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Freiras podem dar dicas para viver hoje, dizem autoras – 28/01/2026 – Equilíbrio

Para quem vive em um mundo tomado por aluguéis superfaturados, cargas de trabalho excessivas e CEOs de big techs influindo na geopolítica internacional, a vida monástica pode parecer uma afronta à alienação moderna, afirmam Ana Garriga e Carmen Urbita, autoras do livro “A Sabedoria das Noviças”, lançado no Brasil pela editora BestSeller.

Talvez isso explique uma crescente obsessão geracional e o aumento no espaço da cultura pop para as freiras, não de forma satírica, mas como um fenômeno estético e social.

Enquanto a hashtag #NunTok fascinava usuários do TikTok durante a pandemia e memes viralizavam com legendas como “mais um ficante premium e eu entro para o convento”, as pesquisadoras da Universidade Brown, nos Estados Unidos, já tinham fascínio antigo pela iconografia católica.

Foi muito antes de Chappell Roan e Rosalía trajarem túnica, escapulário e véu que as autoras se interessaram pelas figuras religiosas, no que começou quando, ambas, aos nove anos —e sem se conhecerem— decidiram ser batizadas na Igreja Católica contra a vontade de seus pais agnósticos.

O interesse era tanto pelo magnetismo da ética religiosa quanto pelo despertar de sinais de um “lesbianismo latente” diante de imagens como a de Joana d’Arc, afirmam elas em sua bem-humorada análise sobre a vida das freiras nos séculos 16 e 17.

Todo o histórico as motivou a iniciarem seus doutorados sobre a contrarreforma e as políticas da santidade, em estudos que, acreditavam, se restringiriam apenas à esfera intelectual. Foi durante esse período, numa forma de “clausura acadêmica”, que elas acidentalmente encontraram consolo nas vozes dessas mulheres, ao pesquisar extensamente suas cartas e autobiografias.

“A experiência do doutorado pode ser bem solitária. É muito verdade que ler sobre essas freiras e perceber que elas estavam tendo experiências semelhantes nos ajudou muito a processar nossas próprias lutas, eu diria. Mas não tínhamos ideia de que iríamos estabelecer essas conexões quando começamos a ler sobre as freiras”, diz Ana Garriga à Folha.

Debruçando-se sobre os diários da agostiniana María de San José, sobre as cartas de Ana de Jesús para Beatriz de la Conceição e sobre processos inquisitoriais de Inés de Santa Cruz e Catalina de Ledesma, encontraram descrições como a angústia de lidar com superiores incompetentes, registros de um intenso amor lésbico à distância e evidências de estratégias financeiras adotadas pelas religiosas.

Constataram, então, que a sabedoria das freiras poderia funcionar como um “kit de sobrevivência”, com respostas satisfatórias para males como o burnout, a produtividade tóxica e até transtornos alimentares.

“Nos anos 1980, muitas acadêmicas feministas começaram a reinvindicar o convento como um lugar de resistência. As freiras estavam escrevendo o tempo todo, e muitas escrevendo biografias das outras irmãs, e estavam fazendo isso sendo muito cuidadosas porque sabiam que poderiam ser censuradas e que tinham que prestar muita atenção à Inquisição. Então isso faz com que os textos sejam muito, muito divertidos de ler”, diz Garriga.

Embora alguns dos temas sensíveis para a Igreja sejam abordados de forma cômica, as autoras não se preocuparam com a recepção do livro entre o catolicismo. “Estamos pesquisando de um lugar muito respeitoso”, afirma Urbita.

Na verdade, as espanholas já haviam conquistado esse público com o podcast “Las Hijas de Felipe”. O produto, assim como livro, mescla histórias pessoais das autoras, referências à cultura pop e o mal-estar de hoje com as angústias das freiras.

Ainda assim, foi uma surpresa ver o podcast ser recomendado por uma newsletter jesuíta, diz Urbita. “Por causa da linguagem, dá para perceber que eles realmente nos ouviram. E também mencionaram que muitas freiras continuavam ouvindo nosso podcast todos os dias, e acho que faz muito sentido. Se há um podcast falando sobre sua cultura, você vai ouvir”, diz.

Acima de tudo, o livro é bem-sucedido ao trazer para o público uma perspectiva singular: a de que os conventos funcionavam como células de resistência nos séculos 16 e 17, os únicos espaços em que as mulheres podiam evitar um destino de casamento e maternidade.

Apesar da aparência tentadora de refúgio, especialmente em meio ao crescimento da extrema direita, a ideia não é incentivar leitoras a recorrerem a uma vida monástica. “O convento era e é um lugar muito marginal”, diz Garriga. “Mesmo que a Igreja Católica seja uma estrutura muito poderosa, as freiras estão sempre nas margens.”

“O que tentamos fazer é pegar a ideia do convento portátil, ou seja, o realmente é valioso do convento na idade moderna: a ideia de comunidade, interdependência e viver com pessoas que têm um propósito compartilhado com você.”

Autor: Folha

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