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Galípolo conquista Faria Lima, mas crises atingem BC – 02/01/2026 – Economia

Ao declarar ter “antipatia” e “resistência” a mudanças no IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) um dia depois de o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, ter anunciado a medida e recuado em parte dela, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, escancarou publicamente pela primeira vez um desalinhamento entre eles.

A alta do IOF foi recebida como uma bomba pelos investidores, que temiam uma saída acelerada de recursos do país e interpretaram a medida do governo como tentativa de controle de capital. A repercussão negativa atingiu Galípolo instantaneamente e, ao atuar para contornar o estrago, sobraram cobranças dos dois lados nos bastidores.

Três economistas, que pediram para não serem identificados, apontaram à Folha esse episódio como um marco na caminhada do chefe do BC para conquistar a confiança do mercado e ganhar credibilidade em seu primeiro ano no comando.

Na visão de um deles, Galípolo é hoje muito mais popular na Faria Lima do que Haddad. Isso porque, enquanto o ministro da Fazenda esgota seu capital político, o presidente do BC dá mostras de que bancará decisões que possam contrariar os anseios do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ou de integrantes do seu governo.

BANCO MASTER

O respaldo da Faria Lima fortalece Galípolo no episódio de maior tensão desde que ele assumiu a presidência do BC: a crise do banco Master. No último dia 27, associações de bancos e de fintechs se uniram em defesa da autoridade monetária.

“A presença de um regulador técnico e, sobretudo, independente do ponto de vista institucional e operacional, é um dos pilares mais importantes na construção de um sistema financeiro sólido e resiliente. As entidades signatárias reconhecem que o Banco Central do Brasil vem exercendo esse papel”, afirmaram.

A nota conjunta é assinada por ABBC (Associação Brasileira de Bancos), Acrefi (Associação Nacional das Instituições de Crédito), Febraban (Federação Brasileira de Bancos) e Zetta (associação que representa empresas do setor financeiro e de pagamentos), num raro alinhamento de entidades de diferentes perfis do mercado financeiro.

O apoio chegou em um momento em que Galípolo se colocava em rota de colisão com o STF (Supremo Tribunal Federal). Nos bastidores, a cúpula do BC diz se ver sob ataque desde que a liquidação do Master foi decretada, em novembro.

Ainda que o ministro Dias Toffoli negue que o BC tenha sido colocado em condição de investigado, a atuação do regulador entra na mira do STF ao impor que Daniel Vorcaro, dono do Master, Paulo Henrique Costa, ex-presidente do BRB (Banco de Brasília), e Ailton de Aquino, diretor de Fiscalização do BC, fossem igualmente interrogados sobre o caso.

Toffoli acabou recuando, posteriormente, sobre a participação de Aquino na acareação realizada assim que foram concluídos os depoimentos. A Polícia Federal e o juiz auxiliar que atua no gabinete do magistrado avaliaram que a presença do diretor do BC não seria necessária.

A movimentação de Toffoli sugere que o ministro viu como prematura a decisão do BC de liquidar o banco, mas, na opinião de muitos investidores e banqueiros, o BC, na verdade, teria demorado demais a agir para parar Vorcaro.

Em meio ao caso Master, Galípolo teve reuniões com o ministro Alexandre de Moraes. O escritório da família de Moraes tem um contrato com o banco de Vorcaro.

Os encontros que o ministro do STF admitiu ter com Galípolo não foram incluídos na agenda pública do presidente do BC, e a nota divulgada pela autoridade monetária pouco convenceu. Ela diz apenas que o BC “confirma” que manteve reuniões com Moraes para “tratar dos efeitos da aplicação da Lei Magnitsky”, sanção imposta pelos Estados Unidos ao magistrado. O comunicado, porém, não negou que o assunto Master tenha vindo à tona.

