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Expresso Mantiqueira retoma atividades depois de 30 anos

Após um hiato de quase 30 anos, o apito da locomotiva volta a ecoar na Serra da Mantiqueira. A revitalização da ferrovia que conecta o interior paulista ao sul de Minas Gerais já permite o transporte de passageiros em seu trecho inicial.

O passeio parte da cidade de Cruzeiro, localizada a 220 quilômetros da capital de São Paulo, e utiliza máquinas centenárias para percorrer cenários rurais. A Associação Brasileira de Preservação Ferroviária (ABPF) lidera a restauração em parceria com a prefeitura de Cruzeiro.

O projeto recupera a malha da antiga Rede Ferroviária Federal e transforma o patrimônio histórico em um eixo de turismo sustentável. Entre 1884 e 1991, esses 35 quilômetros de trilhos escoaram produtos e transportaram viajantes; a partir de agora, a rota ganha um novo propósito focado na memória e na cultura regional.

Entre 1884 e 1991, os trilhos levaram cargas e passageiros; hoje, abrigam um roteiro turístico de memória regional.Entre 1884 e 1991, os trilhos levaram cargas e passageiros; hoje, abrigam um roteiro turístico de memória regional. (Foto: Renner Rotta/Expresso Mantiqueira)

“Cruzeiro fica no quilômetro zero. Foram recuperados os seis primeiros quilômetros, até a estação Rufino de Almeida, que fica no pé da Serra da Mantiqueira. Falta recuperar em torno de 19 quilômetros até chegar na estação Coronel Fulgêncio, no município de Passa Quatro, em Minas Gerais”, explica o diretor regional de São Paulo da ABPF, Bruno Sanches.

A partir da estação Coronel Fulgêncio, o trecho é operacional e foi recuperado em 2004 pela ABPF. Ali funciona o Trem da Serra da Mantiqueira.

Expresso Mantiqueira chega ao pé da Serra e resgata fatos históricos

Um dos pontos centrais da viagem é o Túnel da Mantiqueira. O local carrega um denso histórico militar, pois abrigou frentes de combate durante a Revolução Constitucionalista de 1932.

Além do contexto bélico, a ferrovia possui registros da monarquia brasileira: o imperador Dom Pedro II e sua comitiva participaram da inauguração oficial do ramal no século XIX. “Ao longo de cinco décadas de atuação, a ABPF levou em consideração que não bastaria apenas preservar os veículos em um acervo estático como de um museu tradicional, mas sim, preservá-los em funcionamento e, aliado a isso, preservar trechos ferroviários para colocar estes equipamentos em operação”, aponta o diretor da ABPF. Ele observa que essa operação permite a melhor exploração turística do acervo.

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Pedro II, capital inglês e território: o sentido político da ferrovia

Para o historiador Bruno Nascimento Campos, do Núcleo de Estudos Oeste de Minas (Neom), a presença do imperador dom Pedro II na inauguração da ferrovia teve peso político central, não um mero caráter cerimonial. “Foi um gesto profundamente político”, afirma.

Segundo Campos, as ferrovias do período nasceram dentro de um sistema de concessões fortemente ancorado no capital inglês. “Os ingleses atuavam como financiadores, projetistas e gestores”, explica. Nesse contexto, a participação do imperador funcionava como um selo de legitimidade.

“A inauguração com dom Pedro II operava quase como um ritual de consagração: o capital inglês entrava com o dinheiro, as elites regionais com a demanda e o imperador com a legitimação simbólica”, analisa Campos. Para o historiador, a mensagem era clara. “Era como dizer: este caminho está autorizado, este território importa, este progresso é oficial.”

Expresso Mantiqueira percorre trecho restaurado entre Cruzeiro (SP) e a estação Rufino de Almeida, ao pé da Serra da Mantiqueira.Expresso Mantiqueira percorre trecho restaurado entre Cruzeiro (SP) e a estação Rufino de Almeida, ao pé da Serra da Mantiqueira. (Foto: Felipe Sanches/Expresso Mantiqueira)

Campos explica que o Expresso Mantiqueira integra o traçado original da Estrada de Ferro Minas e Rio, infraestrutura decisiva para a reorganização do sul de Minas Gerais e de parte do interior paulista, especialmente o Vale do Paraíba. “Antes da ferrovia, a conexão regional dependia de caminhos de tropeiros e rotas lentas”, compara ele.

Com os trilhos, essas áreas passaram a integrar uma malha de circulação considerada moderna. “Isso abriu caminho para a introdução e o escoamento do café do sul de Minas, do leite e de outros produtos”, afirma o historiador.

Ele pontua que a recuperação do Expresso Mantiqueira conecta passado e presente, sob a ideia de progresso. “Trilhos abandonados simbolizam esquecimento, interrupção e decadência. Quando voltam a ser usados, o passado deixa de ser ruína e vira experiência viva”.

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Como agendar viagem com o Expresso Mantiqueira

O Expresso Mantiqueira conta com uma locomotiva diesel-elétrica e um carro de passageiros aberto (tipo “jardineira”), que passaram por restauração para o trajeto. As viagens ocorrem de forma pontual.

Datas de embarque pode ser acompanhadas pelo site, com saídas às 10h e às 12h na Estação Ferroviária de Cruzeiro. Bilhetes a R$ 50 – com venda exclusivamente no site da operadora.

Autor: Gazeta do Povo

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