quinta-feira, janeiro 8, 2026

EUA X Venezuela: Brasil precisa de estratpegia – 07/01/2026 – Maria Hermínia Tavares


Nos anos 1950, o cartunista americano Al Capp (1909-1979) introduziu um novo personagem nas tirinhas que publicava em vários jornais: a Águia Careca. O pássaro compelia quem fitasse seus grandes olhos inocentes a dizer compulsivamente a verdade, revelando as piores intenções. Magnatas e políticos eram assim levados ao sincericídio, reconhecendo suas maquinações e falcatruas.

Mesmo septuagenária, a águia de Capp pode ter voado, no último sábado, para Mar-a-Lago, na Flórida, quando o presidente Donald Trump explicou aos jornalistas as razões da operação militar realizada em território venezuelano para sequestrar Nicolás Maduro e esposa e encarcerá-los em Nova York. Não se tratou de defender a democracia, destruída pelo ditador chavista, nem de preservar os direitos fundamentais de seus opositores perseguidos e encarcerados. Com desinibida crueza e típica prepotência, o presidente explicou que, ao fim e ao cabo, os objetivos eram defender os interesses das petroleiras americanas e afirmar a primazia dos Estados Unidos no Hemisfério Ocidental.

Tratou-se de uma demonstração prática dos princípios delineados na nova Estratégia de Nacional de Defesa dos Estados Unidos, há pouco anunciada pela Casa Branca. Não são raros os que nela veem a exumação da Doutrina Monroe, proclamada no século 19, e reafirmada na visão de um mundo dividido em esferas de influência, garantidas antes pela força do que pelo Direito.

É precipitado dizer que se voltou a um período anterior à densa tessitura de normas e organizações que deram vida à ordem internacional liberal emersa dos escombros das duas guerras mundiais do século passado, especialmente da segunda. Instituições deitam raízes nutridas por rotinas e interesses; dão vida a organizações que nem sequer a vontade de uma nação poderosa pode liquidar da noite para o dia.

De toda forma, parece claro que a estratégia americana coloca desafios inéditos para países como o Brasil, os quais, não sendo potências, contam no plano regional.

Diante das pretensões americanas no Ocidente, o cientista político Feliciano de Sá Guimarães, professor da USP e editor da Cebri-Revista, vê três possibilidades: enfrentar abertamente a potência dominante –como fez Maduro–, correndo o risco de levar o troco; submeter-se a ela por inteiro, condenando-se assim à irrelevância; ou enveredar pelo ignoto caminho de um arranjo no qual certa autonomia de ação se combine com a colaboração negociada com quem quer usar a força bruta para mandar na região.

A serena reação do governo brasileiro ao tarifaço trumpista e, agora, a nota oficial, contida e firme, de repúdio à agressão à Venezuela, replicada no discurso do embaixador brasileiro no Conselho de Segurança da ONU, indicam que o país explora aquela terceira possibilidade. Tem como guia a melhor tradição da política externa, assentada em pragmático realismo e no profissionalismo de sua diplomacia. Mas, para proteger o país de um vizinho poderoso e truculento, precisará de uma visão estratégica mais clara, que leve em conta os recursos de poder de fato disponíveis, reveja a política de defesa nacional e calibre as oportunidades de ação concertada dentro e fora das Américas.

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