O diretor-executivo da ONG Human Rights Watch, Philippe Bolopion, afirmou nesta quarta-feira (4) que os Estados Unidos, a China e a Rússia se tornaram “aliados de conveniência” na destruição do sistema global de direitos humanos.
“O ano de 2025 foi um ano de inflexão para os direitos humanos no mundo”, disse durante o evento de lançamento do relatório mundial da organização. Bolopion afirmou que a mudança de gestão nos Estados Unidos, com a posse de Donald Trump, somada à presença mais agressiva da China e da Rússia como atores políticos internacionais e à erosão democrática global, tornou o ano passado crítico.
“Embora esses países sejam rivais em muitos aspectos, acabam sendo aliados de conveniência na destruição do sistema de direitos humanos”, afirmou Bolopion.
Desde que assumiu, em janeiro de 2025, Donald Trump demonstrou um “completo desprezo por toda a arquitetura de direitos humanos”, disse o diretor-executivo. “Os Estados Unidos ajudaram a construir esse sistema, mas agora o governo está fragilizando sua estrutura.”
O relatório global da Human Rights Watch divulgado nesta quarta destaca os ataques a barcos no Caribe e no Pacífico, que resultaram na morte de ao menos 120 pessoas. O governo americano defende as operações militares afirmando que as embarcações faziam rotas de tráfico internacional de drogas.
“Não importa se eles fossem traficantes, são pessoas e têm direito a um julgamento”, afirmou Juanita Gobertus, diretora da divisão de Américas da HRW. “A lei internacional não permite realizar operações militares para obliterar pessoas”.
O documento também cita a política repressiva anti-imigração de Trump, incluindo as deportações em massa e o envio de imigrantes venezuelanos para El Salvador, sob o comando do ultradireitista Nayib Bukele.
A Human Rights Watch destaca que a guerra civil no Sudão, que já matou dezenas de milhares de pessoas desde 2023, segue sem destaque internacional —e largamente ignorada pelos Estados Unidos, que tiveram papel importante na debelação de outros conflitos na região em décadas anteriores.
Em relação à Rússia, Bolopion afirmou que o país comete “crimes de guerra em escala massiva” e tem se imposto de forma mais agressiva na esfera internacional.
O relatório afirma que é necessário que as democracias se unam para frear o avanço do autoritarismo e sustentar o sistema internacional de direitos humanos. Na apresentação, Bolopion destacou o papel do Brasil como “líder no Sul global”.
Outros países citados como centrais na reconstrução e sustentação dos princípios de direitos humanos globais são o Canadá, a França e a África do Sul. Apesar disso, os representantes da ONG afirmam que os líderes globais não encontraram uma forma efetiva de lidar com a nova postura americana.
“O mundo ainda está em choque com a gestão Donald Trump”, afirmou o diretor-executivo.
Apesar do tom negativo, o relatório também destacou mobilizações sociais de enfrentamento ao autoritarismo e a violações de direitos humanos. Entre elas, a ONG cita os protestos contra a política imigratória nos EUA, os protestos da geração Z na Ásia e na África, e manifestações estudantis pró-Palestina.
Autor: Folha








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