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Europa não queria guerra no Irã, mas não escapa dela – 07/03/2026 – Mundo

Uma semana após o início da campanha militar de Estados Unidos e Israel contra o Irã, líderes europeus continuam unidos em suas reservas em relação a uma operação que nunca pediram. A realidade, porém, é que estão sendo arrastados cada vez mais para o conflito —o que provoca dores de cabeça políticas e diplomáticas de Londres a Berlim.

As tensões aparecem na crescente distância entre o que dizem os líderes europeus e as ordens que estão dando a seus comandantes militares para enviar navios de guerra, aviões e outros equipamentos de combate ao Oriente Médio.

“Não estamos em guerra”, afirmou o presidente da França, Emmanuel Macron, nas redes sociais.

“Não queremos entrar em guerra”, disse a primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni, a emissoras de TV.

“Não estamos nos juntando aos ataques ofensivos dos EUA e de Israel”, declarou o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, no Parlamento.

A Europa está presa em um dilema cada vez mais profundo. Por um lado, seus líderes precisam proteger cidadãos que ficaram presos na região, honrar pactos de defesa com Estados árabes e, em alguns casos, permitir que os EUA usem suas bases militares para evitar antagonizar o presidente Donald Trump.

Por outro lado, precisam evitar uma demonstração explícita demais de apoio às ações americanas, tanto para prevenir uma reação militar do Irã quanto para evitar custos eleitorais diante de suas opiniões públicas inquietas, ansiosas para escapar do atoleiro de outra guerra no Oriente Médio.

Macron, por exemplo, respondia a uma jovem no Instagram que lhe pediu que mantivesse a França fora da guerra para que ela pudesse viver em paz. “Entendo sua preocupação”, disse ele, “mas quero ser muito claro: você não vai para a guerra de forma alguma”.

Ainda assim, a França enviou caças Rafale para sobrevoar os Emirados Árabes Unidos depois que um ataque com drone atingiu uma base naval francesa na capital, Abu Dhabi. Macron também ordenou que o porta-aviões Charles de Gaulle se deslocasse para o Mediterrâneo oriental, onde poderia participar de um esforço liderado pela França para manter abertas rotas estratégicas de navegação.

Na Itália, Meloni concordou em enviar forças de defesa aérea a países do golfo Pérsico para protegê-los de mísseis e drones iranianos. A Itália também permitiu que aviões americanos utilizassem suas bases, embora Meloni tenha enfatizado que se trata de apoio logístico, não de operações ofensivas.

Mesmo esse apoio limitado colocou Meloni em uma posição delicada com os eleitores italianos. Trump, com quem ela havia cultivado cuidadosamente uma relação, é profundamente impopular na Itália. Sua postura conciliadora agora pode ameaçar seu governo, que enfrenta ainda neste mês um referendo sobre reforma judicial que pode perder.

O episódio também levantou dúvidas sobre quão boa é de fato a relação entre Meloni e Trump. Ele não avisou a Itália com antecedência sobre o ataque, e há poucos sinais de que Meloni tenha exercido alguma influência sobre ele desde então.

No Reino Unido, Starmer enfrenta críticas de aliados, que temem que ele esteja se inclinando demais a favor da operação, e provocações de Trump, que disse que o premiê “não é nenhum Winston Churchill” depois que ele se recusou a permitir que os EUA usassem suas bases no ataque inicial contra o Irã. O clima frio não mudou, mesmo após Starmer enviar caças Typhoon, navios e sistemas de defesa contra drones.

Coube ao premiê alemão, Friedrich Merz, resumir o dilema europeu depois de se sentar ao lado de Trump no Salão Oval, ouvindo o relato confiante do presidente sobre a campanha militar. “Não sabemos se o plano vai funcionar e se ataques militares vindos de fora permitirão uma mudança política interna”, disse Merz. “Esse plano não está livre de riscos, e nós também teríamos de arcar com suas consequências.”

Apesar dessas dúvidas, Merz enfrentou reação negativa em casa, em parte porque não defendeu Starmer e o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, quando Trump os criticou por terem negado acesso de aviões americanos às bases em seus países. Mais tarde, Merz disse que os defendeu durante um almoço com Trump.

Para os líderes europeus, não existe uma forma perfeita de equilibrar a necessidade de apaziguar Trump e limitar a reação negativa interna. Uma semana após o início da guerra, o Reino Unido já forneceu discretamente apoio militar significativo aos Eua. Ainda assim, isso não foi suficiente para proteger Starmer das críticas de Trump —talvez porque o primeiro-ministro, possivelmente cauteloso com críticas internas, não tenha acompanhado esse apoio reservado com um endosso público.

“Fizemos muito mais do que os alemães, embora Merz tenha recebido elogios no Salão Oval”, disse Peter Ricketts, ex-conselheiro britânico de segurança nacional. “Todos esses líderes estão andando na corda bamba, e a corda é ainda mais alta para Starmer.”

Ricketts disse que os líderes europeus precisam ser realistas quanto à sua capacidade de alterar o rumo da guerra. Trump não os consultou antes de iniciá-la e, de qualquer forma, não tem sido consistente em relação a seus objetivos. Segundo ele, o presidente provavelmente será guiado mais por fatores como o preço do petróleo, os mercados financeiros e o sentimento dentro de sua própria base política.

Embora os líderes europeus tenham tido pouca voz no início da guerra, analistas dizem que podem se sentir mais encorajados a intervir à medida que o conflito avance. Isso porque a Europa seria mais diretamente afetada do que os EUA pelas consequências de um Irã fragmentado.

“Se houvesse um colapso real, fragmentação e fluxos de refugiados vindos do Irã, isso teria um impacto enorme na Europa”, disse Thomas Wright, pesquisador sênior da Brookings Institution e ex-diretor de planejamento estratégico do Conselho de Segurança Nacional durante o governo Biden. “Eles vão se engajar com o governo para aumentar a consciência de Trump sobre esse cenário e tentar evitá-lo?”

Autor: Folha

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