sexta-feira, fevereiro 6, 2026
22.1 C
Pinhais

Foto da casa de Tia Ciata é encontrada pela primeira vez – 06/02/2026 – Cotidiano

O Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro afirma ter encontrado uma fotografia inédita da casa na Praça Onze onde viveu Hilária Batista de Almeida, a Tia Ciata (1854-1924), considerada matriarca do samba e anfitriã dos encontros do início do século 20 que resultaram no surgimento do gênero.

A casa de Ciata abrigava, nos fundos, sessões de candomblé e festas musicais que duravam dias. Pesquisadores atribuem a essas reuniões a construção coletiva que resultou na composição “Pelo Telefone“, autoria indefinida, registrada em 1916 e considerada a primeira obra no formato de samba —ou ao menos a primeira a fazer sucesso sob o guarda-chuva do gênero.

O endereço, na rua Visconde de Itaúna, 117, era conhecido, mas não havia fotografias atribuídas ao local.

Mesmo o rosto de Ciata é motivo de controvérsia: fotos associadas a ela são reforçadas pela família, mas sem unanimidade entre pesquisadores.

Durante os 20 anos em que morou na Cidade Nova, Ciata recebeu nomes fundamentais da música do primeiro quarto de século 20, como Pixinguinha, Donga, João da Baiana e Heitor dos Prazeres, Sinhô e Catulo da Paixão Cearense, o jornalista Vagalume e agitadores culturais, como Hilário Jovino.

A casa tinha ao menos três ambientes conhecidos, segundo relatos colhidos pelo autor Roberto Moura para o livro “Tia Ciata e a Pequena África no Rio de Janeiro“.

Na sala, primeiro cômodo depois da entrada, havia sessões de samba e música instrumental.

O imóvel, segundo o livro, tinha um corredor escuro com acesso a quartos e um quintal nos fundos, onde aconteciam as rodas de batuques e as festas com samba raiado, ritmo quente, carregado em percussões e uso de instrumentos improvisados como louças de cozinha.

A fotografia mostra uma casa de cor clara com duas entradas de moldura em pedra. Uma das entradas tem uma cristaleira de madeira com objetos à mostra. A foto foi registrada em 1941, 17 anos após a morte de Ciata, em 1924. O imóvel ainda pertencia à família.

“Muitos filhos de escravizados, baianos ou cariocas, não tinham condições de ter uma casa e as alugavam coletivamente. Mas Tia Ciata tinha condições. As boas relações rendem a ela uma inviolabilidade na casa”, afirma Roberto Moura.

“O percurso da Pequena África começa com o fim do mercado do Valongo [na zona portuária], onde os escravizados desembarcavam. Eles ocupam esse lugar desvalorizado como moradia, depois são empurrados pela reforma de Pereira Passos e vão buscar moradia no entorno da Praça Onze.”

O imóvel foi demolido com o fim da Praça Onze. A destruição se deu para a abertura da avenida Presidente Vargas, projeto de Getúlio. A rua Visconde de Itaúna também não existe mais.

As fotografias, a maioria inédita e algumas pouco conhecidas, estão no catálogo de Uriel Malta e Aristógiton Malta, filhos de Augusto Malta, principal fotógrafo da Prefeitura do Rio no início do século 20 e responsável pelo registro das mudanças urbanas da cidade.

Augusto foi trabalhar para a companhia de energia elétrica Light e os filhos foram contratados pela prefeitura. A partir do fim da década de 1930, a dupla passou a registrar as obras de demolição da praça e das ruas do entorno.

A fotografia estava em uma série de 11 pastas, com mais de 600 imagens em cada uma delas, catalogadas como arquivo de Henrique Dodsworth, interventor do então Distrito Federal entre 1937 e 1945, nomeado por Vargas. Um arquivista resolveu abrir os álbuns, que estavam guardados, e achou as imagens.

“A existência dos álbuns era sabida, mas estavam perdidos no meio do acervo. A reedição de um livro sobre a Praça Onze nos fez despertar o interesse e começamos a nos questionar onde era a casa da Tia Ciata”, afirma Elizeu Santiago, presidente do Arquivo Geral.

“Existem relatos orais do endereço em que ela morava, correspondências, fontes de jornais. Pegamos esses registros, que são unânimes na precisão, e conseguimos identificar”, diz Santiago.

Das 14 mil fotos encontradas, 300 foram selecionadas e incluídas no livro “Achados & Perdidos”, sob direção editorial e gráfica de Leonel Kaz e Sula Danowski. A obra, disponível virtualmente, deve ser lançada em versão impressa neste semestre.

Além da abertura da Presidente Vargas, as imagens registram a urbanização da zona sul e a construção da avenida Brasil sobre áreas alagadiças e roças.

A família Malta registrava com caneta branca sobre o negativo da fotografia os endereços e datas das imagens. A foto da casa de Ciata é do dia 19 de fevereiro de 1941, às portas do Carnaval daquele ano.

No ano seguinte, saiu, em gravação de Castro Barbosa e Trio de Ouro, o samba “Praça Onze”, de Herivelto Martins e Grande Otelo, cuja letra lamenta o fim do espaço de convivência entre negros, judeus, ciganos e malandros.

Baiana de Santo Amaro da Purificação, no recôncavo, Hilária Batista, ou Hilária Pereira, segundo outros registros, chegou ao Rio com uma filha aos 22 anos.

Nas ruas Uruguaiana e Sete de Setembro, vendeu doces sobre o tabuleiro. Na zona portuária, onde viveu, descendentes mantêm a Casa da Tia Ciata, um centro de memória.

Além de comerciante e agitadora cultural, Ciata era mãe pequena no candomblé nagô, que se popularizava na cidade. O cargo é o segundo mais importante na casa de candomblé.

Bem relacionada, ganhou a confiança de intelectuais e proximidade com o presidente da República Venceslau Brás —a pedido, tratou sob os rituais de cura uma ferida na perna do então presidente.

A morte de Ciata completou 100 anos em 2024. Hoje seu nome batiza uma estação de VLT (Veículo Leve Sobre Trilhos) no centro, e é homenageada em escultura em frente ao Terreirão do Samba, espaço cultural resquício do que sobrou da Praça Onze.

Autor: Folha

Destaques da Semana

Carnaval é feriado nacional? Saiba se você vai trabalhar ou folgar em 2026

Em 2026, o Carnaval será comemorado nos dias...

Acolhimento turístico do Estado registra 49 mil atendimentos no Verão Maior Paraná

A Secretaria de Estado do Turismo (Setu) realizou 49.238...

Viih Tube descarta gravidez e descobre doença silenciosa; saiba qual

A empressária Viih Tube, 25, compartilhou por meio dos...

“Penduricalhos” do Legislativo custarão um ano de Bolsa Família a 500 mil famílias

A reestruturação de carreiras dos servidores da Câmara dos...

Temas

Siga-nos

Conheça Nosso Guia de Compras

spot_img

Artigos Relacionados

Categorias mais Procuradas