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Epstein, Jessé Souza e o produto mais perfeito do intelectual de esquerda

Jessé Souza passou décadas inventariando a “elite do atraso” brasileira com a caixa de ferramentas da esquerda acadêmica. Trabalho ambicioso, com pretensões totalizantes – o tipo de obra que impressiona bancas, consola o militante de classe média e cai em cheio no colo do establishment acadêmico jornalístico que precisava de uma narrativa “crítica” de fácil consumo.

Acontece que o homem que mapeava estruturas de dominação simbólica descobriu, enfim, a superestrutura absoluta: o “lobby judaico”. Jeffrey Epstein, pedófilo condenado, revelou-se, aos olhos do intelectual brasileiro, o “produto mais perfeito do sionismo judaico”. A rede de exploração sexual funcionaria como dispositivo de poder, engrenagem calculada num mecanismo de chantagem do judaísmo global.

Tudo de que a esquerda gourmet precisava: o Mossad financia Epstein para chantagear políticos e bilionários americanos. O resultado previsível não seria outro a não ser o apoio incondicional dos EUA a Israel. Hollywood e a mídia mundial “cafetinam” o Holocausto para blindar Israel de qualquer crítica, numa operação em que a memória das vítimas serve de capital simbólico a serviço da geopolítica. É realmente um espetáculo involuntário.

Desconfio de intelectuais que explicam o mundo inteiro a partir de um único princípio. Desconfio mais ainda quando o princípio coincide com o preconceito mais pernicioso da Europa civilizada

Diante da repercussão negativa, Jessé Souza pediu desculpas. A gente até se comove pela nobreza do caráter. Publicamente, ele reconheceu que deveria ter separado melhor “lobby judaico” e “lobby sionista”, como se o problema fosse uma escolha infeliz de palavras. Entretanto, segundo ele mesmo, a questão era de imprecisão lexical, porque a tese deveria permanecer intacta: Epstein foi alçado à condição de agente de conspiração global.

O argumento de Jessé Souza adota o funcionalismo conspiratório na forma mais pura. A rede de abuso sexual serve a uma superestrutura; a sordidez da vida privada já funciona como ferramenta intencional de poder. Epstein, por ser judeu e bilionário, age como instrumento de um projeto estatal de Israel, articulado com serviços de inteligência e capital financeiro. Por sua vez, a mídia, ao cobrir o caso, não cumpre a função banal de informar: oculta deliberadamente, dissimula, distrai.

Raciocínio teleológico em estado puro: o acaso deixa de existir, tudo cumpre função dentro do sistema imaginado por Jessé Souza.

Desconfio de intelectuais que explicam o mundo inteiro a partir de um único princípio. Desconfio mais ainda quando o princípio coincide com o preconceito mais pernicioso da Europa civilizada. Ao chamar Epstein de “produto mais perfeito do sionismo judaico”, Jessé Souza se compromete com o essencialismo ideológico mais vulgar disponível.

Um pequeno grupo, identificado como “lobby judaico” e Mossad, controla o destino do mundo por chantagem, corrupção moral e domínio da mídia. Onde os panfletários do século 19 falavam de “conspiração judaica”, ele fala de “lobby sionista”. Onde acusavam os judeus de corromper as nações europeias, ele fala de “chantagem sistemática da elite global”. O deslocamento do “judeu” para o “sionismo” oferece à esquerda acadêmica uma justificativa teórica para odiar sem culpa – e instrumentalizar a angústia da vítima para legitimar o medo e, no limite, a violência. Afinal, trata-se de “crítica anti-imperialista” – e quem pode ser contra?

O que me interessa no caso do Jessé Souza é que ele representa o colapso visível de um projeto intelectual – e, arrisco dizer, a confissão involuntária de uma classe de militantes.

O intelectual que passou a vida olhando o mundo de cima, convencido de que seu aparato teórico desvela o que o homem comum é incapaz de enxergar, quando a realidade resiste ao esquema, inventa a realidade. Confortável. A explicação total seduz porque elimina o acaso, a estupidez, o ruído. Tudo ganha sentido, tudo se encaixa perfeitamente no enredo. Só que a denúncia é sempre a antessala do ataque. E quando o inimigo tem rosto – quando ele é o “judeu sionista”, o “lobby oculto” – o expurgo é só a consequência lógica do silogismo da destruição.

Jessé Souza dedicou décadas a desmontar os mitos da elite brasileira. Bastou um vídeo para revelar que os mitos que ele combatia eram, na verdade, os únicos nos quais genuinamente acreditava. O sociólogo que mapeava a elite do atraso produziu-se, ele próprio, como seu produto mais perfeito.

Autor: Gazeta do Povo

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