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Estimulação cognitiva melhora memória de idosos – 16/03/2026 – Equilíbrio e Saúde

Um estudo da USP (Universidade de São Paulo) mostrou que um programa estruturado de estimulação cognitiva realizado ao longo de 18 meses com idosos brasileiros saudáveis pode melhorar a memória, a fluência verbal e as funções executivas, além de reduzir queixas cognitivas e sintomas depressivos. Os resultados indicam que atividades mentais regulares e organizadas podem ajudar a prevenir o declínio cognitivo associado ao envelhecimento e promover maior qualidade de vida.

Os participantes realizaram exercícios de cálculo com ábaco, atividades de papel e lápis para trabalhar memória, linguagem e raciocínio, além de jogos de tabuleiro e dinâmicas em grupo, que estimulam planejamento, interação e participação. O treinamento também incluía exercícios em uma plataforma online, que podiam ser feitos em casa para reforçar o estímulo cognitivo.

A gerontóloga Thaís Bento Lima da Silva, uma das autoras do estudo e pesquisadora da USP (Universidade de São Paulo), explica que a estimulação cognitiva reúne atividades que desafiam diferentes funções do cérebro, como memória, atenção, linguagem e raciocínio. Segundo ela, os ganhos observados no estudo estão ligados à capacidade de adaptação do cérebro aos estímulos.

A pesquisadora acrescenta que esse tipo de prática pode ser iniciada em qualquer fase da vida e faz parte das estratégias de promoção do envelhecimento saudável recomendadas pela OMS (Organização Mundial da Saúde).

O estudo clínico randomizado, publicado em janeiro na revista International Psychogeriatrics, comparou os resultados entre três grupos de idosos em um total de 207 participantes. Em pesquisas desse tipo, os voluntários são distribuídos de forma aleatória entre os grupos, o que ajuda a reduzir vieses e torna a comparação dos resultados mais confiável.

Um dos grupos participou do treinamento de estimulação cognitiva, enquanto o grupo controle ativo recebeu encontros de educação em saúde e envelhecimento saudável, com discussões e materiais informativos. Já o grupo controle passivo não participou de nenhuma atividade durante o estudo e foi apenas avaliado pelos pesquisadores, servindo como base de comparação para medir os efeitos do programa.

Entre os principais ganhos observados no grupo com estimulação cognitiva, no programa chamado Supera, estão a melhora na fluência verbal fonêmica, capacidade relacionada à linguagem e à organização do pensamento, que superou o desempenho do grupo controle ativo após 24 meses. Os idosos também apresentaram melhora na memória após 12 meses e avanços nas funções executivas e na cognição global aos 18 e 24 meses.

Além do desempenho cognitivo, o programa apresentou impactos positivos no bem-estar. Houve melhora na qualidade de vida após um ano de intervenção e redução de sintomas depressivos aos 18 meses.

Uma das participantes foi a aposentada Maria Andrea Nogueira, 72. Segundo ela, a experiência trouxe benefícios no dia a dia. “Senti que fiquei mais atenta, mais articulada e com a memória mais afiada”, afirma. Também percebeu melhora em áreas menos familiares, como os cálculos matemáticos. “Sou de humanas, mas acabei desenvolvendo bastante essa parte.”

Além dos ganhos cognitivos, ela destaca o convívio com o grupo. “As aulas eram muito proveitosas e também muito divertidas. A gente se aproximou tanto que até hoje a turma se encontra para almoçar.”

Em São Paulo, iniciativa semelhante foi adotada na UBS Dona Mariquinha Sciáscia, na zona norte da capital paulista. Lá, um grupo de memória reúne semanalmente idosos entre 60 e 80 anos para atividades voltadas ao estímulo cognitivo.

Segundo a fonoaudióloga Bianca Martins Castro, que coordena as atividades, a maioria dos idosos chega ao grupo após passar pela Avaliação Multidimensional da Pessoa Idosa (AMP) realizada na unidade. “Eles identificam que estão com a memória mais fraca e que precisam de auxílio”, explica.

A partir dessa avaliação, a equipe multiprofissional orienta a participação no grupo, que busca fortalecer diferentes habilidades cognitivas e dar mais segurança aos participantes nas atividades do dia a dia, como evitar esquecer compromissos ou deixar o fogão ligado.

Para Castro, o grupo também funciona como um espaço de interação social, onde os idosos compartilham dificuldades, trocam experiências e fortalecem vínculos. Com o passar do tempo, os efeitos aparecem não apenas na cognição, mas também no comportamento e no bem-estar. A fonoaudióloga conta que muitos chegam mais tímidos e inseguros, mas passam a se sentir mais à vontade conforme participam das atividades.

O aposentado Waldemar Pereira Fernandes, 74, começou a frequentar recentemente o grupo de estimulação cognitiva na UBS, para onde foi encaminhado inicialmente para sessões de auriculoterapia por causa de dores nas articulações.

“Quando cheguei aqui, me mostraram o trabalho e comecei a participar das atividades de memória também”, conta.

Ele afirma que já tinha o hábito de praticar exercícios mentais em casa, com jogos e atividades no celular, e vê o grupo como um complemento. Para ele, o principal benefício tem sido o convívio com outras pessoas. “Essas reuniões são importantes. A gente encontra outras pessoas e isso ajuda muito no dia a dia”, diz.

A aposentada Marli Régis Sultanum, 66, participa do grupo desde 2024. Ela conta que também percebeu mudanças positivas desde que começou a frequentar o grupo. “Melhorou bastante a minha atenção e a minha memória. Hoje eu consigo guardar mais coisas”, afirma.

Estimulação cognitiva deve ser combinada a outros hábitos de saúde

Especialistas ressaltam que a estimulação cognitiva faz parte de um conjunto mais amplo de hábitos ligados ao envelhecimento saudável. Para a médica Roberta França, especialista em longevidade consciente e saúde mental, os exercícios mentais funcionam porque estimulam a chamada neuroplasticidade, capacidade do cérebro de criar novas conexões e reorganizar circuitos neurais ao longo da vida.

Segundo ela, o estímulo cognitivo não se resume a repetir atividades como palavras cruzadas ou jogos de memória. O mais importante é desafiar o cérebro com tarefas novas.

A médica também destaca que o cuidado com a cognição precisa estar associado a outros fatores de saúde. “Estimulação cognitiva é fundamental, mas ela precisa caminhar junto com atividade física regular, boa alimentação e noites de sono de qualidade”, afirma. O sono, por exemplo, tem papel essencial na consolidação da memória e na manutenção do funcionamento mental.

Autor: Folha

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