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Inverno mais ameno desafia realização de Jogos de Inverno – 22/01/2026 – Esporte

Como esquiador de elite do cross-country que cresceu no Alasca, Gus Schumacher está acostumado a treinar e competir sob frio cortante e em meio a tempestades de neve. Mas, nos últimos anos, Schumacher —que se prepara para disputar várias provas nos Jogos Olímpicos de Inverno de Milão-Cortina, no próximo mês, na Itália — tem esquiado sobre uma neve úmida e pastosa, cercado por encostas áridas.

“É tudo neve totalmente artificial e meio marrom nas laterais”, disse Schumacher ao falar de algumas de suas competições recentes. “Não é a forma mais agradável de esquiar.”

Após um início de inverno quente e seco nos Alpes italianos, autoridades locais afirmam agora que as sedes ao ar livre deste ano têm neve produzida por máquinas suficiente para durar os 19 dias de competições.

Mas organizadores olímpicos dizem que realizar um grande evento de esportes de inverno a cada quatro anos está se tornando cada vez menos garantido e exigirá mais flexibilidade, em razão do aquecimento do planeta.

“Até meados do século, provavelmente teremos algo entre 10 e 12 países com clima frio o suficiente para sediar esportes olímpicos de neve”, afirmou Karl Stoss, presidente da Comissão de Futuras Sedes do Comitê Olímpico Internacional (COI), responsável por decidir quais cidades recebem os Jogos.

Até 2050, das 93 cidades consideradas aptas a lidar com a logística de sediar tanto os Jogos Olímpicos quanto os Paralímpicos, apenas quatro seriam capazes de receber os eventos sem a necessidade de produção artificial de neve, segundo um estudo publicado nesta quarta-feira. Essas cidades são Niseko, no Japão; Terskol, na Rússia; e Val d’Isère e Courchevel, na França.

“As mudanças climáticas estão alterando a geografia de onde os Jogos Olímpicos e Paralímpicos de Inverno podem ser realizados”, disse Daniel Scott, autor do estudo publicado na revista Current Issues in Tourism e professor de geografia e gestão ambiental da Universidade de Waterloo, em Ontário. “Estamos vendo uma redução e contração dos locais com clima confiável.”

De acordo com o novo estudo, os atletas que competem nos Jogos Paralímpicos —realizados algumas semanas depois, no mesmo local— são os mais afetados pelo aquecimento do clima. Isso ocorre porque temperaturas mais altas alteram a superfície da neve e podem criar condições mais difíceis e potencialmente inseguras para as quatro modalidades paralímpicas disputadas ao ar livre: esqui alpino, snowboard, esqui cross-country e biatlo.

Desde 1992, qualquer cidade que queira sediar os Jogos Olímpicos de Inverno também precisa se candidatar a receber os Jogos Paralímpicos. Esse cronograma exige um período mais longo de temperaturas frias, que vai do início de fevereiro até meados de março.

“Como há uma parceria de uma única candidatura para uma única cidade, isso basicamente significa que a resiliência climática depende do quanto você consegue garantir condições para os Jogos Paralímpicos”, afirmou Scott.

Em toda a região sul dos Alpes, a profundidade média da neve no inverno caiu mais de 25% desde 1980, segundo um estudo de 2024 que analisou um século de registros de neve, publicado no International Journal of Climatology.

A falta de neve forçou o cancelamento de sete das oito primeiras provas da Copa do Mundo de esqui alpino e snowboard na temporada 2022-23, seguidas por 26 etapas da Copa do Mundo na temporada 2023-24, de acordo com o novo estudo de Scott e seus colegas.

Alguns técnicos e atletas atribuem o aumento das quedas e das taxas de lesão às temperaturas elevadas e às más condições da neve nos Jogos de Sochi, em 2014, na Rússia. Uma pesquisa realizada em 2022 com atletas e treinadores de esportes de inverno de 20 países revelou que 90% deles estavam preocupados com o impacto negativo das mudanças climáticas sobre suas modalidades.

Locais que já sediaram Jogos Olímpicos de Inverno, como Grenoble e Chamonix, na França; Garmisch-Partenkirchen, na Alemanha; e Sochi, na Rússia, não seriam adequados como sedes futuras até 2050, segundo um estudo anterior de Scott. A projeção indica que a neve não seria suficiente para compensar o derretimento diário, e que a linha de chegada das pistas de esqui alpino nesses locais não congelaria durante a noite, tornando as provas inseguras.

Um segundo grupo de sedes anteriores —Vancouver, no Canadá; Palisades Tahoe, na Califórnia; Sarajevo, na Bósnia-Herzegovina; e Oslo, na Noruega— seria considerado “climaticamente arriscado”.

Nos novos resultados, Scott e seus colegas concluíram que os Jogos de Inverno de 2030, programados para várias cidades nos Alpes franceses, devem contar com condições confiáveis tanto para as Olimpíadas quanto para as Paralimpíadas. Já para os Jogos seguintes, previstos para Salt Lake City, o risco de neve marginal e de más condições da superfície aumenta especialmente para os Jogos Paralímpicos, disputados mais tarde.

As estações de esqui de Park City e Deer Valley, em Utah, que receberão várias provas dos Jogos de 2034, abriram com várias semanas de atraso no mês passado e enfrentaram um dos piores inícios de temporada de neve em mais de 30 anos. Toda a região das Montanhas Rochosas registrou, em 2025, o ano mais quente desde o início dos registros, em 1895, enquanto Utah superou sua média do século 20 em 4,3 graus Fahrenheit, segundo a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA).

Diante do aumento das temperaturas globais, dirigentes do COI avaliam a possibilidade de antecipar o calendário, iniciando as Olimpíadas em janeiro e os Jogos Paralímpicos em fevereiro, segundo Stoss.

Os organizadores também discutem a possibilidade de realizar as duas competições simultaneamente, em locais diferentes, para aumentar a chance de clima frio para todos os atletas.

A produção de neve artificial em estações de esqui é comum na América do Norte, mas enfrenta oposição de grupos ambientais e conservacionistas na Europa, que afirmam que a prática drena os recursos hídricos locais e pode causar danos a ecossistemas sensíveis.

À medida que atletas e treinadores se preparam para os próximos Jogos, a realidade de invernos mais quentes começa a se impor. Chris Hecker, técnico responsável pela aplicação de cera nos esquis da seleção americana de esqui cross-country, disse que a neve natural está se tornando uma raridade em competições de elite. Seu trabalho é encerar a base dos esquis levando em conta condições de neve cada vez mais variáveis.

“Sempre prefiro neve artificial porque ela é mais rápida”, disse Hecker. “Ainda assim, a neve natural sempre deixa o cenário ao redor muito mais bonito enquanto você esquia.”

Autor: Folha

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