Nos últimos anos –e especialmente em 2025– o Brasil entrou numa cadência rara: a de planejar, licitar e contratar infraestrutura como política de Estado, e não como evento extraordinário. A cena se repetiu tantas vezes que virou rotina: autoridades federais, estaduais e municipais indo à B3 para leiloar concessões e PPPs.
O placar de 2025 impressiona: 75 leilões, 98 ativos e R$ 243,8 bilhões contratados (31% acima de 2024), sendo R$ 183,1 bilhões em investimentos (Capex) e R$ 60,7 bilhões em operação e manutenção (Opex), com potencial de mais de 1,6 milhão de empregos.
Quando os números ficam grandes demais, a didática precisa de uma régua. R$ 243,8 bilhões equivalem, grosso modo, a colocar “um país inteiro” em investimento: algo próximo do PIB do Paraguai ou Honduras, convertido em obras, serviços e manutenção aqui dentro. E isso representou cerca de 2% do PIB brasileiro em contratações. Se esse ritmo se sustentar, ano após ano, o Brasil pode finalmente se aproximar do patamar de investimento que sempre perseguiu (algo em torno de 4-5% do PIB), com participação privada ampliando o que o setor público, sozinho, não consegue entregar, na mesma escala, apenas com recursos orçamentários.
Rodovias lideraram com folga: 20 leilões –mais um recorde histórico– R$ 106,6 bilhões, 8,5 mil quilômetros e estimativa de 1,3 milhão de empregos. Para comparação direta: o orçamento total do DNIT (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes) em 2025 foi de R$ 15 bilhões. Em outras palavras, em um único segmento, a iniciativa privada contratou várias vezes o orçamento anual do principal órgão federal de infraestrutura de transportes. Houve ainda um sinal de maturidade institucional: repactuações, competição e até troca de controle em ativos renegociados, como foi o caso da rodovia Fernão Dias.
O segundo grande motor foi o saneamento: oito leilões, R$ 44,5 bilhões (alta de 78% sobre 2024), 16,1 milhões de pessoas beneficiadas e mais de 255 mil empregos estimados. Aqui está o ganho mais concreto e menos abstrato: água e esgoto mudam saúde pública, produtividade e qualidade de vida com a força de um “programa social silencioso”. A métrica que temos atualmente é relativamente simples: para cada R$1 investido em saneamento, economiza-se R$4-5 na rede de saúde. É certamente um dos investimentos que mais impacta a qualidade de vida da população.
E 2025 também mostrou que infraestrutura não é apenas concreto, asfalto, tubos e bombas. Na infraestrutura social, foram oito projetos (quatro de escolas/creches, dois hospitais, um de centro socioeducativo e um de presídio), com R$ 12,5 bilhões contratados. Duas informações importantes que não costumam ser notadas: no caso de escolas e creches, o número de “projetos” costuma dizer pouco: há PPPs, como a de Porto Alegre, que envolvem mais de cem unidades escolares, o que faz com que poucos contratos representem um universo enorme de entregas.
Além disso, essas são PPPs para cuidar da infraestrutura, das assim chamadas “facilities”, prédios, salas de aula, equipamentos, iluminação, segurança, catering e apoio administrativo. A atividade pedagógica, por outro lado, continua sob o controle do poder público. Alunos da rede pública,portanto, terão qualidade de infraestrutura e apoio à educação que só se encontra hoje em escolas particulares, o que impactará a qualidade do ensino.
O portfólio se diversificou: portos somaram sete leilões e R$ 5,9 bilhões em contratações, incluindo marcos inéditos. E, pela primeira vez, o Brasil fez a contratação de uma concessão de canal de acesso, no Porto de Paranaguá, um passo que tende a destravar um gargalo histórico da nossa logística, e abrir as portas para as concessões de hidrovias e de novos canais de acesso, que já estão em fase de estruturação.
Florestas avançaram com cinco concessões e 4,5 bilhões de metros quadrados destinados a manejo sustentável e reflorestamento; iluminação pública teve quatro projetos (R$ 443,1 milhões), com alcance aproximado de 930 mil pessoas; e, a mobilidade ganhou um símbolo: o túnel Santos–Guarujá, com investimento estimado em R$ 6,8 bilhões.
Regionalmente, houve capilaridade: o Sudeste liderou (25 leilões e mais de R$ 91,2 bilhões), enquanto o Sul teve 15 leilões (mais de R$ 37,7 bilhões), o Centro-Oeste 15 (mais de R$ 49 bilhões), o Nordeste 6 (mais de R$ 20 bilhões) e o Norte 10 (mais de R$ 29 bilhões).
Nada disso se sustenta sem um alicerce invisível: integridade, transparência e controles que deem previsibilidade e confiança. A boa notícia é que, após muitos aprendizados, esse ambiente se fortaleceu e permitiu a expansão do pipeline.
Se 2025 foi o ano do recorde, o que merece comemoração é a chance de transformar recorde em padrão. Se infraestrutura fosse campeonato, o Brasil teria encerrado a temporada na liderança, com jogo bonito e estádio cheio. Que venha 2026, e que a torcida siga ganhando, na rua, no porto, na escola e no saneamento.




