Quando chegou a Doha, capital do Qatar, o ex-técnico da seleção brasileira sub-20 Ney Franco tinha um único objetivo: superar o Al Ahli e conduzir o Al Hussein, time da Jordânia que comanda desde dezembro do ano passado, às quartas de final da Liga dos Campeões da Ásia.
Tudo correria bem, mas uma guerra cruzou seu caminho. Estados Unidos e Israel bombardear o Irã em ataque que matou, entre muitas outras pessoas, o líder supremo do país, Ali Khamenei.
Dali em diante as coisas mudaram.
Desde então, Ney e as quase 50 pessoas que compõem a delegação do Al Hussein —o que inclui outros três brasileiros— estão presas no Qatar porque o espaço aéreo do país está fechado. Não há previsão de reabertura.
Ele chegou à capital qatari na noite de sexta-feira (27). Acordou cedo no sábado e decidiu ir ao shopping. Era por volta do meio-dia no horário local, seis horas à frente do horário de Brasília, quando veio o alerta.
“O meu celular começou a tocar, o de todo mundo começou a tocar”, disse à Folha por telefone nesta quarta-feira (3).
São alarmes semelhantes ao da Defesa Civil de São Paulo, afirmou, que vieram acompanhados da orientação para que todos ficassem em casa.
Os ataques contra o regime dos aiatolás haviam começado.
A primeira reação foi buscar entender o que exatamente estava acontecendo. “A gente percebeu que estava numa posição delicada ao extremo”, conta o técnico brasileiro.
Qatar e Irã não fazem fronteira por terra —estão separados pelo mar do golfo pérsico—, mas é em território qatari que está a maior base aérea americana no Oriente Médio, a de Al-Udeid, o que torna a península um alvo óbvio.
Tão óbvio que a base aérea chegou a ser atingida por um míssil iraniano num ataque que, segundo autoridades locais, não deixou feridos.
De volta ao hotel, Ney viveu momentos de apreensão. A começar pela família, com quem conversou ainda nas primeiras horas. “Meu filho me ligou, me passou orientações, estava muito preocupado.”
Autoridades qatari passam à população a mensagem de que a segurança do país está garantida —e ela realmente está, afirma Ney, que vê no sistema antiaéreo do país “uma eficiência enorme”—, mas quem vive a iminência de um conflito fica naturalmente assustado.
Um dos episódios mais tensos se deu à noite, quando estava no quarto e escutou uma forte explosão do lado de fora. Olhou pela janela e viu dois foguetes subindo em direção ao céu.
“Achei que eram mísseis vindo para o hotel. Minha primeira decisão foi descer até a recepção”, conta. Outras centenas de hóspedes fizeram o mesmo.
Não demorou muito e a polícia chegou até o local para pedir que todos voltassem aos seus aposentos. Os agentes explicaram que os foguetes, na verdade, eram parte do sistema antimísseis do Qatar.
Outras explosões do gênero seriam ouvidas depois, “mas aí a gente já estava meio que acostumado”.
Uma delas chamou a atenção porque Ney pouco depois ouviu sirenes de ambulância. No geral, porém, o conflito aéreo passou longe do técnico brasileiro, que só pôde sair do hotel nesta quarta-feira (4).
Ele estava num táxi e se dirigia a um centro comercial quando conversou com a Folha. “É uma cidade espetacular, com muita comida boa”, afirmou.
O Al Hussein de Ney Franco é um dos maiores times da Jordânia, país vizinho de Israel e do Iraque —está entre um e outro.
A equipe passou às quartas de final após vencer nas oitavas o Esteghlal, sediado no Irã.
O primeiro jogo das eliminatórias ocorreria em Teerã, mas acabou transferido a Dubai ante a iminência de um conflito que já se avizinhava.
O Al Hussein venceu ambas as partidas. A primeira por 1 a 0, e a segunda, na Jordânia, por 3 a 2.
A direção do clube jordaniano mantém a delegação atualizada das conversas que trava com a embaixada do país no Qatar para levar os atletas de volta para casa.
Para isso, porém, depende do arrefecimento do conflito na região. “Tem turista de meio mundo aqui, e na hora em que o espaço aéreo for retomado terão de encaixar todos eles nos voos. Paciência”, diz.
Este é o primeiro time que Ney comanda no exterior. Antes ele esteve à frente de clubes como Flamengo, São Paulo, Ipatinga e Botafogo pelos quais conquistou um Campeonato Mineiro, uma Copa do Brasil, duas Taças Guanabara, um Brasileirão e uma Sul-Americana.
Quando foi técnico da seleção sub-20, levou um Sul-Americano, uma Copa do Mundo, uma Copa Internacional do Mediterrâneo e outros títulos.
Autor: Folha








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