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Ginecologistas ajudam a identificar vítimas de violência – 10/03/2026 – Equilíbrio e Saúde

Para 8 em cada 10 ginecologistas e obstetras brasileiros, o consultório é o primeiro lugar onde uma mulher vítima de violência encontra um profissional de saúde. Uma pesquisa nacional da Febrasgo (Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia) divulgada nesta terça-feira (10) mapeia como os profissionais lidam com essa realidade na prática clínica.

O levantamento ouviu 290 especialistas entre fevereiro e março de 2026, por meio de questionário estruturado com amostragem por conveniência. Os dados apontam que a maioria dos profissionais reconhece o papel da especialidade no enfrentamento à violência, mas relata obstáculos de ordem estrutural, jurídica e formativa para exercê-lo.

Mais da metade dos respondentes (57%) afirmou atender casos ao menos ocasionalmente. A violência psicológica e emocional foi a mais identificada nos consultórios, citada por 83% dos profissionais —à frente da violência sexual (50%) e da física (34%).

Sobre o próprio preparo, apenas 25% disseram se sentir bem ou muito preparados. Cerca de 23% admitiram sentir-se pouco ou nada preparados, e 51% avaliou o preparo como intermediário. A pesquisa aponta esse resultado como indicativo de uma lacuna na formação dentro da especialidade.

A abordagem da violência nos consultórios, segundo o estudo, é majoritariamente reativa. Quase metade dos profissionais (47%) disse tratar do assunto apenas diante de sinais evidentes, e 27% somente quando a paciente menciona o tema. Entre os entrevistados, 14% incluem a pergunta sobre violência como parte da rotina do atendimento.

Os principais entraves relatados pelos profissionais são estruturais: 60% citaram a ausência de uma rede de encaminhamento, e 45% apontaram inseguranças jurídicas ligadas à notificação e ao sigilo como obstáculos à atuação.

Os dados da pesquisa dialogam com um cenário de crescimento dos registros de violência no país. Em 2024, foram registrados 87.545 casos de estupro e estupro de vulnerável —o maior número da série histórica, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública. No mesmo ano, 1.492 mulheres foram assassinadas por serem mulheres, também o maior número desde a tipificação do feminicídio em 2015.

A pesquisa integra a segunda fase da campanha #EuVejoVocê, lançada pela Febrasgo em 2025. A entidade afirma que o objetivo é avançar do campo da conscientização para o do suporte prático, com protocolos, capacitação e orientação jurídica. Para 70% dos profissionais consultados, o fortalecimento da rede de encaminhamento é a prioridade mais urgente.

Segundo Lia Cruz Vaz da Costa Damásio, diretora de Defesa e Valorização Profissional da Febrasgo e responsável pela pesquisa, a consulta com o médico ginecologista é um momento de privacidade, em que muitas mulheres se sentem vulneráveis. É quando os profissionais podem identificar evidências como hematomas e mesmo marcas psicológicas em vítimas.

“A anamnese ginecológica e obstétrica envolve essas questões da sexualidade, do prazer, da lubrificação, e muitas vezes isso vai remeter essa mulher a traumas, a experiências passadas, e o médico vai conseguir perceber essas nuances e dar a essa mulher a oportunidade de se expressar”, afirma.

Damásio diz que a orientação de como lidar com esses casos é abordada na graduação e na residência, mas que falta estruturação prática. Para ela, o fato de existirem muitas áreas no Brasil que estão descobertas de centros especializados em violência sexual, sistemas de denúncia e de um Ministério Público atuante pode vulnerabilizar e sobrecarregar o médico.

“O médico não é juiz, não é polícia. Mas há situações em que a notificação é compulsória e que o médico tem que saber do seu protagonismo social, de saber orientar aquela mulher”, acrescenta.





O médico não é juiz, não é polícia. Mas há situações em que a notificação é compulsória e que o médico tem que saber do seu protagonismo social, de saber orientar aquela mulher

Conforme Maria Celeste Wender, presidente da Febrasgo, a ideia é aumentar a segurança dos profissionais para que se sintam mais preparados na conversa com as vítimas. “Muitas vezes o médico até pode imaginar que aquela paciente está sendo vítima de uma violência, mas não sabe muito bem o que fazer com aquela informação”, diz.

Nas respostas da pesquisa, 172 profissionais descreveram o que consideram necessário para mudar esse quadro. O mais recorrente foi por educação das próprias mulheres —muitos médicos relataram que formas de violência psicológica, patrimonial e sexual, como o estupro marital, ainda não são reconhecidas pelas próprias vítimas como violência.

Também foram citados com frequência a necessidade de protocolos claros de atendimento, orientação jurídica acessível e maior integração com assistência social e serviços de proteção.

Autor: Folha

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