto de Microrreator Nuclear Nacional (PMNN), cujo objetivo é o desenho e a construção de um microrreator nuclear de 5 megawatts (MW) de potência, com um amplo leque de usos potenciais: geração elétrica e térmica para pequenas comunidades, instalações industriais, áreas remotas, hospitais e até mesmo exploração petrolífera.

O projeto é uma iniciativa público-privada liderada pelas empresas Diamante Energia e Terminus P&D em Energia e pela estatal Indústrias Nucleares do Brasil (INB), apoiada por vários outros centros de pesquisa e contando com um financiamento de R$ 50 milhões, dos quais R$ 30 milhões são da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI).

A Diamante Energia, controladora do complexo termelétrico Jorge Lacerda, em Santa Catarina, pretende converter parte da infraestrutura do complexo em um centro de inovação para o desenvolvimento tecnológico e operacional do microrreator.

O potencial de uso do microrreator na exploração submarina de petróleo abre caminho para uma perspectiva bastante promissora: a possível entrada da Petrobras na área nuclear, objeto de discussões na edição do ano passado da Nuclear Trade & Technology Exchange, o principal evento de tecnologia e negócios do setor nuclear nacional, realizado em maio, no Rio de Janeiro (RJ).

Na ocasião, o engenheiro Edgar Poiate, do Centro de Pesquisas Leopoldo Américo Miguez de Mello (CENPES), afirmou que a empresa está estudando a utilização de Pequenos Reatores Modulares (SMR) e de microrreatores nucleares em seus navios-plataformas (FPSO) ou na alimentação direta de equipamentos instalados no leito marinho.

Se concretizadas, tais iniciativas colocarão a Petrobras na linha de frente das inovações tecnológicas energéticas, confirmando sua tradição de pioneirismo na exploração offshore, demonstrada com o desenvolvimento da tecnologia de exploração em águas profundas, encabeçado pelo CENPES e pela COPPE-UFRJ (como é mais conhecido o Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro).

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  • Segurança energética na ordem do dia

A rigor, a “nuclearização” da Petrobras deveria ir além de aplicações pontuais. Em qualquer cenário prospectivo de recuperação da capacidade do Estado brasileiro como indutor do desenvolvimento nacional, a Petrobras precisa ser inserida como um vetor crucial para a imprescindível reindustrialização do país, na qual o desenvolvimento das capacidades nucleares nacionais representa um imperativo estratégico.

Essa requalificação do Estado – que de modo algum se contrapõe ao protagonismo da iniciativa privada, mas o reforça – constitui um fator vital diante da reconfiguração da ordem de poder mundial em favor dos Estados nacionais, em detrimento do “globalismo”, como tem enfatizado o presidente Donald Trump em sua agenda de reconstrução da economia dos EUA.

Considerando os problemas orçamentários crônicos do programa nuclear brasileiro, virtualmente estagnado há décadas, uma alternativa de grande impacto seria colocá-lo sob a guarda de uma Petrobras revitalizada, reorientando para ele uma parte significativa dos recursos antes rotulados como de “transição energética” e colocando a Petrobras firmemente no caminho para constituir-se na empresa “de energia” cobrada por muitos.

Empresa de energia, sim, mas com fontes de alta densidade energética e tecnológica, e não com fontes intermitentes de baixa densidade energética (eólicas e solares), causadoras de tantos problemas àqueles que as têm privilegiado, no Brasil e no exterior.

Para quem estranhar o envolvimento de uma petroleira na área nuclear, vale recordar que, nas décadas de 1950 e 1960, a ENI teve uma importante participação no programa nuclear italiano, por intermédio de suas subsidiárias Agip Nucleare, SOMIREN e SIMEA, e chegou a operar um reator comercial de 220 MW, depois transferido à estatal ENEL, criada em 1962 para consolidar o setor elétrico nacional. Juntamente com os outros três construídos na Itália, ele foi desativado após o referendo popular de 1987, que, na esteira do desastre de Chernobyl, decidiu encerrar a geração nuclear no país.

Atualmente, a empresa italiana está investindo em outra tecnologia de ponta, a energia de fusão, por meio de um forte aporte na start-up estadunidense Consolidated Fusion Systems (CFS), que pretende colocar em operação seu revolucionário reator em 2030.

Uma linha de pesquisa que, da mesma forma, se encaixaria perfeitamente no escopo estratégico de uma Petrobras “nuclearizada”.

O retorno da energia nuclear ao primeiro plano das pautas estratégicas é uma realidade da qual o Brasil não pode se esquivar

Veja-se o exemplo dos EUA, onde o governo federal pretende investir US$ 500 bilhões na construção de dez novos reatores nucleares, para fazer frente à crescente demanda energética de data centers, aplicações de IA e projetos industriais.

Por aqui, uma “Petronuclear” teria o potencial de consolidar o setor como um vetor estratégico de primeira ordem, revertendo a deplorável estagnação em que se encontra. Para tanto, procuram-se a necessária visão de longo alcance e a coragem política, requisitos fundamentais para reposicionar o país em meio às turbulências globais.

Autor: Gazeta do Povo

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