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Epstein, patrono da ciência e da tecnologia – 06/02/2026 – Álvaro Machado Dias

Há anos, parte do mundo da tecnologia se acostumou a falar sobre o futuro da humanidade em escala cósmica. Trilhões de vidas potenciais, riscos existenciais, destinos longínquos da espécie. Quanto mais distante o horizonte, mais solene o tom.

Nesse ambiente, ideias sobre hierarquização humana e melhoramento biológico dos mais ricos circulam com naturalidade e alimentam uma das doutrinas mais influentes do campo, o transumanismo, que trata o ser humano como um rascunho à espera de correção técnica. Saiba-se lá o que isso significa.

Jeffrey Epstein acreditava saber. Durante mais de uma década, financiou cientistas, cultivou filósofos e se posicionou como um dos patronos desse imaginário. Planejava inseminar 20 mulheres por vez no seu rancho no Novo México, para ver se disso saía uma raça superior.

Joi Ito, então diretor do MIT Media Lab, recebia em segredo doações e repasses do financista, conhecido nos corredores da instituição como Voldemort, aquele cujo nome não se pronuncia. Joscha Bach, figura central no campo da consciência de máquina, explicava em troca privada com Epstein que crianças negras seriam cognitivamente mais lentas, com cérebros adaptados a “um estilo de vida mais baseado em caça e corrida”, e descrevia o fascismo como “o sistema mais racional de governo existente”.

Larry Summers, ex-presidente de Harvard, célebre por sustentar que diferenças inatas ajudariam a explicar a menor presença de mulheres nas ciências exatas, facilitou a inserção de Epstein na universidade em troca de doações a pessoas próximas. Anos depois, integraria o conselho da OpenAI.

Marvin Minsky, um dos pais da inteligência artificial, cujo nome batiza um dos prêmios mais prestigiosos do campo, dirigiu vários simpósios organizados pelo financista em sua ilha caribenha. Após a sua morte, uma vítima do esquema de tráfico sexual acusaria-o formalmente de ter mantido relações sexuais com ela quando ainda era menor de idade. Elon Musk, hiperativo, perguntava por email qual seria “a noite da festa mais selvagem” na ilha. Tudo isso em nome do futuro da humanidade.

Antes de virar figura central do escândalo sexual, Epstein já operava na intersecção entre dinheiro, tecnologia e poder reputacional. Ele foi operador financeiro de Adnan Khashoggi, traficante de armas saudita no centro do escândalo Irã-Contras. Era o mesmo período em que se formava o mercado global de vigilância e controle eletrônico, antecedente direto da atual indústria de IA.

Décadas depois, esse setor passaria a ser ocupado por empresas como a Palantir, de Peter Thiel, que fornece a inteligência algorítmica para a caçada de imigrantes nos Estados Unidos. A caixa de emails de Epstein registra mais de 2.000 menções ao amigo.

É desse ambiente que saem muitas das vozes hoje apresentadas como autoridades morais sobre o futuro da inteligência artificial. São os mesmos que alertam para riscos existenciais abstratos, mas aceitam que entupir o planeta de servidores movidos a gás natural pode ser um mal necessário. Preferem discutir cenários hipotéticos de superinteligências fora de controle a lidar com a dor e o sofrimento no tempo presente. Não há contradição, mas coerência.

Quando o futuro vale mais do que o presente, qualquer barbaridade se torna um detalhe.

P.S. Segue uma cópia da caixa de emails de Jeffrey Epstein. De Elon Musk a Sultan bin Sulayem, passando por Noam Chomsky e Steve Bannon, está tudo aqui:

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Autor: Folha

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