O professor de história Wagner de Oliveira Fernandes, 78, começava a realizar um sonho antigo de conhecer o México que foi bruscamente interrompido. Ele sofreu uma série de AVCs (acidentes vasculares cerebrais) no último dia 13 e está internado em estado grave na capital do país.
A família quer transportá-lo de volta ao Brasil, mas é necessário o uso de uma UTI (Unidade de Terapia Intensiva) aérea —serviço que custa ao menos R$ 650 mil, segundo cotações recebidas pelos familiares. Para isso, estão promovendo uma vaquinha online e buscando ajuda de empresas e do governo brasileiro.
Em 9 de dezembro, ao chegar à Cidade do México na companhia da esposa e de uma das filhas, Fernandes teve uma arritmia cardíaca e procurou atendimento. Passou alguns dias internado e sendo medicado, mas o cansaço e a taquicardia persistiram.
Com isso, a esposa, Silvana Penachione, que é médica de família na rede pública no Brasil, sugeriu que fosse realizada uma cardioversão, em que um choque controlado é dado no tórax para reverter a arritmia. O professor já tinha passado por essa intervenção intermediária anteriormente e respondido bem.
O hospital, porém, optou por uma ablação, um procedimento mais complexo em que, com o uso de um cateter, são destruídas pequenas áreas do tecido cardíaco que estejam causando a arritmia.
Quando a companheira foi visitá-lo após a intervenção, realizada no dia 12, percebeu que o parceiro estava sofrendo um AVC e alertou a equipe médica. Apesar de ser considerada minimamente invasiva, a ablação pode provocar esses acidentes vasculares —raramente e quando há predisposição.
Para tentar conter o acidente vascular, foi feito um novo procedimento cirúrgico, mas, na sequência, Fernandes sofreu mais uma série de AVCs, o que agravou seu quadro.
Após duas semanas intubado e sob sedação para estabilizar seu quadro, a medicação foi reduzida, mas ele segue na UTI.
“Recentemente ele passou também por uma traqueostomia e ainda está ligado à ventilação mecânica”, conta Janaína Fernandes, 47, uma das filhas do historiador. A revisora de textos chegou à Cidade do México no dia 29 para ajudar a cuidar do pai.
“Ele passa muito tempo inconsciente. Tem dias que abre os olhos e parece que ele sorri, mas não temos certeza disso. O lado direito do corpo dele ainda está paralisado.”
Na página da campanha de arrecadação de fundos feita pela família (@apoioprowagner), Silvana vem dando notícias sobre o estado de saúde do marido.
“Foi um AVC extenso”, conta ela em uma das postagens. “Wagner está num quadro neurológico grave, brigando dia após dia.”
“Acho que ninguém está preparado para sair para uma viagem de férias e acontecer um problema grave de saúde. Uma pessoa que estava bem e de repente acontece uma sucessão de problemas”, diz a médica.
Nesta sexta-feira (2), a Cidade do México passou por um terremoto, que forçou a evacuação do hospital, exceto pelos pacientes em cuidado intensivo. Emocionada, Janaína relata a angústia ao sentir o tremor, de magnitude 6,5.
“Saímos correndo para o hospital. Lá, todo mundo tinha sido evacuado, mas o meu pai não, porque ele não pode sair da UTI. Ficamos ainda mais desesperadas para conseguir algum tipo de apoio para voltar com ele para casa, para o Brasil”, afirma.
Ela relata que, além dos gastos imprevistos que a situação está provocando, já que a data de retorno original da viagem de férias era o dia 17 de dezembro, precisam da repatriação porque Silvana tem que voltar para casa, em Campinas (SP), para trabalhar.
“Acreditamos que no Brasil ele vai ter um tratamento adequado, em bons hospitais. Achamos também que estar perto da família, dos amigos, dessa rede tão bonita que se formou pode ajudar na recuperação”, diz a filha, ressaltando que eles continuam em busca de ajuda das autoridades.
“Estamos tentando apoio da embaixada e do governo brasileiro. Eles oferecem apoio pontual para as coisas que estão acontecendo aqui, mas não temos suporte para a repatriação.”
Procurado, o Ministério das Relações Exteriores informou, em nota, que tomou conhecimento do caso no último dia 13, após ser procurado pela família do professor, com quem segue em contato frequente e prestando assistência por meio do Consulado-Geral do Brasil na cidade.
A pasta afirma que “a assistência consular não compreende despesas com hospitalização” e que, para a repatriação, é necessário ser comprovada a “situação de desvalimento” (completa ausência de verbas) e “a impossibilidade de retorno por intermédio de recursos de terceiros”.
“Adicionalmente, observa-se que a repatriação, uma vez deferida, apenas pode se dar em classe econômica e até o primeiro ponto de entrada no território nacional, não havendo previsão legal para o custeio de transporte em UTI aérea ou em maca, por exemplo”, completa o Itamaraty.
A família também tenta ter acesso a um programa humanitário da Latam, que disponibiliza aeronaves para transporte de pacientes, profissionais da saúde e insumos, mas ainda sem sucesso.
Após contato da reportagem, a companhia informou que não irá se manifestar sobre o tema.




