Duas das maiores empresas de energia da Europa enfrentam dificuldades para recuperar pagamentos de cerca de US$ 6 bilhões da Venezuela e têm se deparado com a indiferença de autoridades dos Estados Unidos em relação à dívida, segundo duas pessoas familiarizadas com o assunto ouvidas pelo Financial Times.
Há vários anos, a italiana Eni e a espanhola Repsol fornecem à Venezuela grandes volumes de gás e nafta, usada para diluir o petróleo pesado do país e facilitar seu transporte. As duas companhias são sócias no campo de gás Perla, na costa venezuelana, que sustenta a afirmação da Repsol de responder por cerca de um terço do gás usado na geração de eletricidade do país.
Até março do ano passado, elas recebiam petróleo bruto venezuelano como pagamento pelo gás. Mas, ao intensificar a pressão sobre Caracas, Washington afirmou que interromperia esses pagamentos ao revogar uma licença especial de operação concedida a todas as empresas estrangeiras —antes de isentar a petroleira americana Chevron da regra.
A medida expôs os grupos de energia a sanções caso continuassem a receber pagamentos. Desde então, Repsol e Eni continuaram fornecendo gás ao mercado doméstico venezuelano sem receber retornos em dinheiro ou em petróleo, acumulando apenas promissórias.
Apesar de forte lobby, nenhuma solução surgiu. Uma pessoa a par do caso disse que a política “America First” do governo tem afetado empresas europeias, que perceberam falta de urgência da Casa Branca para resolver seus problemas.
Josu Jon Imaz, presidente-executivo da Repsol, disse que seu grupo estava em conversas para resolver o bloqueio aos pagamentos em espécie antes de o ditador Nicolás Maduro ser capturado pelos EUA no sábado (3). “Mantemos… neste momento um diálogo construtivo e totalmente transparente com a administração americana”, afirmou em teleconferência de resultados em outubro.
Analistas sugerem que tanto a Eni quanto a Repsol, entre outros grupos europeus, podem ter interesse em investir no setor de energia da Venezuela no futuro, mas as empresas se recusaram a comentar essa possibilidade ou a dívida que lhes é devida.
Os US$ 6 bilhões também incluem parte de dívidas antigas relativas à nafta fornecida pela Eni e pela Repsol à estatal venezuelana PDVSA em 2023.
A Repsol possui vários ativos na Venezuela, que foi seu segundo maior mercado em volume de produção em 2024, atrás apenas dos EUA e empatado com Trinidad e Tobago. A empresa produziu 24 milhões de barris de óleo equivalente, dos quais 85% foram de gás.
Com 256 milhões de barris de óleo equivalente em reservas provadas contabilizadas na Venezuela, o país responde por 15% das reservas provadas totais da empresa.
O Departamento do Tesouro dos EUA, responsável por emitir licenças especiais que permitem empresas a operar na Venezuela, não respondeu imediatamente a um pedido de comentário.