Na reta final da análise da operação de compra do Master pelo BRB, que acabou rejeitada pelo BC, Galípolo também se viu na mira do Congresso Nacional. Vorcaro construiu conexões poderosas em Brasília, tendo relação próxima com políticos do centrão, principalmente o presidente do PP, senador Ciro Nogueira (PI).

PP e outros partidos do centrão desencadearam uma ofensiva na Câmara dos Deputados para aprovar um projeto de lei que daria poderes ao Congresso para demitir integrantes da cúpula do BC. A medida acabou travada e sem perspectiva de avanço à medida que as investigações contra o Master progrediram.

Em novembro, após a liquidação do banco pelo BC e a prisão de Vorcaro, a PF informou que o Master havia repassado ao BRB R$ 12 bilhões em uma carteira de crédito inexistente.

ATAQUES CIBERNÉTICOS

A crise do Master transcorreu em paralelo a movimentos que suscitaram questionamentos com relação à segurança do sistema financeiro. Em meados do ano, foi registrado o maior ataque cibernético da história do país, com mais de R$ 800 milhões desviados.

O episódio não foi um caso isolado, o que exigiu de Galípolo a adoção de medidas emergenciais ao longo do segundo semestre. Para evitar uma crise de confiança da população no sistema, o BC promoveu uma série de mudanças regulatórias visando fechar brechas utilizadas por criminosos.

Muitas delas foram atravessadas por divergências entre a diretoria colegiada e a equipe técnica, que via certo açodamento diante da pressão por uma resposta rápida ao problema.

Algumas das medidas, como o aumento do capital mínimo exigido de instituições financeiras, foram recebidas com preocupação por instituições menores, que temem perda de competitividade. Sob Galípolo, alguns dos pilares que regem a atuação do BC foram rebalanceados. O foco em inovação, marca da gestão de seu antecessor, Roberto Campos Neto, perdeu força em 2025.

POLÍTICA MONETÁRIA

A correção de rota observada na área de regulação destoa da percepção de que, na condução da política de juros, o trabalho de Galípolo tem sido de continuidade.

Em 1º de janeiro, ele foi alçado ao posto mais alto do BC em um ambiente de desconfiança. Devido à relação de proximidade de Lula com Galípolo –que já foi chamado de “menino de ouro” pelo chefe do Executivo–, havia receio de que o Palácio do Planalto pudesse influenciar nas decisões da autoridade monetária sobre juros. Mas, um ano mais tarde, o mercado financeiro rasga elogios a Galípolo justamente por ter se mantido imune à pressão política.

Rodrigo Maia, diretor do BTG Pactual e ex-presidente da Câmara dos Deputados, vê o atual presidente à altura de grandes nomes que fizeram história no Banco Central.

“Tinha uma expectativa se ele conseguiria segurar a pressão do presidente da República. Talvez pela boa relação [com Lula], ele tenha conseguido mostrar a importância dessa independência do Banco Central. Na minha opinião, o primeiro ano do presidente Galípolo foi espetacular, muito acima daquilo que a maioria das pessoas esperava”, diz.

Sergio Werlang, ex-diretor do BC e professor de economia da Escola Brasileira de Economia e Finanças da Fundação Getulio Vargas (FGV EPGE), faz um balanço positivo da gestão de Galípolo. Ele, contudo, diz que não subiria tanto os juros se fosse presidente.

O Copom (Comitê de Política Monetária) fechou 2025 com a taxa básica de juros (Selic) fixada em 15% ao ano –no nível mais alto em quase duas décadas.

“A gestão do Banco Central tem sido mais conservadora do que o ideal, porque tem insistido demasiadamente em seguir a meta [de inflação] de 3%”, afirma. Para Werlang, Galípolo demonstrou coerência ao longo do tempo. “Ele ganhou a reputação através do discurso.”

A manutenção dos juros em patamar elevado tornou-se motivo de críticas por parte de membros do governo, incluindo Haddad e a ministra Gleisi Hoffmann (Secretaria de Relações Institucionais). O presidente do BC, entretanto, tem sido poupado de ataques pessoais.

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