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Formiga-rainha ‘usurpadora’ faz operárias matarem a mãe – 25/11/2025 – Ciência

A usurpadora invade o palácio e lança seu veneno sobre a rainha. As filhas da soberana, sob o efeito da estranha substância, atiram-se contra ela e a matam. Logo depois, aceitam a invasora como sua mãe e nova rainha. Descrita dessa maneira, a história parece a versão sombria de um conto de fadas, mas é o que acontece na vida real com certas formigas do Velho Mundo, mostra um novo estudo.

Tanto as vilãs quanto as vítimas desse plano maligno são espécies do gênero Lasius, conhecidas por seu cheiro forte. Elas foram estudadas em laboratório por uma equipe de pesquisadores japoneses chefiados por Keizo Takasuka, da Universidade de Kyushu. Detalhes da descoberta de Takasuka e seus colegas saíram em artigo na revista científica Current Biology no último dia 17.

Há um quarteto de espécies enredadas na trama matricida. De um lado, há as matadoras L. orientalis e L. umbratus; de outro, as espécies enganadas por elas, respectivamente a L. flavus e a L. japonicus. As duas primeiras são classificadas como parasitas sociais, uma designação que costuma incluir animais mais conhecidos da população, como os cucos e chupins, que deixam seus ovos no ninho de outras espécies de pássaros.

Como o caso dessas aves indica, o mais comum é que o parasita social imite as características de filhotes ou larvas de outra espécie, ou então se aproveite das limitações cognitivas de seus hospedeiros, para receber tratamento VIP no ninho alheio. Às vezes, isso se combina ao ataque direto à rainha, no caso de insetos sociais, ou aos filhotes da espécie “certa” que estão dividindo a casa com o intruso.

Mas a manipulação insidiosa capaz de fazer com que filhas se voltem contra a própria mãe parece ser inédita, afirmam os cientistas japoneses. Há casos de insetos em que os filhotes devoram o corpo da mãe, mas isso costuma fazer parte do ciclo de vida normal da espécie, o que não é o que ocorre entre as formigas.

“Até agora, só dois tipos de matricídio tinham sido identificados, nos quais ou a mãe ou a prole se beneficiam desse processo. Neste novo caso, nenhuma das duas tem benefícios –quem se dá bem é um terceiro”, explicou Takasuka em comunicado oficial.

O calcanhar-de-aquiles do formigueiro invadido é a dependência dos odores –o cheiro é o grande mecanismo usado pelas formigas para reconhecer quem é um intruso e quem pertence à família. As rainhas das espécies usurpadoras, antes de invadir o ninho, costumam matar operárias da espécie invadida e esfregar seu corpo no delas. Com isso, ganham uma “camuflagem” odorífera que impede o ataque das formigas operárias que elas vão manipular.

O passo seguinte é entrar no formigueiro e borrifar a rainha verdadeira com uma substância malcheirosa que provavelmente é o ácido fórmico. Tudo indica que isso acaba disfarçando o odor “de nobreza” da rainha atacada. A invasora pode repetir essa operação várias vezes, escondendo-se e atacando a rainha de novo, até que as operárias passem a achar que a intrusa é a pobre vítima.

Elas, então, atacam sua antiga rainha, matam-na e se livram do corpo. Por fim, a usurpadora retorna à “cena do crime” e começa a botar seus ovos dentro do formigueiro acéfalo. É a deixa para que as operárias passem a tratá-la como a rainha “de direito”, passando a cuidar de seus ovos e das larvas que emergem deles.

Como as operárias são estéreis, o que acontece é que, com o passar do tempo, o formigueiro sofre uma mudança completa de população –apenas as formigas geradas pela rainha invasora passam a povoá-lo.

Embora alguns dos detalhes bioquímicos do “golpe de Estado” ainda não estejam claros, todas as principais partes do processo foram filmadas pelos pesquisadores japoneses em laboratório.

De acordo com Takasuka, não é impossível que o comportamento esteja presente em outros insetos. “Apenas as formigas da subfamília Formicinae usam ácido fórmico para estimular reações violentas, mas não descarto a possibilidade de que outros grupos de formigas e vespas sociais cometam matricídio de formas parecidas.”

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