sábado, janeiro 3, 2026

‘Imediatez’ analisa a comunicação de forma encastelada – 02/01/2026 – Economia

Uma das utopias favoritas dos tempos ancestrais da internet era a de que, com a popularização da rede, os antigos “gatekeepers” cederiam espaço ao interesse público, que se sobreporia aos interesses capitalistas dos veículos de comunicação.

A derrocada dos “gatekeepers” veio e levou de fato a uma democratização da comunicação, só que isso não se converteu em avanços democráticos na sociedade. Pelo contrário.

“Imediatez ou o Estilo do Capitalismo Tardio Demais”, da americana Anna Kornbluh, busca aprofundar a reflexão sobre os diversos processo de desintermediação. Para ela, vivemos um período de “imediatez”, definida pela autora como a eliminação das mediações.

Kornbluh busca mostrar como isso é, ao mesmo tempo, algo que une manifestações culturais e políticas e um efeito do que chama de “capitalismo tardio demais”.

Não funciona muito bem. A começar pela mediação do próprio estilo. A autora é professora do Departamento de Inglês da Universidade de Illinois em Chicago, mas acumula com desenvoltura citações sobre economia, filosofia, sociologia e psicanálise.

Quando não cita, a autora opta por conceitos como “a cadeia evasiva da metonímia ou da parapraxia”, ou “adumbração especulativa”. Não, o objetivo não é levar o debate a muitos.

Para além da linguagem, os exemplos que escolhe para sustentar sua teoria muitas vezes podem servir para demonstrar o oposto dela.

Relações de causalidade que tenta estabelecer são por vezes incompreensíveis e sempre frágeis, assim como a unidade que tenta formar entre fenômenos só têm em comum o fato de que acontecem dentro do planeta Terra —ou seja, do sistema capitalista.

Quando fala sobre escrita, Kornbluh põe o foco na autoficção. Para ela, a necessidade de falar com o público sem a intermediação de uma história ou personagens ficcionais estaria ligada à lógica do tal “capitalismo tardio demais”. Seria interessante se não fosse o fato de que uma grande parte da humanidade sempre considerou que a própria vida “daria um livro”.

Até o século 21, porém, a maioria não tinha os recursos para escrever o tal livro e os meios de publicá-lo. Em 2025, recursos e meios estão amplamente disponíveis, e as mídias sociais ainda oferecem a cada um a possibilidade de se sentir a estrela da própria história fabulosa.

Da mesma maneira, a própria teoria da desintermediação falha ao parar na superfície. Sim, em 2025 um comediante com muitos seguidores no YouTube tem tanta autoridade quanto o Jornal Nacional.

O que se avalia como “desintermediação”, porém, se revela apenas como uma “reintermediação”, já que o Jornal Nacional foi substituído por três ou quatro empresas que detêm as redes que alcançam o público. Empresas que também têm donos, que têm liberdade para influenciar o debate público sem os freios de responsabilidade impostos à mídia tradicional.

O problema, portanto, passa longe do identificado por Kornbluh, assim como sua solução. Se a verdade disponível tinha dono, pelo menos era possível contestá-la a partir de um ponto de vista diferente; sem ela, cada um adotou seu conjunto de fatos próprios, e o debate público foi substituído pela busca por disseminar este conjunto de fatos da maneira mais eficiente possível.

A sociedade perdeu as referências a partir das quais sempre se construiu o debate. Como, então, estabelece novos parâmetros, novos pilares para isso?

Podemos começar pela forma: onde Marx fazia questão de ser entendido por aqueles cujas vidas pretendia transformar, discípulos dele como Kornbluh quase sempre optam por caminhos opostos.

Vão em duas direções: se todo mundo entender, não é suficientemente intelectual, e “o público” é naturalmente estúpido e manipulável, portanto não vale a pena falar para ele, apenas sobre ele.

O segundo ponto é duplamente importante, ainda mais numa perspectiva de “imediatez” em que os formadores de opinião potencialmente são todas as pessoas. Ou seja: continuemos pelos atores envolvidos.

Não há discussão ou comunicação democrática cujos caminhos possam ser encontrados por uma elite intelectual supostamente progressista e democrática. Se encastelar nas teorias e nos teóricos é confortável, mas só para quem não quer de fato mudar nada.

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