O Brasil abriga alguns dos indivíduos mais velhos do mundo — entre eles, o atual homem mais longevo do planeta. Em um país cuja expectativa média de vida está abaixo da de nações tradicionalmente longevas, o fenômeno chamou a atenção de pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), que decidiram investigar o que permite a certos brasileiros ultrapassar os 100 — e até os 110 — anos com saúde e autonomia.
Conduzido pelo Genoma USP e publicado na revista científica Genomic Psychiatry, o estudo analisa o perfil clínico e genético de centenários e supercentenários. A hipótese central aponta para a diversidade genética resultante da miscigenação brasileira, em interação com fatores ambientais e comportamentais ao longo da vida.
“Brasileiros estavam ultrapassando os 110 anos e aparecendo entre os mais longevos do mundo. Isso nos chamou atenção porque contrasta com a expectativa média de vida do país”, afirma o pesquisador Mateus Vidigal, primeiro autor do artigo, citando reconhecimentos internacionais como os do Guinness World Records.
VEJA TAMBÉM:
-

O que o Sul do Brasil ensina sobre a economia da longevidade
Pesquisa começa após superidosos sobreviverem à Covid-19
A investigação começou durante a pandemia, quando três brasileiros com mais de 110 anos contraíram Covid-19 e se recuperaram. A equipe considerou o episódio extraordinário e decidiu ampliar o levantamento.
Cerca de 160 centenários participam do estudo em diferentes regiões do país. Aproximadamente 20 são supercentenários — pessoas com mais de 110 anos.
Entre eles está o cearense João Marinho Neto, de 113 anos, reconhecido oficialmente em 2024 pelo Guinnes World Records como o homem mais velho do mundo. Ele nasceu no dia 5 de outubro de 1912, em Maranguape (CE).
As idades estão sendo validadas por meio de documentação oficial, como certidões de nascimento, casamento e registros de batismo. Os participantes passaram por entrevistas clínicas e exames laboratoriais, incluindo análises bioquímicas, hematológicas e imunológicas.
O foco principal é o sequenciamento do genoma completo, que permite mapear todo o DNA e identificar variantes associadas à longevidade e à proteção contra doenças. Desde que a pesquisa iniciou, cerca de um terço dos idosos que participaram morreram, principalmente os acima dos 110 anos.
Até o momento, não foram encontradas variantes inéditas exclusivas da população brasileira — o número de participantes ainda é considerado pequeno para esse tipo de descoberta. No entanto, genes associados à longevidade descritos em estudos internacionais também aparecem nos brasileiros analisados.
Estudo aponta que diversidade genética pode ampliar resistência ao envelhecimento
A população brasileira resulta da combinação de origens europeias, africanas, indígenas e, em menor proporção, asiáticas. Essa diversidade pode ampliar a variabilidade funcional de sistemas biológicos ligados ao envelhecimento, como resposta ao estresse celular, imunidade e metabolismo.
De acordo com Vidigal, até aproximadamente os 90 anos o envelhecimento é majoritariamente influenciado por fatores ambientais, responsáveis por cerca de 80% do processo. A genética tem peso menor nessa fase. Após essa idade, porém, a contribuição genética tende a se tornar mais relevante.
“Queremos entender como uma pessoa passa dos 100 anos, muitas vezes ativa e lúcida, enquanto outras, na mesma idade, estão acamadas ou com doenças neurodegenerativas. A genética é parte dessa resposta, mas não explica tudo”, aponta o pesquisador.
O levantamento também confirma um padrão descrito na literatura científica de que mulheres alcançam idades mais avançadas com maior frequência do que homens, resultado de fatores biológicos, hormonais e sociais.
VEJA TAMBÉM:
-

Supercentenária de 117 anos: lições reais sobre saúde de quem viveu mais de um século
Pesquisadores mostram que genética não determina sozinha quem envelhece melhor
Entre os participantes, chama atenção a manutenção da autonomia em idades extremas. Há supercentenários que permanecem funcionalmente independentes mesmo após os 100 anos.
Ainda assim, pessoas com perfis genéticos semelhantes podem apresentar trajetórias muito diferentes de saúde. Fatores acumulados ao longo da vida — como atividade física, alimentação, exposição a infecções, estresse, condições socioeconômicas e acesso a cuidados médicos — influenciam a forma como os genes se manifestam.
Esse processo é chamado de epigenética: o DNA permanece o mesmo, mas sua ativação pode variar conforme experiências e ambiente. Casos familiares reforçam o peso da herança genética. Em uma das famílias acompanhadas, uma mulher de 110 anos tem três sobrinhas que também ultrapassaram os 100, apesar de viverem em localidades diferentes.

Ao investigar uma das populações mais geneticamente diversas do mundo, o estudo brasileiro contribui para pesquisas internacionais sobre envelhecimento. Os resultados poderão ajudar a esclarecer se fatores associados à longevidade saudável são universais ou dependem do contexto genético de cada população.
O próximo passo é ampliar o número de participantes para aumentar o poder estatístico da análise. A longo prazo, compreender os mecanismos associados ao envelhecimento saudável pode aprimorar estratégias de prevenção, diagnóstico e promoção da qualidade de vida.
Autor: Gazeta do Povo








.gif)











