
Há um truque retórico tão velho que causa vergonha alheia assistir à sua execução. Não pela crueldade, obviamente. Refiro-me à previsibilidade. Quando Erika Hilton publica mais um comentário sobre a regulamentação das redes sociais, você nem precisa terminar a segunda linha. Era aquele velho truque. De novo. O mesmo de sempre.
Um homem foi preso em Fortaleza. Transmitia, em lives, a tortura de animais. Induzia adolescentes à automutilação e ao suicídio. A polícia investigou, identificou, prendeu. O Estado de Direito funcionou. Diante disso, seria razoável – ousaria dizer até banal – celebrar a eficácia das instituições penais e encerrar o assunto. No máximo, lamentar a perversidade do coração humano. Hilton, porém, não lamenta. Viu ali uma oportunidade.
Acompanhe-me. Em seu perfil, publicou o seguinte: “Um homem foi preso por torturar e matar mais de CEM animais em lives. A investigação também aponta que ele induzia adolescentes à automutilação e ao suicídio. Mas, para a direita brasileira, regulamentar as redes sociais e as big techs para impedir esses crimes é ‘censura’”.
Quando Erika Hilton publica mais um comentário sobre a regulamentação das redes sociais, você nem precisa terminar a segunda linha. É o mesmo truque de sempre
Esse truque tem um nome interessante. O filósofo Nicholas Shackel batizou a falácia de Motte-and-Bailey – “a Fortaleza e o Campo”. A fortaleza é inexpugnável: ninguém defende tortura de animais; ninguém quer adolescentes mortos. O campo aberto é a posição real, altamente contestável: a regulamentação estatal das redes sociais e das big techs, com todo o potencial de controle político que isso carrega. Aqui está o detalhe: o truque retórico consiste em defender o campo usando a fortaleza como escudo. Quem ataca a posição real parece estar atacando a fortaleza. Parece, assim, um demoniozinho que justifica tortura de animais. Você não quer as redes sociais reguladas? Demônio!
Digo que o truque é velho porque é. Sou obrigado a reconhecê-lo toda vez que um debate sobre liberdade civil é encerrado com a imagem de uma criança sofrendo, de um animal torturado, de uma mulher violentada. A emoção, de fato, é real. O argumento, estúpido.
“Para a direita brasileira, regulamentar as redes para impedir esses crimes é censura.” Essa frase funde dois objetos que não têm nada a ver um com o outro. De um lado, a persecução de crimes comuns praticados em ambiente virtual – e o caso em questão só demonstra que o Código Penal já alcança esse território sem a necessidade de uma lei nova. De outro, o projeto de regulamentação estrutural das redes sociais, que trata do controle do fluxo de informação, do monitoramento de conteúdo político, da responsabilização civil de intermediários por opiniões de usuários. São coisas diferentes, não há segredos nisso. Tratá-las como uma só é, na melhor hipótese, confusão. Na pior, fraude retórica.
A premissa oculta no argumento – e peço ao leitor um tantinho de paciência – é que a regulamentação exigida pelo campo progressista impediria esses crimes absurdos. O problema é que o próprio caso a refuta. O homem foi preso. E eu poderia parar aqui. O que mais queremos fazer com quem comete crime? A civilização é isso, não?
O Código Penal tipifica maus-tratos, instigação ao suicídio, crimes cibernéticos. A polícia não precisou do PL 2630 para agir. Não precisou das bravatas de Hilton. A tese de que apenas a nova regulação protegeria crianças e animais é uma hipótese empírica não demonstrada, pois alçada ao estatuto de evidência pelo choque emocional das imagens. Ou seja, pura malandragem.
O que importa é o controle. Minto: o que importa, para ser bem consciente, é calar adversários políticos. Controle das redes também é um meio
Os 100 animais torturados e os adolescentes empurrados à morte não são o fim da análise de Erika Hilton. São o meio. Ela instrumentaliza a dor. A dor real de seres reais converte-se em munição para uma agenda específica de poder estatal. Chamar isso de “defesa das vítimas” exige uma capacidade de autoengano que só a militância produz em larga escala. Ou – e esta hipótese me parece mais precisa – revela uma obsessão com controle tão profunda que qualquer pretexto serve. O que importa é o controle. Minto: o que importa, para ser bem consciente, é calar adversários políticos. Controle das redes também é um meio.
A obsessão de controle tem uma lógica própria, e ela não é a segurança pública. O que as plataformas representam é um problema de hegemonia. A internet quebrou o monopólio editorial que a esquerda cultural detinha nos grandes meios durante décadas. O rádio, a televisão, os jornais de referência eram territórios administráveis. A rede não. Nela, narrativas concorrentes circulam sem o filtro das redações alinhadas. A “regulamentação” é o nome contemporâneo para a reconquista desse filtro.
Isaiah Berlin chamava de “monismo moral” a incapacidade de reconhecer que valores legítimos entram em conflito trágico. O monista não admite tensão – não admite que liberdade de expressão e segurança pública são bens reais que, em certos pontos, se atritam, e que qualquer escolha implica custo. Para os monistas morais, existe apenas um bem supremo, e quem discorda serve ao mal. O tuíte de Hilton é um documento preciso dessa visão de mundo: nenhuma tensão, nenhum dilema, nenhum custo na regulação. Apenas a boa vontade estatal de um lado, e a cumplicidade com torturadores do outro.
Autor: Gazeta do Povo








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